Entrevista com Pedro Prata – Rewilding Portugal | Por Guilherme Sá

Guilherme Sá, professor do Departamento de Antropologia da UNB e coordenador do Laboratório de Antropologia da Ciência e da técnica, entrevista Pedro Prata, atual Diretor Geral da Rewilding Portugal, que é a organização que representa a Rede Rewilding Europe em Portugal.

Por Guilherme Sá

GUILHERME | Boa tarde, Pedro. Vamos iniciar com uma breve apresentação, você fez graduação em Biologia pela Universidade de Lisboa tendo pesquisado o comportamento das interações entre plantas e fungos, e, posteriormente, fez mestrado em ecologia e evolução na Universiteit van Amesterdam. Atualmente você é Diretor Geral da Rewilding Portugal, que é a organização que representa a Rede Rewilding Europe em Portugal.

PEDRO | É exatamente essa a minha função neste momento. O Rewilding Portugal é uma entidade parceira da iniciativa europeia e estamos a tentar a implantar cá a filosofia de conservação do Rewilding no contexto português.

GUILHERME | Podemos começar a falar sobre como você – a partir da perspectiva rewilding – avalia e compreende os processos que determinaram e que estão relacionados à gênese e à expansão da atual pandemia causada pelo SARS-COV-2?

PEDRO | Bem, eu falo de uma perspectiva de rewilding, mas também de uma perspectiva de biólogo e de cientista, e que compreende estes processos de ecologia e, neste caso, de origem de uma entidade biológica nova que surgiu sob a forma de um vírus que tem tido esse impacto na humanidade. Não é a primeira vez que isso acontece, já tivemos outros casos, com o zica, com o ebola, com MERS, com o SARS, são todos fenômenos que ocorrem por intervenção, por impacto, por intromissão das atividades humanas em ambientes naturais. A proximidade da atividade humana exploratória dentro dos espaços naturais, aliada a alta densidade dos aglomerados humanos que levam a estes fenômenos, tem dado origem a estes fenômenos. São processos naturais, no fundo. O que é diferente aqui, é que estamos a analisa-lo de uma perspectiva atual, contemporânea, com todo o conhecimento científico acumulado ao longo de séculos e que nos permite ter uma perspectiva diferente sobre esses fenômenos. É um fenômeno que afeta todos, o funcionamento das sociedades e a maneira como lidamos com esta pandemia, com as suas consequências… E isso, do ponto de vista do cientista, é também curioso porque é um contexto em que o cientista tem mão em cima. Ou seja, normalmente o cientista ou comunidade científica é tida e deixada para as questões societais apenas nas suas funções técnicas, para provir benefícios à sociedade e a decisão superior cabe sempre ao político, e à política, à comunidade mais ligada às decisões de âmbito político. Desta vez, os políticos não podem combater este inimigo sem a ajuda dos cientistas. E dependem até dos cientistas para compreender o que este novo fenômeno é. E isto dá uma grande margem de poder com a qual a sociedade e os políticos convivem muito mal. Isto ficou muito evidente em muitas das manifestações da sociedade em relação ao fenômeno. Eu não estou dentro da área da ciência que liga propriamente com virologia e com epidemiologia, se bem que é um dos componentes da biologia. A minha componente é mais focada, ligada à conservação da natureza que, no fundo, está na compreensão da origem destes fenômenos e das dinâmicas ecológicas que os levaram a tornarem-se reais. E, portanto, eu registro como uma consequência possível, aliás, dentro das possibilidades dos impactos de ingerência dos humanos nos ecossistemas, esta é a mais provável. A ocorrência de vírus altamente transmissíveis com impactos na saúde, com letalidade alta e que possam saltar entre as espécies, é o mais provável de acontecer quando se lida de maneira errada no sentido de preservação dos ecossistemas e do meio natural. Nós sabemos que essa mesma intromissão, que essa mesma falta de conhecimento e de respeito na maneira com que as sociedades humanas têm respeitado, lidado com os recursos naturais e a natureza e toda a sua complexidade, já sabíamos que tinha consequências. Já todos falávamos há muito tempo na degradação ambiental, na perca da biodiversidade, na consequência das alterações climáticas, nós sabíamos disso. Mas não era tão evidente como um novo ente biológico que nos afeta individualmente. E isso tem um caráter de força para a evidência sobre esses fenômenos muito marcante. E isso para mim é algo novo. Quer dizer, da última vez que tivemos uma coisa deste tipo foi há cem anos. Tivemos outros pequenos fenômenos, mais localizados, mais regionais com os outros vírus e que nós sabíamos, portanto, a probabilidade de isso se tornar uma coisa transversal e global era real, mas nunca tínhamos vivido. Como da mesma maneira nunca vivemos de uma maneira muito impactante e transversal e global as consequências das alterações climáticas, não houve um fenômeno que fosse tão traumatizante como este está a ser a nível da saúde. Portanto, esta é a maneira como eu observo o desenrolar destes acontecimentos hoje em dia.

GUILHERME | Então, aproveitando essa aproximação com a chamada questão ambiental, eu gostaria que você falasse sobre a relação entre as iniciativas Rewilding Europe e o combate aos efeitos das mudanças climáticas.

PEDRO | Portanto. A iniciativa Rewilding e as iniciativas locais, das quais o Rewilding Portugal faz parte, tem como objetivo criar espaços na Europa onde seja possível dar o espaço e o tempo à natureza para recuperar as suas funções e as suas funções de restauro próprio. Ou seja, a ideia aqui é que o ser humano intervenha no sentido de dar possibilidade de que a natureza se regenere. E procuramos fazê-lo em áreas demonstrativas desses efeitos. A Europa por si já é uma entidade cultural que tem tido uma relação com a natureza nas últimas décadas que é de ter alguma atenção, seguir um caminho próprio no sentido da preservação e da conservação dos valores naturais, muitas vezes, por meio de coexistência, de aceitar a natureza tal como ela é. E com o Rewilding Europe vem trazer um bocadinho” sobre isso, mais além, não só permitir o seu espaço, não só permitir a sua coexistência, mas dar o tempo, o espaço, e algumas das ferramentas em falta – que são funções de ecossistemas, são habitats, são espécies – que lhe permitam exercer ou efetivar melhor os seus próprios mecanismos de restauro. E esse restauro é muito importante dentro de um panorama global em que há um desequilíbrio no clima, na atmosfera, na biosfera, na litosfera que já é uma evidência até geológica, com o Antropoceno. Perante isso, ter confiança, que é uma confiança científica, não é uma confiança de fé, mas é uma confiança científica que a natureza tem a sua capacidade de regenerar se lhe for permitido. É nesse sentido que o Rewilding Europe vê o combate às alterações climáticas, é permitindo que a própria natureza o possa fazer. É também evidente para nós nesta iniciativa e nesta abordagem que replicar o erro de termos sempre a necessidade de encabeçar toda e qualquer atividade com o centro no humano foi o que nos trouxe até aqui! E nós reconhecemos a capacidade dos processos naturais – não excluindo o homem, e isto também é uma coisa que tem que ser evidente – e daí esta tradição europeia da coexistência e da convivência não nos pondo parte, mas sim, não nos pondo como proeminência, sendo apenas uma das partes, talvez aquela que permite o início deste tipo de processo regenerativo, mas confiando que os processos naturais têm essa capacidade de se regenerar e, com isso, ajudar até a um equilíbrio de todas estas condições ambientais que levaram a processos de alterações climáticas que já são evidentes. Portanto, é um bocado nesta perspectiva que o Rewilding contribui. E, depois, exemplos muito práticos e muito significativos disso. A Rewilding Europe tem um programa, que não é aqui em Portugal, são biomas do norte da Europa, com as turfeiras, os Peatlands, que são zonas de alagamento, de águas frias, alcalinas e ácidas onde há uma grande acumulação de carbono porque a biomassa desses ecossistemas é muito produtiva. Ou seja, sugam o carbono da atmosfera para depositar nessas turfeiras. Este, se fosse contabilizado, é muito mais eficiente do que qualquer outro processo natural ou artificial na captura de carbono. E tudo que eles precisam é condições para que isso possa acontecer. São processos simples, são ecossistemas não muito complexos, precisando condições muito básicas e fáceis de provir. E são os mais eficientes a fazê-lo! E, portanto, permitir que essas turfeiras suguem este carbono e o retirem da atmosfera é um contributo, a escala que for, mas é um contributo muito eficaz. E não é eficaz por causa da atividade humana. A atividade humana aqui só serve para dar a hipótese, e essa hipótese é a hipótese de estes processos desempenharem o seu próprio ciclo, o seu modo natural de operação. E isso é evidente com uma aplicação muito prática de como é que se pode contribuir para o combate aos efeitos das mudanças climáticas com ações muito concretas notadamente mensuráveis, estáveis e demonstráveis a todos os níveis.

GUILHERME | Então nós estamos falando de um fenômeno em escala global, mas também de uma rede de coexistência que, como você colocou, é uma rede europeia. Queria voltar no assunto sobre como a Rewilding Portugal lida com a questão da escala. Nesses termos – de escala e dimensão – qual seria a eficácia ou a eficiência dos projetos que a Rewilding Portugal tem tentado implementar para combater os efeitos das alterações climáticas? Seria possível falar em alguma ação preventiva rewilding que pudesse interromper esse processo de mudança do clima mais amplo?

PEDRO | Focando no trabalho que nós fazemos aqui, a nossa escala dentro do contexto português, nós primeiro somos uma organização recente, começamos a trabalhar no início de 2019. Mas começamos a trabalhar de uma maneira focada no sentido de que estamos a apontar toda a nossa atenção e esforços com uma determinada paisagem. E é uma paisagem que pode ser entendida como grande vista de perto mas, no fundo, é uma pequena parte do país. Nós trabalhamos essencialmente no que é o Grande Valedo Coa, que, no fundo, é a bacia hidrográfica do Rio Coa. O Rio Coa é um afluente do Douro, tem cerca de 200 km de comprimento e a sua bacia hidrográfica, que é a área que nós trabalhamos, tem cerca de 300 mil hectares. Este território em si já é um corredor ecológico,já tem as suas funções de ecossistema próprias. Mas que tem riscos, não está completo, faltam alguns desses processos para que seja ainda mais eficaz enquanto corredor e enquanto paisagem, enquanto território natural. A nossa ação aqui se insta em dois parâmetros. Por um lado, repelir as ameaças, tudo que seja ameaça a interrupção dos processos naturais em curso dentro deste território – e quando eu falo de processos naturais estou a falar de espécies selvagens, dos habitats, do funcionamento hidrológico, de todos os processos naturais, do crescimento e regeneração das florestas etc., ou seja, tudo que possa ameaçar isso. Tentamos combate-lo de modo a permitir o tempo e o espaço para que a natureza prossiga. E, por outro lado, aproveitar oportunidades. E uma das grandes oportunidades que se apresentam neste território é um abaixamento da intensidade da atividade agrícola que também decorre de processos de organização territorial, política e econômica que são promovidos dentro da União Europeia e que levou a que solos marginais, menos produtivos menos férteis, com climas bastante agrestes, como algumas das partes daquela região tem, fossem simplesmente abandonadas. Porque economicamente não fazem, não fariam sentido e foram sendo abandonadas, o que permitiu o espaço e o tempo para haver uma regeneração. Nós aqui então atuamos sobre esta oportunidade, sabendo que isto já está a acontecer, e promovendo que ela se desenvolva o mais possível evitando as ameaças que possam interromper esses processos naturais. Ao mesmo tempo, tentamos completar algumas das funções em falta. Há funções que estão em falta por razões históricas, por impactos de algumas dessas ameaças, por diferentes condições e então a nossa estratégia é mesmo essa, de promover estas funções para que os sistemas sejam mais complexos, mais diversos e o mais abundantes possível porque esta abundância das relações e de todos os seres da biosfera em si, que é o que formam os ecossistemas, contribui para que, por um lado, a natureza possa regenerar pelos seus próprios processos e, ao mesmo tempo, equilibrar muitos dos desequilíbrios que levam a alterações climáticas. E nós queremos mostra-lo, mostrar que é possível fazê-lo. E esse é o nosso objetivo e propósito como organização, e com o objetivo dos projetos cuidamos aqui, para esta visão mais global do que que é uma área de Rewilding com demonstrativa de quase um fogo novo na atitude europeia da conservação da natureza, que já vinha da coexistência e da convivência, mas dar um passo mais a frente e ser um bocado mais ambicioso e não ficar só pelo estancar de perca de biodiversidade ou estancar a redução dos habitats. Mas não, permitir que eles se expandam, permitir que a biodiversidade aumente e, acima de tudo, que a abundância seja alta e consequente. Para, exatamente, que tenha a capacidade, todos aqueles mecanismos de feedback que permitem o equilíbrio, equilíbrio dinâmico, de recuperação e de regeneração, possa ter o seu espaço próprio e tempo próprio e, preferencialmente, durante o nosso tempo de vida enquanto cá estamos para poder apreciar também.

GUILHERME | A propósito, quais seriam as possíveis contribuições aportadas pela iniciativa Rewilding para um mundo pós-pandemia?

PEDRO | As contribuições que a gente pode dar para o mundo pós-pandemia dependem em boa medida do que será essa nova realidade pós o fenômeno. Uma das coisas que sabemos que, provavelmente, acontecerá é que a própria relação do ser humano com o que é o mundo natural terá que ser considerada de uma perspectiva diferente. Ou seja, já há um previdente de uma má relação. Porque foi o que levou a pandemia ter acontecido. Portanto, a maneira como se lida com os processos e a natureza tem que ser de uma maneira que, pelo menos, não crie condições para que seja, pois, um feedback negativo para nós enquanto seres humanos. E a contribuição da parte de quem está no terreno a trabalhar estas questões é um bocadinho mostrar, e aqui estamos a fazer, maneiras diferentes de ter este tipo de relação. Ou seja, relações extrativas, relações destrutivas, relações… antropocentrismo em relação à maneira como se lida com os demais deste planeta – vivemos todos no mesmo planeta – essas são relações que têm de ter outro tipo de funcionamento. E nós estamos a propor um novo tipo de funcionamento, que antes da pandemia e após a pandemia pretende que seja um relacionamento mais positivo para ambas as partes do ponto de vista do benefício para os lados e, após a pandemia, além disso, há também essa questão de caráter antropocêntrico de nos precavermos contra novos fenômenos como este, deste tipo. E, portanto, eu considero que nós estamos um bocadinho aqui na linha de frente do que que é possível fazer diferente. Porque foi nesta linha de frente de uma prática que surgiu um problema e aí nesta linha de frente de alteração destas práticas pode surgir uma solução. E é isto que nós procuramos, encontrar soluções positivas para a natureza, os humanos enquanto parte dela, e o planeta em que todos habitamos, porque estamos cá juntos nisso. E é nesta linha de frente que se vai procurar e desenvolver e surgir maneiras novas de nos relacionarmos.

GUILHERME | As iniciativas da rede Rewilding Europe, e a Rewilding Portugal faz parte dela, têm nas relações antrópicas um fator de destaque a ser considerado na elaboração e desenvolvimento de seus projetos de renaturalização. É possível falar sobre essa característica em relação às demais vertentes conservacionistas como algo específico do pensamento rewilding?

PEDRO | Sim, eu já abordei um bocadinho esta questão da maneira como o componente antrópico se posiciona nestes processos de conservação. Difere do que é conservação clássica do que é os processos de renaturalização que o Rewilding pretende implementar. E tem, no seu cerne, a posição em que o antrópico, o humano, se posiciona. Na visão clássica, o antrópico era o gestor, era o manager, pois era ele que decidia como é que, quais as espécies é que se salvam, quais habitats é que se mantém, como que isso é feito.Havia um impacto muito grande dos processos de gestão perante a natureza que, muitas vezes, se traduziam em visões estáticas do que era a própria natureza. Ou seja, um limiar de diversidade, um estado de um ecossistema, um certo, uma certa intensidade de um processo era o objetivo a manter. Sendo que, na natureza, isto raramente acontece. Não há equilíbrios na natureza, há dinâmicas equilibradas, o que é muito diferente. E essas dinâmicas equilibradas implicam que espécies de populações, habitats, processos, tenham variações. As vezes são mais intensos, as vezes há mais abundância, as vezes há menos abundância. Os ecossistemas alternam seus estados e voltam atrás, e isto são processos que acontecem por causa da dinâmica complexa com que todos os seres se relacionam. Aceitando isso, essa relação dos diferentes componentes do sistema, é o foco da iniciativa da renaturalização. É permitir e garantir, ou as vezes até provir todas essas dinâmicas e relações coexistem, são em permanente dinamismo e aí esse dinamismo faz o equilíbrio. O que é equilibrado não é a natureza, o que é equilibrado é a dinâmica dela. E permitir que essa dinâmica aconteça sabendo que há resultados que não são previsíveis, sabendo que há variações que não são esperadas, mas aceitando-as como resultado próprio desses fenômenos, é a maneira diferente de como o antrópico se vê num processo de renaturalização inspirado na filosofia do rewilding, que é um bocadinho distinta do que era entendido como a conservação clássica, que teve o seu papel no mundo, de estancar muitas vezes tendências negativas de degradação de habitats e desaparecimento de espécies, mas que, na Europa, felizmente chegamos a um ponto em que se pode dar um passo mais além. E esse passo mais além implica mudar a posição em que o antrópico se posiciona perante os novos fenômenos. E é esta novidade do rewilding na sua posição enquanto agente antrópico dentro dos processos de renaturalização.

GUILHERME | Então vamos à última pergunta. Ao pensar de maneira sistêmica as questões sociais, econômicas e ambientais percebe-se que há uma correlação entre atitudes antagônicas acerca da exploração e da preservação dos biomas no hemisfério sul e no hemisfério norte. Como você avalia essa desigualdade e como pensa a viabilidade de iniciativas rewilding para o caso brasileiro, por exemplo?

PEDRO | O que eu posso te dizer é que primeiro enquanto iniciativa nacional do Rewilding Portugal e dentro da iniciativa europeia do Rewilding Europe, nós estamos em contato com várias iniciativas ao nível global dentro do mesmo espírito e prática. No caso do sul e da América do Sul, existe o Rewilding Argentina, tem uma postura até bastante ambiciosa com demonstração e de criar um impacto significativo e real. Para o caso brasileiro eu acho que é aquele grande diamante por polir. É um território incrível, altamente diverso, altamente biodiverso que sempre foi tido e dado como exemplo, até na minha formação enquanto ecólogo e da minha experiência profissional, até por contato próprio com a realidade brasileira e iniciativas do mesmo tipo contextualizadas no Brasil, acho que tem perfeita oportunidade em termos ecológicos e de contexto. O que eu acho que falta, se calhar, no grande sul é construir uma alternativa viável de combate às desigualdades nas sociedades da América do Sul e do hemisfério Sul em termos sociais e econômicos, e tem um grande peso do componente do hemisfério norte nessa situação em que se encontram. Ainda não chegamos ali a um ponto societal que permite uma abordagem mais ambiciosa e progressiva nesse contexto de renaturalização. Tirando esse fator, que eu acho que se auto trará, e assim espero, em termos ecológicos, em termos de espaço e tempo, o grande sul eventualmente está em melhores condições de promover processos de renaturalização a escalas significativas, a impactos significativos melhores do que até o hemisfério Norte. Agora, este desequilíbrio socioeconômico entre os dois hemisférios está efetivamente a, se calhar, a impedir que isto se manifeste mais rapidamente, mais evidentemente. E isto também é responsabilidade do Norte, não é só responsabilidade do Sul e, mais uma vez, o sul e o norte são duas faces da mesma moeda porque são dois lados do mesmo planeta. Estamos todos juntos nisso. O clima é impactado e tem consequências para todos. As iniciativas que possam contribuir para que seja mais justa a maneira como esses impactos e essas consequências do grande ecossistema global que todos partilhamos é tanto do Norte como do Sul, é de todos, no fundo. E, portanto, eu, o que eu desejo, é que as questões sociais e econômicas possam melhorar no Sul como melhoraram para o norte e isso permita criar a abertura para que iniciativas de tornar o mundo mais natural, de renaturalizar e de permitir a sua própria renaturalização que os ecossistemas tenham capacidade de fazer, aconteça, tanto aqui como lá.

GUILHERME | Muito obrigado, Pedro.