Carolina Bernardes | Oikospoética: a tecelagem literária de retorno ao lar

Título: Carolina Bernardes | Oikospoética: a tecelagem literária de retorno ao lar


No imenso oceano da criação abre-se uma passagem de retorno ao lar e principiamos a viagem de volta, honrando a linhagem circular de Penélope: a casa, a tecelagem e o mito. Nossa proposta pretende experimentar a práxis mística e poética das artes caseiras desenvolvidas por seus cômodos como correspondência dos âmbitos existenciais da vida humana (porão, quintal, cozinha, quarto, sala, sótão) e, ainda, com os elementos constitutivos da árvore (raízes, tronco, seiva, rama). Percebemos uma correlação íntima desses organismos vivos, como Centro do ser/estar no mundo que potencializa a espiral de ascensão cósmica. Pelo “sentir-pensar-fazer” feminino – composto de idas e vindas e entrelaçamentos lunares –, devemos encetar a prática literária como fio da urdidura da casa-tear, em busca da “arte da vida” que promove a criação de si, a organização do micro e do macrocosmo e a reconexão com Gaia. A fundamentação teórica recorre às “filosofias da vida” de Nietzsche e Bergson; à literatura de salvação empreendida por N. Kazantzakis; ao conceito de autopoiese de H. Maturana; às bases de formação integral do ser humano desenvolvidas pela Antroposofia de R. Steiner; à poética do espaço de Bachelard e de autores de linha espiritualista; ao mitologismo desenvolvido por estudiosos da Grécia clássica e da modernidade; aos estudos sobre o feminino de vertente espiritual; à proposta cosmopolítica de magia e feitiçaria de Isabelle Stengers. Assumindo o transbordamento dos gêneros e discursos, o intuito é o de fazer uma escrita xamânica por meio das práticas caseiras – terrenas e espirituais – e tecer na casa-medicina um xale que nos abrace e que igualmente possa envolver Gaia.


FICHA TÉCNICA

Concepção da oficina |Carolina Bernardes, a doutora em teoria literária.

Participantes e criações | Gláucia Perez, Carolina Avilez, Rafael Ghiraldeli, Luciana de Souza, Jaqueline Medeiros, Marília Costa, Mariana Vilela e Gabriela Rodrigues, Susana Dias, Alice Dalmaso, Mauro Tanaka, Rodrigo reis Rodrigues, Maria Cortez Salviani, Marli Wunder, Sara Melo e Carolina Bernardes.

Fotos | Carolina Avilez, Rafael Ghiraldeli e Susana Dias

Lugar | Praça da Paz Unicamp

Data | 28 de agosto de 2019


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Esta atividade fez parte da proposta da disciplina “Arte, ciência e tecnologia” – MDCC-Labjor-IEL-Unicamp segundo semestre de 2019 no Encontro 1 – “Devir criança-animal-elemental-traidor”, dentro da série de encontros “Ecologias de Devires: do chamado a fazer-perceber floresta” organizado pelo Grupo multiTÃO: prolifer-artes sub-vertendo ciências, educações e comunicações.

Disciplina: JC012 Arte, ciência e tecnologia

Professora – Dra. Susana Dias

Esta série de encontros está sendo proposta no âmbito da disciplina “Arte, ciência e tecnologia” onde o problema que nos interessa pensar é o de entrar em comunicação com um mundo todo vivo, com uma matéria viva, ativa e criativa (DELEUZE & GUATTARI, 1997; STENGERS, 2017; EZCURDIA, 2016; DADA & FREITAS, 2018). Seguiremos neste semestre com a ideia de pensar o que pode ser comunicar em parceria com a floresta, propondo encontros com diversos lugares, materiais e práticas para que possamos aprender com diferentes ofícios a como ganhar intimidade com as florestas. Uma das questões que a floresta suscita de interessante para pensar é o fato de reunir uma diversidade de seres-coisas-forças-mundos e propiciar condições para encontros, com a possibilidade de gerar co-evoluções, co-criações. Nessas co-evoluções-criações estão sempre envolvidas ecologias de devires (negro, índio, animal, vegetal, criança, fungo, máquina, pedra, animal, linha, luz, elemental, cósmico…), a chance de que sejamos afetados e afetemos, de que nos engajemos em movimentos de alegre imbricação recíproca com as minorias, com os não-humanos, com tudo o que pode potencializar o pensamento e a relação com a Terra. Nesse sentido os encontros foram pensados em blocos de devires e neste segundo encontro propusemos “Devir-casa-planta-cosmos”. Os encontros, e os exercícios de composição sensível entre heterogêneos que serão feitos depois, buscam dar vigor ao chamado de pensar a comunicação como um perceber-fazer-floresta. Uma fé na “instauração” (SOURIAU, 2017; LAPOUJADE, 2017) de toda uma sensibilidade de outra natureza, que permita criar um campo problemático potente para lidar com as dualidades sujeito-objeto, realidade-ficção, humanos-não-humano, matéria-espírito. Uma atenção ao gestos que mobilizam uma “lucidez alegre” (STENGERS, 2017) e que não nos relegam à impotência, afirmando uma vitalidade e confiança no presente e futuro diante destes tempos desafiadores (DANOWSKI & VIVEIROS DE CASTRO, 2014; STENGERS, 2015; LATOUR, 2019).

Bibliografia

DADA, Faseyi Awogbemi; FREITAS, Glória. Dialogando com a semente de obi ou a floresta: um convite para conhecer um pouco da nossa tradição religiosa e cultura Yoruba. ClimaCom – Diálogos do Antropoceno [online], Campinas, ano. 5, n. 12. Ago. 2018 . Available from: https://climacom.mudancasclimaticas.net.br/?p=9478
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia, vol. 4. Trad. de Suely Rolnik. São Paulo: Ed. 34, 1997, pp. 11-113. (Coleção TRANS).
EZCURDIA, José. Cuerpo, intuición y diferencia em el pensamento de Gilles Deleuze. Ciudad de México: Editorial Ítaca, 2016.
DANOWSKI, Débora; CASTRO, Eduardo Viveiros de. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Desterro [Florianópolis]: Cultura e Barbárie: Instituto Socioambiental, 2014.
LAPOUJADE, David. As existências mínimas. São Paulo: n-1, pp. 43-59, 2017.
LATOUR, Bruno. Bruno Latour: “O sentimento de perder o mundo, agora, é coletivo”. [Entrevista concedida a] Marcs Basset. El País, 31 de março de 2019. Disponível em: https://brasil.elpais.com/…/internac…/1553888812_652680.html Acesso em: mar. 2019.
SOURIAU, Étienne. Los diferentes modos de existencia/ Étienne Souriau: prefácio de Bruno Latour; Isabelle Stengers. Trad. Sebastian Puente. 1a. ed.. volumen combinado. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Cactus, 2017.
STENGERS, Isabelle. No tempo das catástrofes: resistir à barbárie que se aproxima. Trad. Eloisa Araújo Ribeiro. São Paulo: Cosac Naif, 2015, pp. 91-99.
STENGERS, Isabelle. Reativar o animismo. Trad. Jamile Pinheiro Dias. Belo Horizonte: Chão de Feira. (Caderno de Leituras No. 62). 2017. Disponível em: https://chaodafeira.com/…/2017/05/caderno-62-reativar-ok.pdf Acesso em ago. de 2019.


Projetos:

– Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas (INCT-MC) – (Chamada MCTI/CNPq/Capes/FAPs nº 16/2014/Processo Fapesp: 2014/50848-9)

– “Por uma nova ecologia das emissões e disseminações: como a comunicação pode modular a mais intensa potência de existir do humano diante das mudanças climáticas?” (CNPq).

– Revista ClimaCom: https://climacom.mudancasclimaticas.net.br/

 

 

BERNARDES, Carolina. Oikospoética: a tecelagem literária de retorno ao lar – A Linguagem da Contingência [online],  Campinas,  ano. 6, n. 15. Ago. 2019 . Available from: https://climacom.mudancasclimaticas.net.br/oikospoetica-a…retorno-ao-lar/

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SEÇÃO ARTE | A LINGUAGEM DA CONTINGÊNCIA | Ano 6, n. 15, 2019

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