O processo de reflexão da prática docente no uso de metodologias ativas: narrativas de experiências nos anos iniciais do Ensino Fundamental | Lygia Nascimento de Almeida


Lygia Nascimento de Almeida [1]

INTRODUÇÃO

 

Durante todo o processo de formação, seja inicial ou continuada, e ao longo dos 20 anos de atuação docente na Educação Infantil, foi possível refletir sobre os processos de aprendizagem das crianças e, ao mesmo tempo, vivenciar as mudanças no meio educacional brasileiro no que se refere à estruturação da educação básica, prevista pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDBEN (BRASIL, 1996). Um exemplo disso foi a entrada da criança de seis anos para o Ensino Fundamental, fase conhecida como escolarizante, com uma ênfase maior no início da alfabetização das crianças, tornando-se inclusive fonte de preocupações e críticas entre os pesquisadores (DEMO, 2013). 

Mudanças estas que provocam descontentamento em parte dos educadores, já que a criança passa a viver de fato uma fase escolarizante e, portanto, conteudista. Em razão disso, a autora do presente artigo tem buscado, em suas práticas de sala de aula, desenvolver experiências práticas que envolvam o lúdico, a autoria e a criação, atendendo às recomendações de Corsaro (2011), que destaca a necessidade de as crianças participarem ativamente na construção social da infância e na reprodução interpretativa de sua cultura compartilhada.

Partindo desta premissa, faz-se necessário rever o espaço da sala de aula e ressignificá-lo enquanto espaço de aprendizagem, uma vez que as ferramentas tecnológicas mudaram a forma como essas crianças interagem com as mídias e como essas ferramentas influenciaram nas suas atitudes e brincadeiras, bem como no uso na apropriação da leitura e da escrita no contexto diário. Nesta linha de pensamento, Bondía (2002, p. 24) destaca preocupações sobre o tempo e o espaço que a aprendizagem envolve sobretudo na educação das crianças:

A experiência, a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm: requer parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar aos outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço. (BONDÍA, 2002, p. 24).

Na citação de Bondía, vê-se a necessidade da “arte do encontro”, o que leva a necessidade de respeitar o espaço e o tempo da aprendizagem das crianças, levando em conta, pois, as suas questões culturais e, portanto, a necessidade de trazer para a sala de aula ferramentas multimodais, para que nos aproximemos à realidade das crianças.

Conseguir este intento tornou-se, então, um desafio na prática diária da autora deste artigo, levando-a, portanto, a pesquisar sobre o uso dessas ferramentas multimodais e de que forma poderia utilizá-las como suporte no aprendizado da leitura e da escrita no processo de alfaletramento. 

Deste modo, como professora, estava cada vez mais consciente da necessidade da inovação, o que exigiu de mim a necessidade de escuta dos estudantes para conhecer as diferentes culturas, visto que elas fazem parte do processo de construção/desconstrução/reconstrução das relações de aprendizagens, tornando-a mais significativa. Assim, verificamos que cabe ao educador superar o abismo que há entre a escola e o mundo fora dela, visto que não se pode mais ignorar que as crianças são construtoras de conhecimento e vivências que constituem a sua infância e suas relações que interferem em sua aprendizagem (CORSARO, 2011).

Daí a necessidade, como destaca Smolka (2012), de se alfabetizar letrando, levando em consideração os conhecimentos e vivências dos estudantes. Assim, estima-se que estreitar o laço entre a vida na escola e fora dela pode favorecer uma aprendizagem mais significativa para as crianças que passarão a ver mais sentido no que lhes é ensinado, isto é, na produção de sentido nos processos de construção da leitura e da escrita de modo a fazer uso da linguagem nas suas várias possibilidades dentro e fora do espaço escolar. Conforme Soares (2004), seja na alfabetização ou em qualquer fase, uma vez que o letramento é um processo ininterrupto durante toda a vida humana.

Por sua vez, importante fazermos menção a Bakthin (2010) que, ao tratar das condições de produção do conhecimento humano, destaca a relação dialógica mediada pela linguagem e a presença do outro em sua constituição: em sua cultura (suas ciências, suas filosofias, suas religiões, suas linguagens, suas artes, suas tradições, suas economias…) e em sua vida. Daí, então, a importância de se refletir a relação professor e aluno para que a aprendizagem ocorra. Deste modo, a busca por literaturas que contribuíssem para um ensino de libertação e humanização passou a fazer parte das minhas tarefas diárias: percebi, assim, a necessidade de ajustes constantes em minha prática docente, visto que como aponta Freire (1982), somos, enquanto humanos, seres inacabados e em permanente constituição (Leia o artigo completo em PDF).

 

Recebido em: 30/06/2020

Aceito em: 30/07/2020

 

 

[1] Professora alfabetizadora e pesquisadora, mestranda na Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. E-mail: lygia.almeida@hotmail.com.

O processo de reflexão da prática docente no uso de metodologias ativas: narrativas de experiências nos anos iniciais do Ensino Fundamental

 

RESUMO: O presente ensaio reúne narrativas autobiográficas que descrevem experiências vividas no cotidiano de uma escola com crianças dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Nelas, é possível perceber a importância das múltiplas linguagens na aprendizagem significativa de estudantes com ou sem necessidades especiais. Destaco, neste ensaio, que muitos conhecimentos adquiridos ao longo da formação continuada me “cobravam” a (re)significação de minha prática. A escuta sensível e o envolvimento das crianças no plano de aula foram essenciais para proporcionar a elas uma educação integral, não apenas nos primeiros anos da aprendizagem da leitura e da escrita, mas uma educação para a vida. Assim, uma metodologia ressignificada de trabalho por meio das metodologias ativas pode favorecer a aprendizagem docente e discente, além de tornar a escola um espaço mais acolhedor para as crianças e estreitar os laços com a família.  No entanto, o presente ensaio demonstra a partir de minha experiência que não se faz necessário grandes recursos materiais; mas a valorização do potencial das crianças, a (co)responsabilização delas, o envolvimento da família e a decisão de inovação do professor. 

PALAVRAS-CHAVE: Narrativas autobiográficas. Metodologia ativas. Ensino Fundamental.

 


The process of reflection on the teaching practice of using active methodologies: narratives of experiences with early years of Elementary School

 

ABSTRACT: The current essay brings together autobiographical narratives which describe daily experiences lived within in the daily life of a school with children from the early years of Elementary School. These narratives evidence the importance of the use of active methodologies and multiple languages when aiming student’s meaningful learning, regarding both children with and without disabilities. I highlight in this essay that much of the knowledge acquired during the process of continuing education demanded me to resignify my teaching practice. Nevertheless, the teaching plans were essential to provide them an integral education, not only for their early years of learning how to read and write, but envisioning an education for life. Therefore, the use of active methodologies as a means to resignify the learning environment can support both teacher’s and student’s learning and make the school more engaging for the children. Furthermore, the present essay shows from my own experience that great material resources may not be needed to employ such methodologies; Instead, an appreciation of the children’s potential, their co-responsibility, family involvement and a decision of the teacher to innovate were shown to be necessary. 

KEYWORDS: Autobiographical narratives. Active methodologies. Elementary school.

 


ALMEIDA, Lygia Nascimento de, O processo de reflexão da prática docente no uso de metodologias ativas: narrativas de experiências nos anos iniciais do Ensino Fundamental. ClimaCom – Devir Criança [Online], Campinas, ano 7,  n. 18,  Set.  2020. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/o-processo-de-reflexao-da-pratica-docente-no-uso-de-metodologias-ativas-narrativas-de-experiencias-nos-anos-iniciais-do-ensino-fundamental-lygia-nascimento-de-almeida