O pensamento selvagem, da domesticação à feralização | Enzo Estevinho Guido


 

Enzo Estevinho Guido [1]

 

Gilles Deleuze e Félix Guattari, no décimo ensaio de Mil Platôs, mencionam a importância do legado de Lévi-Strauss: “O estruturalismo é uma grande revolução, o mundo inteiro torna-se mais razoável” (Deleuze, Guattari, 1997, p. 17). De fato, ao encararmos a história da antropologia, é notável a revolução encabeçada pelo antropólogo francês.

 

No início de sua obra O pensamento selvagem, Lévi-Strauss dedica-se a rebater a crença de seus colegas, de que os povos designados como “selvagens”, tendem a pensar guiados por suas necessidades básicas, como a fome, o que em realidade, difere totalmente do factual como explicitado na passagem:

 

Essa ânsia de conhecimento objetivo constitui um dos aspectos mais negligenciados do pensamento daqueles que chamamos de ‘primitivos’. Se ele é raramente dirigido para realidades do mesmo nível daquelas às quais a ciência moderna está ligada, implica diligencias intelectuais e métodos de observação semelhantes. Nos dois casos, o universo é objeto de pensamento, pelo menos como meio de satisfazer a necessidade. (Lévi-Strauss, 1989, p. 17).

 

O antropólogo vai além, colocando o pensamento selvagem no mesmo patamar do pensamento domesticado ocidental:

 

Cada civilização tende a superestimar a orientação objetiva de seu pensamento; […]. Quando cometemos o erro de ver o selvagem como exclusivamente governado por suas necessidades orgânicas ou econômicas, não percebemos que ele nos dirige a mesma censura. (Lévi-Strauss, 1989, p. 17).

 

Lévi-Strauss encerra essa seção de seu texto afirmando que, para os povos assim ditos selvagens “as espécies animais e vegetais não são conhecidas porque são úteis; elas são consideradas úteis ou interessantes porque são primeiro conhecidas” (Lévi-Strauss, 1989, p. 24). A partir de tal premissa entendemos porque o totemismo privilegia os animais e as plantas a níveis de totens, pois eles não estão dados ao pensamento selvagem simplesmente para satisfazer suas necessidades básicas, mais importante ainda, eles são bons para se pensar.

 

Mais do que desmistificar as ideias eurocêntricas de sua época, Lévi-Strauss nos apresenta, com suas obras, o potencial de outros mundos possíveis, nos quais o totemismo, ou agente totêmico, toma o papel central como representante do pensamento selvagem, o qual desafia as demais antropologias. Se visto através de um prisma filosófico, podemos entender o totemismo como uma metafisica2, porém totalmente ao avesso do antropocentrismo ocidental moderno, cujos autores buscam estabelecer um abismo intransponível entre homem e natureza, entre o homem e o animal. A metafisica totêmica é aquela que concilia os campos entre animais humanos e não humanos, como observado na passagem do texto Totemismo hoje: “O totemismo aproxima o homem do animal e a alegada ignorância do papel do pai na concepção chega a substituir o genitor humano por espíritos mais próximos ainda as forças naturais” (Lévi-Strauss, 1975, p. 14).

 

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Recebido em: 20/03/2021

Aceito em: 15/04/2021

 

[1]  Graduando da Universidade Federal do Paraná. E-mail: enzoguido20@gmail.com

[2] Tal ideia do totemismo como uma possível anti-metafísica moderna foi expressa pelo professor Marco Antonio Valentin em suas aulas de Teoria das Ciências Humanas durante o período especial de 2020-2021 UFPR.

 

O pensamento selvagem, da domesticação à feralização

 

RESUMO: O presente texto é fruto do trabalho teórico executado na disciplina Teoria das ciências Humanas, ministrada pelos professores Marco Antonio Valentin e Juliana Fausto em 2020 na Universidade Federal do Paraná. Nele apresento a trajetória percorrida por Lévi-Strauss em sua obra O pensamento selvagem. Desde sua ruptura com a antropologia clássica enquanto atribui ao pensamento selvagem as qualidades de filosofia moderna, até sua aparentemente domesticação no que diz respeito à sua crítica à prática do sacrifício. O texto se encerra com perspectivas potencializadoras do pensamento selvagem exprimidas por Eduardo Viveiros de Castro e Carlos Castañeda.

 

PALAVRAS-CHAVE: Antropologia. Lévi-Strauss. Eduardo Viveiros de Castro. Carlos Castañeda.

 


The savage mind, from the domestication to the feralisation

 

ABSTRACT: This text is the result of the theoretical work carried out in the discipline Theory of Human Sciences, taught by professors Marco Antonio Valentin and Juliana Fausto in 2020 at the Paraná Federal University. In it I present the trajectory taken by Lévi-Strauss in his work The Savage Mind, due to his break with classical anthropology while attributing to the wild thought the qualities of modern philosophy, until his apparently domestication of such thought with regard to his criticism of the practice of sacrifice. The text ends with perspectives that potentiate wild thought expressed by Eduardo Viveiros de Castro and Carlos Castañeda.

 

KEYWORDDS: Anthropology. Lévi-Strauss. Eduardo Viveiros de Castro. Carlos Castañeda.

 


GUIDO, Enzo Estevinho. O pensamento selvagem, da domesticação à feralização. ClimaCom – Coexistências e cocriações [Online], Campinas, ano 8, n. 20,  abril.2021. Available from: https://climacom.mudancasclimaticas.net.br/o-pensamento-selvagem/