O garatujar como ação molecular: devires que arrastam linhas de escrita…| Monalisa Romanesi Santos, Francieli Regina Garlet e Vivien Kelling Cardonetti


Monalisa Romanesi Santos[1]

Francieli Regina Garlet[2]

Vivien Kelling Cardonetti[3]




Esse artigo tem como disparador de escrita e pensamento a noção de “garatujar”, a qual germinou em uma torção que a tornou verbo, ação e potência infante na pesquisa de Trabalho de Conclusão de Curso (SANTOS, 2018) da primeira autora desse artigo[4].

As forças moleculares acionadas por um garatujar, que ora é também um “gagaratujar”, abre passagem para um devir-criança[5] na escrita. Da pesquisa da primeira autora são trazidos recortes de um garatujar nos papéis instituídos de mãe. No agenciamento coletivo dessa escrita, agora com três pares de mãos, esse verbo passa a ser operado também para garatujar em outros papéis estabelecidos e outras noções majoritárias.

Adotamos em alguns momentos o ensaio como meio de conversação-escrita e como modo de movimentar nosso corpo/pensamento nessa experimentação em que desejamos escrever não apenas sobre algo que já se passou, pois desejamos também movimentar outros [im]possíveis. Entregando-nos, assim, às forças que sopram transformando a escrita e a nós mesmas. 

Buscamos um vigor e uma alegria de travessia, com intuito de acender em nós potências infantes. Em vista disso, passamos a escrever à espreita, sem saber de antemão onde a escrita vai dar, sabemos sim o que nos movimenta a estarmos juntas nessa escrita, mas escrevemos como quem desconhece o final. Esse artigo assediado em alguns momentos pela potência infante do ensaio é, assim, um “caminho que se abre ao tempo em que se caminha” (LARROSA, 2016, p. 27). 

Larrosa afirma que “o ensaísta não sabe bem o que busca, o que quer, aonde vai. Descobre isso à medida que anda” (LARROSA, 2016, p. 27). Assim, juntas e a seis mãos, vamos tateando as linhas de força que nos atravessam no agora, junto dos encontros que a noção de garatujar nos convida a explorar, arrebentando algumas linhas duras que nos compõem, deixando-as como fios soltos a brincar com o vento, a operar vias de fugas para fazer fugir o mundo.

A chamada desse dossiê fez brotar um desejo de escrever juntas, de compor um agenciamento de forças. Como afirma Dalmaso: “Uma criança brinca com aqueles que possam compor junto dela […] É como se ela sussurrasse: ´Se você não compor comigo, genuinamente, não vai rolar essa brincadeira’” (DALMASO, 2020, online). Assim, a brincadeira dessa escrita “rola” porque compomos uma com a outra nesse encontro, atentas ao que ele vai movimentando em nós.

Traçamos percursos por blocos de sensação: linhas, corpos, garatujas, paredes, papéis, ar. Corpo-desenho, corpo-cansado, corpo-criança, corpo-docência, corpo-pesquisa. Uma mãe. Uma docência. Uma criança. Linhas duras, linhas moleculares. Desejos de escrita. Desejos de conversação. Desejo de coletivo. Coletivo mãe-e-filho. Coletivo de escrita-a-seis-mãos. Maternidade, trabalho, leitura, escrita, pesquisa, devir-criança. Sobreposição de tempos. Ensaio. Revezamento. 

Junto a esses blocos de sensação, são acionados/as para compor conosco, nessa conversação-escrita, alguns autores e autoras como: Deleuze (1990, 1992), Deleuze e Guattari (1996, 2011, 2012), Derdyk (1989), Santos (2018), Hara (2012), Larossa (2016), Corazza (2013), Ribetto (2011), Skliar (2014), Gil (2009), Kohan (2004) e Rolnik (2018). Nesses agenciamentos, produz-se a problemática que atravessa e mobiliza essa escrita: que forças moleculares e crianceiras um garatujar pode produzir ao ser operado junto aos papéis instituídos?

Avisamos desde já ao/à leitor/a que concedemo-nos escrever esse texto num fluxo que perpassa ora a primeira pessoa do plural, ora a primeira pessoa do singular, ora a terceira pessoa do singular, tendo em vista que nossas linhas de fuga são acionadas pelas conversações “gagaratujadas”. O gagaratujar na escrita se produz, assim, enquanto um agenciamento entre escrita, garatuja e gagueira que acontece e modula nossas experimentações biografemáticas (COSTA, 2010; MACHADO; ALMEIDA, 2016), sendo essa última a estratégia metodológica que perpassa essa escrita. O gagaratujar acontece assim, como tentativa de gaguejar em nossa própria língua, fazer gaguejar a própria linguagem e os traços biográficos que nos compõem (DELEUZE; PARNET, 1998). 

Os biografemas por vezes aparecerão em itálico em meio ao texto e sinalizados como: biografema da primeira autora, da segunda autora e da terceira autora. Entretanto, esse exercício biografemático também se dilui em outros momentos da escrita, emaranhado aos conceitos e às potências geradas pelos afetos de uma escrita coletiva em revezamento que produz conversações com nossos traços biográficos, arrastando cada uma de nós para outros [im]possíveis. Assim, nessa multiplicidade de vias que se abrem ao sermos afetadas em meio às conexões, a necessidade de escrita se renova e segue a produzir esse agenciamento coletivo povoado de encontros (Leia o artigo completo em PDF).

 

Recebido em: 30/06/2020

Aceito em: 30/07/2020

 

 

[1] Acadêmica do Curso de Especialização em Educação: Métodos e Técnicas de Ensino na Universidade Tecnológica Federal do Paraná – UTFPR. Graduada em Licenciatura em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Maringá UEM, PR. E-mail: monalisa.romanesisantos@gmail.com

[2] Pós-doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação, Linha de pesquisa LP4- Educação e Artes da Universidade Federal de Santa Maria – UFSM. Pesquisadora do GEPAEC – Grupo de Estudos e Pesquisas em Arte, Educação e Cultura da UFSM-RS. E-mail: francieligarlet@yahoo.com.br

[3] Pós-doutorado do Programa de Pós-Graduação em Educação, Linha de Pesquisa LP4 – Educação e Artes. Pesquisadora do GEPAEC – Grupo de Estudos e Pesquisas em Arte, Educação e Cultura da UFSM. Professora Externa do Curso de Graduação à Distância de Educação Especial, na Universidade Federal de Santa Maria, RS. E-mail: vicardonetti@gmail.com

[4] SANTOS, Monalisa Romanesi. Marcas e vestígios de uma poética materna em devir. Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) – Universidade Estadual de Maringá, Maringá, 2018.

[5] Devir-criança “[…] diz respeito à aliança, à proximidade e atração de forças moleculares que se reportam às potências infantes, diferentemente da filiação que nos induz a uma criança em particular, a uma representação molar. Isso nos faz pensar que um devir-criança é impessoal, pois não se fixa a nenhuma pessoa em particular. Está para um tempo crônico, não progressivo e devém, ele próprio, criança” (CARDONETTI, 2014, p. 120).

O garatujar como ação molecular: devires que arrastam linhas de escrita…

 

 

RESUMO: Esse artigo intenciona movimentar diferentes fluxos de escrita e de pensamento a partir da noção de “garatujar”, a qual germinou em uma torção que a tornou verbo, ação e potência infante na pesquisa de um Trabalho de Conclusão de Curso. Com a intenção de operar com a estratégia metodológica nomeada de biografemática (COSTA, 2010; ALMEIDA; MACHADO, 2016), esse texto passou a dar consistência ao gagaratujar de uma escrita-vida em revezamento (com três pares de mãos). Para tanto, uma problemática atravessou e mobilizou esse texto: que forças moleculares e crianceiras um garatujar pode produzir ao ser operado junto aos papéis instituídos? As forças moleculares acionadas nos agenciamentos produzidos possibilitaram o esboço de algumas linhas que buscaram problematizar e transbordar os papéis de mãe e de docência, bem como fazer vazar as paredes que muitas vezes engessam as experiências educativas e de pesquisa. As experiências crianceiras criadas nesse coletivo poético de escrita propiciou ensaiar estratégias de desprender dos papéis rígidos, traçar linhas garatujadas de fuga e abraçar as potências de um devir-criança que habita o corpo/pensamento de cada um que se aventurar a viver intensamente cada encontro.

PALAVRAS-CHAVE: Garatujar. Devir-criança. Biografema.

 


Scrabbling as molecular action: becomings that drag lines in writing…

 

ABSTRACT: This paper intends to put into movement different fluxes of writing and thought through the notion of “scrabbling”, which generate a new torsion to make it verb, action and infant potencial in a Final Undergraduate Paper research. Aiming to operate a methodological strategy named biographematics (COSTA, 2010; ALMEIDA; MACHADO, 2016), this text gave consistency to the idea of scrabbling a life-writing in alternation (by three pairs of hands). To do so, a problem crossed and mobilized this text: What molecular and infant forces can “scrabbling” produce while operated in instituted roles? Molecular forces activated in the resulting agency allow drafts of lines that seek to problematize and overflow the roles of mothering and teaching, as well as to widen the wall that limit research and education experiences. The infant experiences created in this poetic collective of writing allowed us to rehearse strategies for detaching ourselves from rigid roles, scrabbling lines of scape and embracing the potency of a child-becoming that inhabit the body/thought of each one who adventures living intensively every encounter.

KEYWORDS: Scrabbling. Child-becoming. Biographematics.

 

 

 


SANTOS, Monalisa Romanesi; GARLET, Francieli Regina; CARDONETTI, Vivien Kelling. O garatujar como ação molecular: devires que arrastam linhas de escrita. ClimaCom – Devir Criança [Online], Campinas, ano 7,  n. 18,  Set.  2020. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/o-garatujar-como-acao-molecular-devires-que-arrastam-linhas-de-escrita-monalisa-romanesi-santos-francieli-regina-garlet-e-vivien-kelling-cardonetti