Mesas de trabalho a céu aberto | Susana Dias

Título | Mesas de trabalho a céu aberto

A “mesa de trabalho” é, ao mesmo tempo, uma intervenção artística e um método de trabalho em arte que desenvolvo desde 2014 com o grupo de pesquisa o multiTÃO: prolifer-artes sub-vertendo ciências, educações e comunicações (CNPq) no âmbito das ações da revista ClimaCom para lidarmos com o Antropoceno. Elas acontecem, muitas vezes, com a participação de convidados (artistas, cientistas, filósofos…) e podem ser realizadas em espaços abertos, como praças, ruas, beiras de rio, quintais, jardins, mas também em espaços fechados, como salas de aula, museus, casas de cultura, corredores etc.. Nas “mesas de trabalho” apostamos que a arte é um fazer junto, um viver junto, um “perceber-fazer-floresta” (Dias, 2020) por outros modos de existência, sejam eles fílmicos, fotográficos, pictóricos, escultóricos, de escrita etc.. As mesas de trabalho podem acontecer em mesas, com quatro apoios, mas também podem se dar em um tapete, no chão, em uma tela de computador, em uma folha de papel, quando estes devém-mesas-de-trabalho, ou seja, se transformam em superfícies de experimentação de simbioses desprogramadas entre humanos e não humanos, funcionando como meio. Transformando o papel (papel-jornal, papel-revista, papel-fotográfico, papel-multimídia, papel-tela-de-pintura, papel-tela-do-cinema, papel-pele…) em um meio vivo capaz de interrogar as lógicas massificadas e colonialistas que nos colocaram no Antropoceno. Durante o pós-doutorado que desenvolvi no PPG Artes na UFPA – cujo projeto se chamou “Perceber-fazer floresta: do chamado a pensar o que pode a matéria papel diante do Antropoceno” – propus a instauração de mesas de trabalho em companhia das plantas e com o objetivo de criar coletivamente um livro-objeto. As mesas eram constituídas de um tampo de mesa de 1,50 x 0,70 cm e dois cavaletes; um tapete com impressões botânicas e bordados; livros de botânica, filosofia, antropologia e arte indígena que lidam com vegetais; o livro-objeto Floresta² (Dias, Penha, 2019), criado em mesas de trabalho anteriores em Campinas; galhos, sementes, folhas, flores e cascas coletadas no Museu Paraense Emílio Goeldi, no Marajó, com as erveiras no Ver-o-Peso, nos supermercados, praças e ruas de Belém; também haviam plantas que ganhei, tendo em vista que a conexão com as plantas passou a ser parte das minhas relações com as pessoas em Belém; disponibilizei também fotografias produzidas no Museu Emílio Goeldi, fichas pautadas de arquivo, discos de papel pardo, sacolas de vários tamanhos de papel pardo, canetas posca e canetas hidrocor de diferentes tamanhos, bombril, tesouras, cola, lupas, pinças, placas de petri, um caderno de desenho e escrita “Quais são suas plantas companheiras”, uma proposta inicial para o livro-objeto Modos de atenção à Terra com as primeiras criações feitas nas primeiras montagens da mesa de trabalho, entre outros materiais. Diferente de outros lugares, a mesa de trabalho em Belém foi dedicada especialmente à experimentação com as plantas. As plantas foram os seres que permitiram ativar os encontros propostos neste pós-doutorado. E isso não foi à toa, embora uma floresta seja constituída de muitos outros seres, rios, fungos, nuvens, são as plantas e, especialmente, as grandes árvores, que criam um meio capaz de abrigar muitos, de inventar múltiplas relações de cooperação mútuas, parentescos e alianças raras e afirmativas. A centralidade das plantas em todo o processo não era algo planejado, e é um importante resultado do trabalho em Belém, pois que as pessoas, mesmo as que não percebem, têm uma rica relação com os vegetais nessa cidade. Desde as frutas, às comidas tradicionais, dos objetos artesanais como as cuieiras, às esculturas de buriti, dos barcos que circulam na Baía do Guajará, que em sua maioria são de madeira, aos livros nas bibliotecas e livrarias, sem contar com o uso de ervas e plantas medicinais tão frequente entre todos que conheci e a menção à relevância do trabalho das erveiras do Ver-o-Peso para a cidade. A ideia da mesa foi a de trabalhar a céu aberto (desenhando, intervindo nas fotografias e plantas, escrevendo…), em uma busca de que esses gestos e materiais ativassem nas pessoas o desejo de trabalhar junto, de lidar com a matéria, de transformar a matéria em material, de intensificar e instaurar florestas por outros meio e ativar as florestas que carregam dentro e junto. A mesa e as plantas mobilizaram muito as pessoas nos diversos lugares por onde a instalação passou e muitas criações povoaram a mesa. Aprendi o nome de muitas plantas que nunca tinha ouvido falar, acessei modos de existir conjuntos entre humanos e vegetais, escutei memórias e histórias multiespécies, colhi folhas e abracei árvores com alguns, conheci usos medicinais, de alimentação, de plantio e cuidado, admirei sementes e galhos junto a muitas pessoas, conheci projetos de pesquisa e de agroflorestas e propostas educacionais que acontecem na companhia dos vegetais, fui apresentada a muitas mães e avós, aquelas que, muitas vezes, nos inserem nas conexões com o reino vegetal, mas também conheci muitos homens que admiram as plantas e que cultivam amizades e amores com elas. O livro-objeto Modos de atenção à Terra vai reunir um pouco desse encontros e criações. Elegi para o livro o papel pautado das fichas de arquivo, por considerar esse um papel que necessita, urgentemente, ser povoado por outras forças, que interroguem as lógicas arquivistas e monoculturais que atravessam artes e ciências. Também por ser um papel que poderia ser associado ao Museu Paraense Emílio Goeldi, o primeiro lugar a ser visitado para coletas de plantas e imagens e que abriu suas portas generosamente para as mesas de trabalho.

 

| Bibliografia |

DIAS, Susana; PENHA, Alessandra. Floresta². Campinas, SP: BCCL-Unicamp, 2019. Disponível em: https://issuu.com/susanaoliveiradias/docs/floresta2_susanadias_alessandrapenha_final

DIAS, S. O. Perceber-fazer floresta: da aventura de entrar em comunicação com um mundo todo vivo. ClimaCom, v. 1, p. 1-22, 2020.

 


| FICHA TÉCNICA |

CONCEPÇÃO E ORGANIZAÇÃO | Susana Dias

LOCAIS | PPG Artes, da UFPA, Mirante do Rio da UFPA, Museu Paraense Emílio Goeldi

FOTOGRAFIAS | Susana Dias

PROJETOS | INCT-Mudanças Climáticas Fase 2 (financiado pelo CNPq projeto 465501/2014-1, FAPESP projeto 2014/50848-9 e a CAPES projeto 16/2014) e o projeto de pós-doutorado “Perceber-fazer floresta: do chamado a pensar o que pode a matéria papel diante do Antropoceno”, desenvolvido por Susana Dias sob supervisão de Maria dos Remédios de Brito, na linha de pesquisa Teorias e Interfaces Epistêmicas em Artes, no Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade Federal do Pará (UFPA) em 2022.

REDE | Rede Latino-americana de Divulgação Científica e Mudanças Climáticas

Belém, Pará

2022

 

 

 

DIAS, Susana. Mesas de trabalho a céu aberto. ClimaCom – Políticas vegetais [online], Campinas, ano 9, dez. 2022. Available from: https://climacom.mudancasclimaticas.net.br/mesas-de-trabalho/


 

SEÇÃO ARTE | ESSE LUGAR, QUE NÃO É MEU? | Ano 9, n. 22, 2022

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