((R)E)Feito Floresta | Joana Cabral de Oliveira


Joana Cabral de Oliveira[1]

Para um início [2]

 

“Antigamente, nosso fazendeiro, foi quem fez. O sol, ele fez. Nós, ele nos fez. Era o começo dos tempos. Antigamente, há muito… Uma só e pequena terra, ele fez. Um punhado de terra, girando, girando e se espalhando. Crescendo, crescendo…

Nosso fazendeiro fez abrir sobre a terra o céu. Era terra nova… Água?! Água, não havia. Ela foi feita depois. Através dos rios foi feita água. Floresta também não havia. Terra nova. Terra, apenas terra. Há muito tempo, floresta não havia. Mata não existia. Apenas terra.

Apenas uma, uma Sumaúma brotou da terra. Era época de começo. Sumaúma foi a primeira a irromper. Antigamente… Foi ai que Figueira brotou. Sozinha, uma apenas e longe de Sumaúma. Sumaúma estava para lá e Figueira estava para cá. Floresta não havia. Apenas Sumaúma brotou. Apenas Figueira brotou.

Assim nos contaram nossos avôs, há muito tempo.

Sumaúma cresceu, ficou enorme, graaande. Figueira da mesma forma cresceu. Figueira se achegou junto de Sumaúma. Figueira foi se aconchegando ao corpo de Sumaúma. Sua raiz (estrangulante) pegou firme Sumaúma. Figueira se agarou à Sumaúma bem por aqui, em seu tronco. A raiz de Figueira contorcida em abraço. Sumaúma continuou a crescer. Crescer, cresce crescer… Sumaúma, Sumaúma, Sumaúma… Enfim, ficou apertada… Apertada, Sumaúma ficou sem ar. Sumaúma foi apertada, esmagada.

Sumaúma morreu. Figueira, não.

As folhas de Sumaúma já iam marrons. Secas. O sol quente as fez secar por completo. E foi assim que elas chegaram ao chão. As folhas secas de Sumaúma foram sopradas ao vento. Espalharam-se. Vento as espalhou. Derramadas sobre a terra, ficaram.

Sumaúma morreu. Figueira, não.

Sozinha, apenas ela, Figueira, proporcionou a morte de Sumaúma. Assim nos contaram nossos avôs.

Floresta então cresceu. Das folhas de Sumaúma caídas sobre a terra brotaram as matas. Toda e cada folha brotou em floresta. Diversas árvores, muitos tipos… O que fora folha de Sumaúma brotou em floresta. Matas de todos os tipos. Por isso, há floresta nos tempos de hoje.

Antigamente?! Antigamente, não havia floresta.

Por isso hoje há figueira e, por isso, hoje, figueira estrangula até a morte outras árvores.” (Leia o ensaio completo em PDF)

 

Recebido em: 01/05/2020

Aceito em: 05/06/2020

 

[1] Professora do Departamento de Antropologia da Unicamp. E-mail: jcdo@unicamp.br

[2] Agradeço à Marisol Marini e Rafael Coelho por correções e comentários feito em uma versão preliminar.

 

((R)E)Feito Floresta

 

RESUMO: “((R)E)Feito Floresta” é um ensaio fundamentalmente etnográfico. Partindo de um material registrado ao longo de pesquisas sucessivas entre os Wajãpi, povo falante de uma língua tupi-guarani, que vive em uma terra demarcada no Estado Amapá, busca-se refletir e tensionar as relações entre floresta e roça a partir de meditações e práticas desses ameríndios. A forma “ensaio”, aqui, permitiu uma maior frouxidão em relação aos debates teóricos, os quais são  apenas pontuados e não destendidos; tal forma foi escolhida em vistas a tentar compartilhar mais uma experiência das florestas, roçados e interações enunciativas wajãpi, do que desembocar em uma teoria ou sobrecodificação de discussões antropológicas. A floresta se apresenta, então, como efeito de muitos entes; uma materialização de conjunto de relações complexas.

PALAVRAS-CHAVE: Floresta. Roça. Wajãpi.

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(Re)Make Forest

 

ABSTRACT: (Re)Make Forest is a fundamentally ethnographic essay. Based on material recorded during successive surveys among the Wajãpi, people who speak a Tupi-Guarani language and live in the State of Amapá, I seek to reflect and tension the relationship between forest and gardens based on meditations and practices of these Amerindians. The “essay” form allowed for light relation with theoretical debates, which are only punctuated and not expanded. The essay form was chosen in order to try to share more an experience of forests, swiddens and wajãpi enunciative interactions, than to end in a theory and an overcoding of anthropological discussions. The forest appears, then, as an effect of many beings, a materialization of a set of complex relationships.

KEYWORDS: Forest. Swidden. Wajãpi.


OLIVEIRA, Joana Cabral de. ((R)E)Feito Floresta. ClimaCom – Florestas [Online], Campinas, ano 7,  n. 17,  Jun.  2020. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/joana-de-oliveira-florestas/