Infraestruturas e pandemia: quando vírus, elétrons e capital financeiro se encontram | Felipe Figueiredo


Felipe Figueiredo[1]

O AMBIENTE CONSTRUÍDO E A PANDEMIA

O texto[2] que se segue é uma descrição da relação entre pandemia e setor elétrico. Permitam-me recorrer a uma metáfora para explorar essa relação: do enredamento entre vírus, elétrons e capital financeiro, três entidades invisíveis do chamado mundo moderno cuja presença se impõe através de usinas, barragens, turbinas, linhas de tensão, tomadas, aparelhos eletrônicos, curvas de contágio, máscaras, respiradores, linhas de crédito, tarifa social, bancos, empresas, cartão de crédito, banco de dados, etc. Todos esses objetos descritos compõem a paisagem do mundo que habitamos e impõem-se sobre nós das formas mais inusitadas. Nossos corpos, práticas culturais e formas de conhecimento compõem o mundo com eles ao mesmo tempo em que eles nos constituem.

Por um lado, vírus e elétrons são muito bem vistos e até cultuadas pelos modernos. Eles precisam passar pela construção de imensos monumentos tecnológicos que, quando interligados, recebem o nome de infraestruturas, as quais podem ser tanto concretas quanto virtuais. Por outro lado, o vírus é ao mesmo tempo temido por alguns e tem sua atuação negada por outros e, ainda que sua terrível força seja sentida por todos, ela atinge mais gravemente uns do que outros. O fato é que todas as três entidades têm sua emergência e proliferação através da tecnociência e de suas mais variadas formas de organização social e ambiental.

O Sars-CoV-2, agente responsável pela COVID-19, assim como outros patógenos que se disseminaram nas últimas décadas, estão relacionados aos modos de produção da agricultura intensiva e mudanças no uso do solo, além das redes globais de comércio e transporte e políticas neoliberais (WALLACE, 2020). A pandemia de COVID-19 colocou diversos problemas em escala global para a configuração atual dos modos de vida das chamadas sociedades modernas. Além do grande número de infectados e mortos pelo rápido espalhamento do vírus, a pandemia teve também consequências econômicas, políticas, psicológicas, culturais e ambientais.

As desigualdades socioambientais e econômicas foram agravadas com a crise e, em vários lugares do mundo, como no caso do Brasil, a taxa de mortalidade do vírus se concentra majoritariamente em regiões com falta de acesso às infraestruturas de saneamento básico, ou mesmo de saúde (GRANADA, 2020). Isso se dá sobretudo porque o acesso às infraestruturas é distribuído de forma desigual por todo o país e isso explica, por exemplo, o colapso do sistema de saúde de Manaus antes dos demais, ainda que a cidade não concentrasse o maior número de casos registrados de COVID-19 naquele momento[3] (leia o artigo completo em pdf).

 

Recebido em 29/10/2020

Aceito em 23/11/2020

 

[1] Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Unifesp. Membro do Grupo de Pesquisas Visuais e Urbanas (VISURB). E-mail: felipe.figueiredo1230@gmail.com

[2]Agradeço a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) pelo financiamento de pesquisa. Agraço também a Renzo Taddei e Jean Miguel pela inspiração e orientação.

[3] Ver “Por que o Amazonas é o primeiro estado a ter um colapso na saúde”: <https://www.nexojornal.com.br/expresso/2020/04/13/Por-que-o-Amazonas-%C3%A9-o-1%C2%BA-estado-a-ter-um-colapso-na-sa%C3%BAde> Acesso em 20 de abril de 2020.

 

 

 

Infraestruturas e Pandemia:
quando vírus, elétrons e capital financeiro se encontram

RESUMO: Neste artigo, apresento alguns dos efeitos da pandemia de COVID-19 no setor elétrico brasileiro e elaboro uma reflexão sobre como as infraestruturas constroem o ambiente em que vivemos junto de outros seres. O objetivo é apresentar essa relação para melhor compreender o mundo pandêmico atual. A partir de uma “etnografia das infraestruturas” nas reuniões do Operador Nacional do Sistema elétrico (ONS), de documentos produzidos por instituições do setor elétrico e de uma revisão da literatura acerca das infraestruturas, bem como de uma análise de dados sobre a pandemia, observo que essa construção não se dá de forma linear ou unidirecional, mas passa pela interação entre diferentes escalas, resultando em efeitos não planejados das infraestruturas. A pandemia coloca problemas empíricos e conceituais para os estudos das infraestruturas, além de desafios para o setor elétrico brasileiro. Portanto, proponho “ficar com o problema” das infraestruturas e de seus enredamentos técnicos, multiespecíficos e socioambientais.

PALAVRAS-CHAVE: Infraestrutura. Pandemia. Setor elétrico brasileiro.


Infrastructures and Pandemic:
when virus, electrons and financial capital meet

ABSTRACT: This article seeks to present some effects of the COVID-19 pandemic in the brazilian electric sector and bring a reflection on how infrastructures build the environment we live in with other beings. The objective is to present these effects to better understand the pandemic world we live in. Starting from an “ethnography of infrastructures” in the National Electric System’s Operator (NSO), from documents produced by electric sector institutions, from a bibliography review on infrastructures and from an analysis on pandemic data, I observe that this building is not linear or unidirectional, but goes through different scales, resulting in non-designed effects on infrastructures. The pandemic puts conceptual and empirical problems to the study of infrastructures on the one hand, and on the other, challenges to the Brazilian electric sector. I suggest to “stay with the trouble” of infrastructures and its technical, multi-specific and socio-environmental entanglements.

KEYWORDS: Infrastructure. Pandemic. Brazilian electric sector.

 

 


FIGUEIREDO, Felipe. Infraestruturas e Pandemia: quando vírus, elétrons e capital financeiro se encontram. ClimaCom – Epidemiologias [Online], Campinas, ano 7,  n. 19,  Dez.  2020. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/infraestruturas-pandemia/