Ilana Paterman Brasil e Zoy Anastassakis | Tem que dançar, dançando: ensaio de fabulação especulativa sobre linhas, movimentos e correspondências entre mulheres, terreiros e universidades


Ilana Paterman Brasil[1]

Zoy Anastassakis[2]

 

Evocação

Recentemente, Tim Ingold (2017a, 2016; GATT; INGOLD, 2013) tem evocado uma abordagem oceânica por meio da qual Marcel Mauss (1923-24) argumenta que, tal qual os polvos e as anêmonas no mar, o fenômeno social passa por misturas entre seres em grupo e seus comportamentos. É então pelo entrelaçamento de seus tentáculos que as criaturas se mesclam em uma malha que se torna capaz de responder aos desafios das profundezas do mar. Com essa evocação, Ingold revê o pensamento de Durkheim, para enfatizar a relacionalidade, sublinhando o caráter praticado e aberto da vida. Assim, aproxima os processos de fabricação do comum [commoning (INGOLD, 2017b, 2018)] às noções de interpenetração, liberdade e diferenciação. Com isso, ele termina por vincular resistência à correspondência: 

[…] seres humanos da vida real habitam um meio fluido no qual cada ser tem que encontrar um lugar para si mesmo, enviando fios que podem ligá-lo a outros. Assim, agarrando-se uns aos outros, os seres se esforçam para resistir à corrente que, de outra forma, os varreria, mas no meio da qual eles são gerados indefinidamente. (INGOLD, 2016, p. 10, tradução nossa).

Os tentáculos a que se referem Mauss e Ingold vem sendo evocados por alguns outros pensadores, tais como Carlos Castaneda e Donna Haraway. Em “A separate reality”, Castaneda lembra que seu mestre, Don Juan, lhe contava que “os humanos eram, para aqueles que “viam”, seres luminosos compostos de fibras de luz, que giravam da frente para trás e conservavam a aparência de um ovo” (CASTANEDA, 1971, p. 121, tradução nossa). Essas “fibras, semelhantes a tentáculos” (idem) saem do corpo dos seres humanos e são aparentes a qualquer feiticeiro que “vê”. 

Como teias de aranhas brancas, esses fios muito finos circulam da cabeça ao umbigo. Assim, o homem parece um ovo de fibras circundantes. E seus braços e pernas são como espinhos luminosos, espocando em todas as direções. […] Além disso, todos os homens estão em contato com tudo o mais, não por suas mãos, mas por meio de um punhado de fibras compridas que saem do centro de seu abdômen. Essas fibras ligam o homem a seu ambiente; mantêm seu equilíbrio; dão-lhe estabilidade. Assim, como algum dia você poderá ver, o homem é um ovo luminoso, quer ele seja mendigo ou rei. (CASTANEDA, 1971, p. 2, tradução nossa).

Segundo Don Juan, um grande feiticeiro sabe manejar com precisão o uso desses tentáculos, equilibrando-se por meio deles, amarrando-os ao que os circunda. É isso que permite que movimentos aparentemente impossíveis sejam realizados sem maiores dificuldades.

Em “Staying with the trouble: making kin in the Chthulucene”, Haraway (2016) não apenas evoca, mas também invoca criaturas ctônicas, que com seu pensamento tentacular apontam para inusitadas possibilidades de resistência, recuperação e ressurgência. 

Os ctônicos são seres da terra, tanto antigos quanto atualizados. Imagino os ctônicos repletos de tentáculos, antenas, cordas, barbas, pernas de aranha e cabelos muito rebeldes. Os ctônicos brincam em húmus multicriaturas, mas não têm rabo preso com o Homo que olha para o céu. Os ctônicos são monstros no melhor sentido; eles demonstram e performam a significância material dos processos e criaturas da Terra. Eles também demonstram e executam conseqüências. Os ctônicos não estão seguros; eles não têm rabo preso com ideólogos; eles não pertencem a ninguém; eles se contorcem e se deleitam em múltiplas formas e múltiplos nomes em todos os ares, águas e lugares da terra. Eles fazem e desfazem; eles são feitos e desfeitos. Eles são quem são. Não é de admirar que os grandes monoteísmos do mundo, tanto em facetas religiosas quanto seculares, tenham tentado de novo e de novo exterminar os ctônicos. Os escândalos dos tempos chamados Antropoceno e Capitaloceno são as últimas e mais perigosas dessas forças exterminadoras. Viver-com e morrer-com uns com os outros potentemente no Chthuluceno pode ser uma resposta feroz aos ditames do Anthropos e do capital. (HARAWAY, 2016, p. 2, tradução nossa).

Essas recuperações e reivindicações sugerem que os seres não precedem as relações e que, portanto, é por meio da relacionalidade entre estranhos em meio ao “ambiente” que se constitui a vida como contínua possibilidade de ressurgência. Por meio de agenciamentos simpoiéticos, essas criaturas multiespécies estão continuamente se transformando umas com as outras, comungando, compostando e decompostando umas com as outras, vivendo e sendo juntas. Emaranhadas, fazem mundos, ao mesmo tempo em que constroem linhas de fuga, escapes, brechas, transições e outros caminhos possíveis (STENGERS, 2013) para recuperações e revoltas em torno da Terra. Pensando e agindo pelo meio, elas nos chamam atenção para o que Ingold nomeia de diferenciação intersticial, “em que a diferença surge continuamente em meio aos ajuntamentos com, na contínua simpatia de ir seguindo juntos” (INGOLD, 2016, p. 13, tradução nossa).

Ora, se assumimos que os seres são holobiomas (HARAWAY, 2016), podemos considerar que qualquer aproximação com eles só pode se realizar por meio do mergulho nas linhas de seus movimentos. Sempre abertas e em contínua peregrinação, as linhas se entrelaçam criando emaranhados ou malhas que terminam por conformar as texturas do mundo. Assim, acompanhar qualquer movimento implica no engajamento com o próprio movimento. Movimentando-se junto, lado a lado, não há possibilidade de observação sem participação, sem afeto e animação. Afinal, no movimento, acompanhar é também corresponder e comungar. E para corresponder é preciso retomar o compromisso com o cultivo de nossas capacidades de atenção e resposta. Corresponder (INGOLD, 2015, 2016, 2017a, 2017b) é então assumir, cultivar e compartilhar nossas habilidades de resposta (HARAWAY, 2016; INGOLD, 2018) em meio às linhas de abertura que conformam os fluxos da vida.

 

Tem que dançar, dançando 

Buscando seguir a vida das linhas e seus movimentos tentaculares tomando-os como processos de correspondência, nos lançamos aqui a um ensaio de fabulação especulativa (HARAWAY, 2016) sobre linhas, movimentos e correspondências (INGOLD, 2011, 2015, 2016, 2017a, 2017b) entre mulheres, terreiros e universidades, no Rio de Janeiro. As trilhas de movimento que se insinuam por meio dessas aproximações nos convidam a compor outros modos de ler, escrever, pesquisar e reportar aquilo a que nos dedicamos. Como as duas de nós que escrevem essas palavras são também designers, e (para complicar) uma delas é, ainda, antropóloga, é por meio da mescla entre observação participante, registro videográfico, desenho, pintura, digitalização, edição e animação que investimentos no exercício de uma antropologia gráfica ou antropologia por meio do design, propostas por Ingold (2011; GATT; INGOLD, 2013). 

As linhas que nós duas traçamos seguem o movimento de uma Outra, que, como a Medéia recuperada por Isabelle Stengers (1993), reencontrou em um terreiro de Candomblé o poder e a alegria de existir. Seguindo sua dança, com ela reclamamos que a pesquisa por meio do design, em trânsito interdisciplinar com a antropologia, deve ser também o cultivo do compromisso de nossas habilidades de atenção (INGOLD, 2018) e resposta (HARAWAY, 2016) no e com o mundo. Mais ainda: esse engajamento com os movimentos tentaculares envolve a reivindicação daquilo que a universidade faz questão de apagar, e que Stengers, com Starhawk, não nos deixa esquecer: a fumaça das bruxas queimadas que ainda paira nas nossas narinas (STENGERS, 2012). 

Assim, é a partir do trabalho de Ilana Paterman Brasil, resultante de uma residência artística na Escola Superior de Desenho Industrial, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Esdi/Uerj), com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e orientação de Zoy Anastassakis, que tramamos esse ensaio de fabulação especulativa sobre as linhas como alianças e correspondências. Zoy é professora adjunta da Esdi/Uerj, onde coordena o Laboratório de Design e Antropologia, grupo de pesquisa certificado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq); em sua pesquisa de doutorado, Ilana mescla arte, design, cinema, animação e observação participante para reanimar as danças tradicionais do Candomblé brasileiro; Maria Eni Moreira integra uma comunidade de terreiro na Baixada Fluminense, região metropolitana do Rio de Janeiro.

Ao encontrar Eni para registrar e recriar em desenhos a animação de seus movimentos, Ilana reclama, reivindica e reativa a possibilidade de colocar o seu próprio corpo em movimento, alinhando-o à dança de Eni, que, por sua vez, dança com os orixás. Por meio de seu engajamento nesses agenciamentos (STENGERS, 2012; INGOLD, 2016), Eni e Ilana passam a existir como seres em movimento que compartilham interesses e tempo, em colaboração. De volta à universidade, Ilana e Zoy recompõem esses movimentos, montando um filme de animação em que a dança e a vida de Eni, Ilana e Zoy, terminam por se amalgamar, forjando assim, também, novas alianças entre mulheres, terreiros e universidades.

A antropologia gráfica realizada por meio do design tal como nos propõe Ingold, referência para esse trabalho, não sugere saídas, respostas, nem tampouco soluções. Assim como Haraway e seu convite para que permaneçamos com os problemas, ao reclamar a possibilidade de uma outra antropologia, que se realiza por meio de um design gráfico outro, buscamos caminhar no sentido de novas alianças, tais como nos sugerem Castaneda, Haraway, Ingold, Stengers, e tantos outros, como aqueles que Ilana invoca a seguir. Seguindo Ingold, entendemos nosso exercício, então, como design com antropologia, apostando em ambos como artes da investigação que se dedicam a imaginar as possibilidades e condições da vida em um ambiente. Aproximados, design e antropologia podem “estar juntos em correspondência com uma renovação do pensamento da democracia, como modo de levar a vida em comum pela diferenciação e atenção” (INGOLD, 2017b, p. 167, tradução nossa). 

Contudo, atenção: se Bruno Latour (2008) conclama os designers a atuar como Prometeus cautelosos, com Castaneda, Haraway, Ingold, Stengers, e Eni, invocamos Medusa, monstro ctônico lembrado por Haraway (2016), e Medéia, reconsiderada por Stengers (1993). Com elas, a fim de recriar um mundo diferente, nós duas que enrolamos nossos tentáculos nos pilares de uma universidade, chamamos pela Outra, clamando, com ela, pela possibilidade de uma outra ciência social, que, assim como essas personagens enigmáticas e suas imagens quiméricas (SEVERI, 2013), romperam os laços que as condenavam, inventando passagens, transições, recuperações, revoluções. 

Como nos lembra Stengers (1993), Medéia é o testemunho de um mundo esquecido, um mundo onde as mulheres reinavam como vida e morte ao mesmo tempo. Portanto, o enigma do saber que nos atesta Medéia se refere menos ao ato do que ao devir ao qual esse ato dá lugar. A essa imagem de Medéia, gostaríamos de adicionar a alegria, tal como recuperada por Stengers em “Au temps des catastrophes” (2013), ou seja, como produção-descoberta de um novo grau de liberdade, um aumento da potência de agir, pensar e imaginar. 

Assim, aos designers revestidos como Prometeus cautelosos, gostaríamos de fazer um convite. Que eles experimentem se transvestir, aqui e agora, em Medéias alegres. Afinal, com Eni e sua dança, clamamos pela recuperação da memória e das práticas desse outro mundo de aberturas e transformações, reivindicando a sua reativação, dentro da universidade e de suas escolas de design também, e por que não?

 

Dançando e fabulando sobre as danças de povos de outros lugares 

Peço licença. Meu nome é Ilana e gostaria de tomar a palavra para uma estória lhes contar. Venho de uma terra onde as árvores saúdam os humanos deixando cair uma folha sobre sua cabeça. Como agradecimento, os humanos prendem essa folha no cabelo. Minha terra ganhou o nome de uma árvore da qual se extrai uma tinta vermelha. Lá, o mar é mãe de todos, mas não uma mãe tranquila. Um mar calmo pode criar ondas aterrorizantes para chamar atenção dos seus filhos. Pelo mar, nessa terra também chegaram os deuses cor de carvão. 

Na minha terra, até besouros são deuses, assim como aranhas, gatos, ervas, montanhas e tudo mais que vive. Correspondemos com esses deuses o tempo todo, dando e recebendo, ajudando e sendo ajudados, provocando e sendo provocados. Assim como os deuses entre si, que existem desde a época em que terra e céu eram uma coisa só. Quando houve a separação, os deuses foram para o céu, e deixaram na terra os animais, plantas, pedras, etc. Mas eles sentem saudade e gostam de nos visitar, para fazer o que na terra há de melhor: comer e dançar. 

Os mais antigos contam histórias emocionantes de antes da separação entre céu e terra. Entre os deuses, havia guerreiros e guerreiras, que tiveram tanto vitórias como derrotas. Havia velhos e crianças. Havia enredos que pareciam coisa de novela, com romance, traição e surpresa no final. E o mais incrível conto agora: quando vêm nos visitar, os deuses tomam corpo e revivem essas histórias, para que nunca as esqueçamos. 

Acontece que, na minha terra, nem todos lembram da presença dos deuses da natureza, e, por isso, acham muito estranho quando um grupo de pessoas os alimenta e dança com eles. Até pouco tempo atrás, esses que não reconhecem essas práticas criminalizavam esses grupos e, recentemente, os ataques voltaram a acontecer, ainda mais fortes. Pessoas que correspondem com esses deuses vêm sofrendo violência, e seus espaços seguem sendo destruídos. 

Desde pequena, eu sonhava com esses deuses. E, acordada, conversava com mares, rios e florestas. Um dia, escutei ao longe um chamado: um som inebriante que me tomou o corpo e me fez dançar. O tempo passou. Depois de partir mundo afora, e de habitar terras que jamais conheceram tais deuses, retornei à minha terra. Eu sabia da existência deles: todos na minha terra sabem. E assim, após longas jornadas para fora da cidade, enfim, eu os encontrei. 

Uma senhora com olhos grandes, a rainha do grupo, me recebeu com os braços abertos. E começou a me chamar de filha. Ela dançava as histórias da deusa que, ao se separar da terra, deixou por aqui o mar, mãe de todos. E essa senhora contava porque dançava para a deusa do mar: sua mãe, grávida, teve um súbito desejo de comer peixe, e saiu correndo em direção à praia. Mas não deu tempo: a menina quis sair logo da barriga para ir junto. E, assim, ao nascer, a deusa do mar a acolheu como filha e ela, desde então, passou a dançar e a dar de comer para essa deusa.

Uma das coisas mais incríveis que pude perceber é que a sabedoria dos deuses da natureza não cabe em livros. As histórias são transmitidas oralmente para os mais novos pelos mais antigos, assim como é transmitida – e provada – a comida que cada deus gosta, e sua forma de preparo. Aprendemos a dançar as histórias por observação, dançando primeiro com os olhos; dos olhos a dança vai para o restante do corpo, e assim dançamos com os deuses.

Na minha terra, em meio às pessoas que correspondem com os deuses da natureza, foi observando os gestos e movimentos dos mais velhos que me encontrei. O que mais gosto é vê-los dançar as histórias dos deuses. Aos poucos, vou revivendo essas histórias através do meu próprio corpo em movimento. Nesse caminho que foi se insinuando em meio ao movimento, me veio um relance: gravar em vídeo os mais velhos dançando para, em seguida, desenhando em papel as linhas de seus movimentos, reanimar imagem por imagem, em um novo filme. Dançando por meio do filme, eu poderia apreender de outro modo essa sabedoria, agora com o pinçar dos dedos e o rodar das mãos, acompanhadas de pincéis e pedaços de carvão.

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Inúmeros desenhos foram feitos. Cada deus possui uma gama de cores. Respeitei suas paletas ao pintá-las nas roupas desenhadas do corpo que dançava. Mas que corpo era esse? Era de uma mais velha, claro, detentora da sabedoria: a senhora de olhos grandes nos havia apresentado. Eni, o corpo que dança, é companheira de um grande amigo dessa senhora. Ficamos amigas, e combinamos de fazer esse trabalho juntas. Eni adora dançar para os deuses da natureza, e conhece todos os movimentos. Seu companheiro é o mais antigo dos mais antigos, e transmite seu conhecimento para ela diariamente.

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Um dia, enquanto Eni dançava e eu filmava, ela me contou sua história de vida. Teve uma infância de muitas provações, que continuaram, cada vez mais difíceis, pela sua juventude. Até que, ainda jovem, em contato com um desses grupos, ao sentir o perfume de um belo banho de folhas sagradas, teve a chance de relembrar dos deuses da natureza. Se sentiu acolhida e, ao firmar essa nova aliança, passou a pertencer a um mundo em correspondência contínua, comunicando-se com plantas, águas e animais. E, acolhida, passou a acolhedora: ganhou o nome de Arrungindala, a grande mãe.

Depois de ouvir sua história, percebi que era vital combiná-la à dança. Afinal, não se trata apenas de um corpo que dança – todo corpo tem uma história. Eu e Arrungindala, dançando com o corpo todo, ela com os pés descalços no chão, e eu com as mãos e os olhos, trabalhamos em correspondência com uma série de deuses: do metal, das tecnologias e dos dispositivos digitais, como a câmera, o computador e o projetor; da água doce, viva e colorida nas aquarelas; das florestas, presente nos milhares de papéis que vieram das árvores; sem esquecer, jamais, daquele que comunica tudo com todos, e que permite que todas essas correspondências aconteçam. Este último é muito próximo de nós, humanos. Os que esqueceram dos deuses da natureza, que cohabitam nossa terra, frequentemente o chamam de diabo. Vai entender. Nós vemos esse deus em todas as coisas. Principalmente nos gatos, nas segundas-feiras e nas cores preto e vermelho.

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O deus do metal e dos dispositivos digitais é também o deus dos caminhos, das estradas e das viagens. Através dele, os desenhos das danças podem viajar para terras longínquas, onde os deuses da natureza foram totalmente esquecidos, ou sequer chegaram a ser conhecidos. Quem sabe, assim, essas terras relembram alguma coisa? Ou ainda, quem sabe, os próprios cohabitantes da nossa terra possam perceber e aceitar essas outras formas de ver e dialogar com o mundo? 

 

Invocação

Os desenhos das danças de Arrungindala pegaram uma trilha aberta pelo deus do metal e terminaram por chegar a um outro lugar mágico. Muitos que frequentam esse lugar não pensam em termos de magia ou feitiçaria, muito menos na possibilidade de elas serem praticadas ali também. Porém, nesse outro lugar, muitos exercem práticas e fazem coisas que buscam atestar domínios mais que humanos. E é nesse sentido mesmo, do praticar e do fazer, que as coisas feitas e praticadas por eles podem ser então tomadas como magia, feitiço, encantaria. 

Fui eu quem levou os desenhos animados para a escola de design daquela universidade, a Uerj. Afinal, era para lá que eles queriam ir. Ao chegarmos, fomos recebidos com alegria por uma outra mulher, que se deixou encantar. Ao começar o trabalho, nós duas recuperamos a memória de que fora ali, naquela velha escola de design em que ambas nos formamos há tempos atrás, que nossos corpos haviam sido, um dia, convidados a dançar com os olhos e com as mãos. 

Voltando para lá, éramos agora convidadas a recuperar, em nós, a memória daquele lugar. Nós, que em algum momento havíamos perdido a sensibilidade imediata ao nosso ambiente, fomos levadas a reencontrar essa sensibilidade, e os meios para o fazer. Ainda com Stengers: “Reclamar significa recuperar aquilo de que fomos separados, mas não no sentido de que podemos simplesmente pegar de volta. Recuperar significa recuperar-se da própria separação, regenerando o que esta separação havia envenenado” (STENGERS, 2012, p. 4).

Se demos início ao trabalho por meio do desenho em animação, como mais um importante passo para a recuperação, nos dedicamos, também, a escrever. Escrever como nos lembra Stengers, como uma experiência animista, que ateste o domínio de um mundo mais que humano. Escrever, contudo, como nos lembra Ingold (2017b), tomando a escrita como política em si mesma. Eis aqui, então, este ensaio em que escrevemos dançando e desenhando. Por meio dele, nos rendemos ao coração das coisas, ensaiando “recuperar a capacidade de honrar a experiência, toda experiência que nos importa, não como “nossa”, mas sim como experiência que nos “anima”, que nos faz testemunhar o que não somos nós” (STENGERS, 2012, p. 7). 

Afinal, escutamos os chamados e buscamos atender a eles, pensando com aquilo que estamos fazendo, e assim trilhando novos caminhos, tecendo novas alianças, reinventando, recomeçando. Nesse outro mesmo lugar, onde agora os seres que correspondem com os deuses da natureza podem também habitar, em diferentes modos de ver e perceber o mundo, que nos ensinam a escrever e dançar com linhas. 

Assim também fazem as anêmonas, os polvos, as aranhas, Medéia, Medusa e todas as criaturas ctônicas que, por meio de cosmopolíticas encarnadas e gestos especulativos, se engajam em cooperações arriscadas, recuperando e recriando mundos com alegria. Ou seja, entre a política e a produção experimental de uma capacidade nova de agir e pensar. Mas, novamente, é preciso atenção: para ver é preciso saber ouvir. Para sentir a fumaça, é preciso ousar responder. E para ressurgir, é preciso dançar, dançando. Sempre com alegria.

 

Bibliografia

CASTANEDA, C. A separate reality: Further conversations with Don Juan. New York: Washington Square Press Publications, 1971.

GATT, C.; INGOLD, T. From description to correspondence. In: GUN, W.; OTTO, T.; SMITH, R. C. (Ed.). Design Anthropology: theory and practice. London: Bloomsbury,  2013. p. 139-158.

HARAWAY, D. Staying with the trouble: making kin in the Chthulucene. Durham and London: Duke University Press, 2016.

INGOLD, T. Anthropology and/as education. London: Routledge, 2018.

INGOLD, T. Correspondence. Aberdeen: University of Aberdeen, 2017a.

INGOLD, T. Prêter attention au comum qui vient: conversation avec Martin Givors & Jacopo Rasmi. In: Multitudes 68, Automne, 2017b.

INGOLD, T. On human correspondence. In: Journal of the Royal Anthropological Institute, v. 23, p. 9-27, 2016.

INGOLD, T. The life of lines. London: Routledge, 2015.

INGOLD, T. Being Alive: essays on movement, knowledge and description. London: Routledge, 2011.

LATOUR, B. A Cautious Prometheus? A few steps towards a philosophy of design (with special attention to Peter Sloterdijk). Keynote Lecture. Networks of Design Meeting, Design History Society. Falmouth, Cornwall, 2008. Disponível em: <http://www.bruno-latour.fr/sites/default/files/112-DESIGN-CORNWALLGB.pdf>

MAUSS, M. Essai sur le don. Forme et raison de l’échange dans les sociétés archaïques. Paris: Quadrige/Presses Universitaires de France, 2007 (1923-24).   

SEVERI, C. O espaço quimérico: percepção e projeção nos atos do olhar. In: SEVERI, C.; LAGROU, E. (Ed.). Quimeras em diálogo: grafismo e figuração nas artes indígenas. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2013. p. 25-66.

STENGERS, I. Au temps des catastrophes: résister à la barbarie qui vient. Paris: La Découverte, 2013. 

STENGERS, Isabelle. “Reclaiming Animism”. In: e-flux, Journal #36, July 2012. Disponível em: <http://www.e-flux.com/journal/36/61245/reclaiming-animism/>
STENGERS, I. Souviens-toi que je suis Médée: Medea nunc sum. Paris: Les Empêcheurs de penser en rond, 1993.

 

Recebido em: 25/11/2019

Aceito em: 05/12/2019

 

[1] Doutora em Antropologia. Professora Adjunta, Escola Superior de Desenho Industrial, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. E-mail: zoy@esdi.uerj.br
[2] Doutoranda, Programa de Pós-Graduação em Design, Escola Superior de Desenho Industrial, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. E-mail: ilanapaterman@gmail.com

 

 

Tem que dançar, dançando: ensaio de fabulação especulativa sobre linhas, movimentos e correspondências entre mulheres, terreiros e universidades

 

RESUMO: Este ensaio de fabulação especulativa (HARAWAY, 2016) trata de linhas, movimentos e correspondências (INGOLD, 2011, 2015, 2016, 2017a, 2017b) entre mulheres, terreiros de Candomblé e universidades. As trilhas de movimento que se insinuam por meio dessas aproximações convidam as autoras a compor outros modos de ler, escrever, pesquisar e reportar aquilo a que se dedicam. As linhas que as duas traçam seguem o movimento de uma Outra, Maria Eni Moreira, a Arrugindala, que, como a Medéia recuperada por Isabelle Stengers (1993), reencontrou em um terreiro de Candomblé o poder e a alegria de existir. Seguindo sua dança, com ela as autoras reclamam que a pesquisa por meio do design, em trânsito interdisciplinar com a antropologia, deve ser também o cultivo do compromisso com as nossas habilidades de atenção (INGOLD, 2018) e resposta (HARAWAY, 2016) no e com o mundo. E mais ainda, esses engajamentos com os movimentos tentaculares envolvem a reivindicação daquilo que a universidade faz questão de apagar, e que Stengers, com Starhawk, não nos deixa esquecer: a fumaça das bruxas queimadas que ainda paira sob nossas narinas (STENGERS, 2012).

PALAVRAS-CHAVE: Fabulação especulativa. Terreiros de Candomblé. Design.


You must dance dancing: essay of speculative fabulation on lines, movements and correspondences between women, candomblé houses and universities

 

ABSTRACT: This essay of speculative fabulation (HARAWAY, 2016) deals with lines, movements and correspondences (INGOLD, 2011, 2015, 2016, 2017a, 2017b) among women, Candomblé houses and universities. The paths of movement that are insinuated through these approaches invite the authors to compose other ways of reading, writing, researching and reporting what they are dedicated to. The lines that the two traces follow the movement of an Other, Maria Eni Moreira, Arrugindala, who, like Medea recovered by Isabelle Stengers (1993), found in a Candomblé house the power and the joy to exist. Following her dance, with her the authors complain that research by means design, when in an interdisciplinary transit with anthropology, should also be the cultivation of commitment to our attention (INGOLD, 2018) and response abilities (HARAWAY, 2016) in and with the world. Moreover, these engagements with tentacles involve the claim of what the university is always trying to erase, and that Stengers, with Starhawk, does not let us forget: the smoke of the burned witches that still hangs under our nostrils (STENGERS, 2012).

KEYWORDS: Speculative fabulation. Candomblé houses. Design.


BRASIL, Ilana Paterman; ANASTASSAKIS, Zoy. Tem que dançar, dançando: ensaio de fabulação especulativa sobre linhas, movimentos e correspondências entre mulheres, terreiros e universidades.  ClimaCom – Povos Ouvir : A Coragem da Vergonha [Online], Campinas, ano 6,  n. 16,  Dez.  2019. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/ilana-paterman-brasil-zoy-anastassakis-tem-que-dancar-dancando-ensaio-de-fabulacao-especulativa-sobre-linhas-movimentos-e-correspondencias-entre-mulheres-terreiros-e-universidades