iapoti’kaba: memórias com uma árvore | Eduardo Silveira


Eduardo Silveira[1]

Para entrar no terreno era preciso atravessar uma grade baixa. Esse limite simbólico que separa o público do privado. O portão, apenas encostado. Sempre. Da rua, preciso pesquisar o nome. Na época, era apenas aquela: da parte detrás da quadra. No tempo da infância, quando algumas coisas ainda não têm nome, talvez fosse o local mais distante a que se podia ir desacompanhado. Hoje o Google me diz: Augustinho Lucca. Essas ruas com nome de pessoas, praticamente todas de origem italiana, povoaram a infância: Inácio Slompo, Levir Luiz Toaldo, Francisco Zardo, Toaldo Túlio. Pessoas desconhecidas, ganharam afeto e presença pela memória dos lugares que representam.

À esquerda, logo após a grade, uma casinha minúscula. Uma meia-água que parecia ainda partida ao meio. Em uma única fissura da memória consigo recordar dessa casa habitada. Algumas crianças pequenas chorando, uma mulher que as atende, movimento. Em praticamente todas as outras lembranças ela está vazia. Guarda um mistério e cultiva até mesmo um pouco de medo. O que há lá dentro? A pergunta segue ecoando ainda hoje, passados mais de vinte e cinco anos, quando vejo a imagem abaixo, eternizada pelo carro da Google: três cachorros olham para a câmera. Uma mãe, quase invisível, difusa, e seus dois filhotes sentados em frente ao tronco de uma árvore. São fantasmas.

[1] Ator, biólogo, escritor. Docente de Biologia IFSC – Câmpus Florianópolis. Email: eduardosilveira@ifsc.edu.br

 

(Leia o ensaio completo em PDF).

 

Recebido em: 30/03/2022

Aceito em: 30/04/2022

 

 

iapoti’kaba: memórias com uma árvore

 

RESUMO: Este ensaio narra diferentes momentos de minha relação com uma jabuticabeira, árvore nativa da Mata Atlântica brasileira. Acionando fragmentos de memória da infância, aos poucos a árvore vai surgindo, ganhando espaço e evidenciando a aliança e o parentesco estabelecido entre humano e não humano, entre humano e planta. Hoje, a árvore não existe mais. Assim, ao mesmo tempo em que se evoca a memória com ela e tudo que esse encontro foi capaz de compor na vida da criança que já fui, se vive o luto pela ausência da jabuticabeira. É essa ausência que se torna movimento compositivo dos artefatos imagéticos de antotipia presentes no ensaio.

PALAVRAS-CHAVE: Memória. Antotipia. Jabuticaba.

 


 

iapoti’kaba: memories with a tree

 

ABSTRACT This essay narrates different moments of my relationship with a jabuticabeira, a Brazilian Atlantic Forest native tree. By reviving fragments of my childhood memory, the tree starts to gradually appear, taking up space and evidencing the alliance and the kinship established between human and non-human, between human and plant. Nowadays, the tree no longer exists. Thus, at the same time that the memory with the tree is evoked together with everything that this encounter was able to compose in my life as a child, one also experiences mourning for the absence of the jabuticabeira. This absence becomes the compositional movements of the antotype images present in the essay.

KEYWORDS: Memory. Antothype. Jabuticaba.


SILVEIRA, Eduardo. iapoti’kaba: memórias com uma árvore ClimaCom – Políticas vegetais [online], Campinas, ano 9, n. 23., dez. 2022. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/iapotikaba/