Hortas urbanas em regime de comunicação: leituras semióticas | Douglas Galan


 Douglas Galan[1]

Relação homem-máquina-natureza: por uma visão semioticamente ecológica de agentes em interação 

Nossas relações com o meio ambiente são mediadas a partir das informações que trocamos, dizia Norbert Wiener, matemático estadunidense considerado pai da cibernética, ciência dedicada à estrutura dos sistemas reguladores. “Nós, como seres humanos, não somos sistemas isolados. Assimilamos alimento que gera energia, alimento procedente do mundo exterior, e somos, por conseguinte, parte daquele mundo mais vasto que contém as fontes de nossa vitalidade” (Wiener, 1968, p. 28). Ainda que seja profundamente inspirador, o argumento aqui exposto por seu autor não é parte de uma mera retórica abstrata, pelo contrário: pertence à visão lógica e probabilística da matemática. O cientista estadunidense coloca no centro desta proposição a interdependência do sistema humano em sua interação com o meio, através do alimento e dos recursos naturais, frutos de nossa vitalidade, pelos princípios da ciência da qual é considerado fundador, a cibernética. Por esse viés, as fontes naturais da vida e o organismo humano apresentam inter-relações regulares coerentes mediadas por informação configurada em muitos níveis – químicos, físicos, cognitivos, sensórios, organizacionais, linguísticos etc.

Alexandr M. Kondratov (19–, p. 20), biólogo, linguista, jornalista e poeta russo, explicando os princípios cibernéticos através de sua produção intelectual sensível e acessível, afirmou que, na imensidade do universo, a vida – da qual somos todos apenas parcelas – é um desses fenômenos organizadores, opostos à entropia, à desordem e às leis do caos: “se a entropia é a medida do caos, da desordem, a informação é a medida da ordem e de algum modo uma ‘medida da vida’. A informação é a negação da entropia” (19–, p. 26).

Como princípios das leis da informação, nascidas no campo da matemática, a teoria da comunicação e, posteriormente, a cibernética, tratam a interação informativa não apenas como sentido ou linguagem, mas como unidade de medida. O princípio digital (vindo de dígito), das máquinas computadoras, ou seja, de calcular, herança das operações aritméticas de contar, fora um estímulo deflagrador para a cibernética. O sistema binário, composto de apenas dois algarismos, 0 e 1, “motor” das máquinas modernas de contar, substitui o sistema decimal na representação de estados de uma máquina, disso resultando, portanto, uma simplificação essencial na manipulação e programação do procedimento maquínico. Por outro lado, o sistema binário mostra um modo de operação de alta complexidade, inaugurando um processo/sistema cujos constituintes apresentam possibilidades combinatórias múltiplas. Com o sistema digital, capaz de oferecer maior longitude de números do que o sistema decimal, a operação das máquinas pôde então ser ampliada e aprimorada, resultando dessa forma em respostas mais rápidas, o que redunda em aceleração de processamento de informação. Por analogia, o procedimento ágil de transmissão de informação e resposta através de correntes de condutores das máquinas de contar fora associado à velocidade de propagação dos impulsos pelas fibras nervosas do nosso cérebro. Daí emerge a metáfora de cérebro eletrônico dada ao computador. (Leia o artigo completo em PDF).

 

Recebido em: 01/05/2020

Aceito em: 05/06/2020

 

[1] Doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais (ECA-USP), pesquisador vinculado ao Grupo de Pesquisa em Semiótica da Comunicação, Diretório dos Grupos de Pesquisa do CNPq/Escola de Comunicações e Artes-USP. E-mail: douglasgalan@gmail.com

Hortas urbanas em regime de comunicação: leituras semióticas

 

RESUMO: O presente artigo dedica-se a produzir reflexões sobre a atividade social, técnica, cultural e econômica da agricultura urbana, e mais especificamente sobre hortas nas cidades. Para tanto, é tomada como ponto de partida a leitura semiótica dos espaços comunicantes formados por ambientes onde pratica-se a horticultura pública comunitária, a agroecologia, os sistemas agroflorestais e a permacultura, em regiões específicas da capital do estado de São Paulo. O fragmento observado é analisado a partir dos referenciais teóricos da semiótica da cultura, da ecologia semiótica, da biossemiótica, da teoria biológica da Unwelt, da cibernética, da teoria do organismo, entre outros. A ênfase da observação é dedicada às relações plurais, ecológicas, responsivas e de interdependência entre distintos atores que interagem nesses espaços, buscando-se trazer à tona um panorama de relações horizontais e de experiências propositivas de comunicação.

 

PALAVRAS-CHAVE: Hortas urbanas. Espaços comunicantes. Semiótica.


Urban gardens under communication: semiotic readings

 

ABSTRACT: This article is dedicated to producing reflections on the social, technical, cultural and economic activity of urban agriculture, and more specifically on vegetable gardens in cities. To this end, the semiotic reading of communicating spaces formed by environments where community public horticulture, agroecology, agroforestry systems and permaculture are practiced is taken as a starting point, in specific regions of the capital of the state of São Paulo. The fragment observed is analyzed from the theoretical frameworks of cultural semiotics, semiotic ecology, biosemiotics, Unwelt’s biological theory, cybernetics, organism theory, among others. The emphasis of observation is dedicated to plural, ecological, responsive and interdependent relationships between different actors who interact in these spaces, seeking to bring up a panorama of horizontal relationships and propositional experiences of communication.

 

KEYWORDS: Urban gardens. Communicating spaces. Semiotics.


GALAN, Douglas. Hortas urbanas em regime de comunicação: leituras semióticas. ClimaCom – Florestas [Online], Campinas, ano 7,  n. 17,  Jun.  2020. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/douglas-galan-hortas-urbanas-em-regime-de-comunicacao-leituras-semioticas