Etnógrafos podem ser colaboradores interessantes em grupos multidisciplinares quando são participantes ativos nas pesquisas | Gláucia Pérez

A etnografia permite, por exemplo, descrever como as práticas de conhecimentos são construídas e como as evidências emergem por meio de processos interativos, uma vez que os etnógrafos dão atenção às ciências e tecnologias como realizações práticas e interativas, incorporadas a contextos históricos e culturais. A participação dos etnográfos pode ajudar a reorientar tais processos, quando eles atuam como participantes ativos nas interações em quem se inserem.

Por: Gláucia Pérez

Editora: Susana Dias

 

Duas pesquisas etnográficas em grupos multidisciplinares foram analisadas pelo professor Marko Monteiro, do Departamento de Política Científica e Tecnológica do IGE/Unicamp, no artigo “Ethnography and interdisciplinary work: experiences from the US and Brazil”. Marko também é pesquisador do tema transversal de comunicação do INCT Mudanças climáticas, Fase 2. A relevância desse artigo é tratar da participação de pesquisadores das humanidades como interlocutores em redes de pesquisas com ênfase em ciências exatas e naturais, um problema de investigação que interessa muito ao INCT – MC 2. Marko nos contou que: “A etnografia como método, e a antropologia como prática, podem oferecer muitas contribuições inovadoras, inclusive na produção de conhecimentos sob outra ótica”.

Isso porque a etnografia descreve como as práticas de conhecimentos são construídas e como as evidências emergem por meio de processos interativos, uma vez que os etnógrafos dão atenção às ciências e tecnologias como realizações práticas e interativas, incorporadas a contextos históricos e culturais. A participação dos etnógrafos pode ajudar a reorientar tais processos, quando eles atuam como participantes ativos nas interações em que se inserem.

Ao lidar explicitamente com questões epistêmicas, os etnógrafos podem ajudar a criar um terreno comum entre as disciplinas, e a resolver problemas menos visíveis que são ignorados ou vistos como meras questões de comunicação. Etnógrafos podem ser potencialmente inestimáveis colaboradores para a atuação interdisciplinar em áreas como saúde e meio ambiente, onde variáveis relacionadas à biologia, sociedade e matemática geralmente estão interligadas. Não apenas problemas envolvendo um componente de ciências sociais, mas também em projetos de construção em que novas tecnologias estão em jogo, ou onde a interface com a política é um aspecto crucial.

No primeiro grupo de estudo a pesquisa realizada por Marko aconteceu no período de novembro de 2006 a março de 2008 nos EUA, com cientistas envolvidos na modelagem da transferência de calor em tecidos dentro de um hospital. O grupo era formado por professores, pesquisadores com pós-doutorado e estudantes de graduação. As áreas de especialização desses profissionais incluíam: ciência da computação, engenharia biomédica e civil, matemática aplicada, mecânica computacional, visualização científica, engenharia biomédica, e medicina. Foi produzido um vídeo para esse projeto. Segue o link: https://www.youtube.com/watch?v=a17cW4d7FqA&t=137s

No grupo, os profissionais eram provenientes de países como EUA, Irã, India e China, entre outras localidades. O objetivo científico desse grupo era ser capaz de prever o comportamento do câncer e das cédulas saudáveis quando aquecido, permitindo ao cirurgião em uma cirurgia de tempo real tomar decisões mais bem informadas sobre como conduzir a intervenção, automatizando efetivamente partes do procedimento cirúrgico. Como pesquisador de pós-doutorado o professor Marko teve acesso às reuniões, contudo sua participação nas pesquisas se limitou apenas a observar e registrar as interações.

O outro grupo de estudo foi no Brasil, em pesquisa realizada de novembro de 2013 a outubro de 2014, com um grupo de cientistas focados em produzir dados sobre o impacto global e regional das mudanças climáticas e do uso da terra; e como impacta diretamente a floresta e o cotidiano da sociedade local. Era um grupo de pesquisa em ciência ambiental e no monitoramento do desmatamento.

No grupo havia profissionais com conhecimentos nas seguintes áreas: cientistas da atmosfera e do clima, cientistas de sensores remotos, cientistas ambientais, antropólogos, biólogos e ecologistas. Também tinha profissionais vindos de outros países, na sua maioria de países europeus. Esse projeto pretendia levantar pontos de alarme onde são irreversíveis os danos causados a Amazônia, e levar esses dados a tomadores de decisões para que possam a tempo tomar providências. A modelagem era um aspecto central, pois esperavam desenvolver um plano para um sistema de alerta precoce para uma previsão e/ou tomada de decisão mais acertada.

Nesse grupo o professor Marko foi aceito não apenas como observador, mas em alguns momentos foi chamado para contribuir  sobre os objetivos e as questões das pesquisas de alguns colegas que estavam no projeto. Nesse caso, o professor Marko acrescenta que estando em um grupo do seu país e em um projeto voltado para os aspectos sociais e naturais da Amazônia o ajudou a ser visto como um potencial interlocutor e não apenas como um “observador”, como no outro grupo, onde as pesquisas eram realizadas nos EUA.

Nessa pesquisa foram explorados dois aspectos: o primeiro relacionado aos desentendimentos no grupo, que estavam relacionados às diferenças epistêmicas, que podem ser culturais ou de conhecimentos ou de métodos; o segundo relativo à posição não muito segura do etnógrafo em um grupo interdisciplinar, mas potencialmente produtivo em termos de experiências em campo.

Em ambas as pesquisas, ao interagir com os outros cientistas, o professor explicava qual era o seu estudo ao observar os integrantes do grupo, o que muitas vezes envolvia explicar pontos de vista epistêmicos, explicando o que era antropologia ou etnografia, e que tipo de dados eram esperados ao observar e interagir com os grupos. O professor ressalta que a etnografia poderia com sua “linguagem” específica ajudar essas equipes a produzir conhecimento de uma maneira que ainda não está sendo vista.

Por fim, Marko ressalta que na política atual um grande desafio é “a pouca comunicação do que a ciência de fato faz, pouco diálogo das universidades com seu entorno e com a sociedade em geral, além dos ventos políticos que sopram contra políticas ambientais, ONGs e qualquer pensamento divergente de um modelo agro-exportador”. (Leia a reportagem completa em pdf)

 

Bolsista TT Fapesp no projeto INCT-Mudanças Climáticas Fase 2 financiado pelo CNPq projeto 465501/2014-1, FAPESP projeto 2014/50848-9 e CAPES projeto 16/2014, sob orientação de Susana Dias e Antonio Carlos Amorim.

 

Coletivo e grupo de Pesquisa | multiTÃO: prolifer-artes sub-vertendo ciências, educações e comunicações (CNPq)

Projetos | Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas (INCT-MC) – (Chamada MCTI/CNPq/Capes/FAPs nº 16/2014/Processo Fapesp: 2014/50848-9); Revista ClimaCom: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/ e Revista ClimaCom.