Escrita e fungos: o que pode essa relação? | Gláucia Pérez

Levar a sério o que fungos, nuvens, pedras, cachorros, plantas, bactérias, rios etc. têm a nos dizer e ensinar tem levado estudiosos das ciências humanas a mergulhos profundos em diversos campos do conhecimento – das artes à física quântica, da química, engenharias de materiais à fisiologia e ecologia – e gerado intercessões bastante inusitadas. Foi o que assistimos na apresentação da pesquisa de doutorado do antropólogo Vitor Chiodi.

Por | Gláucia Pérez

Editora | Susana Dias

 

Através de pesquisas com as micélias, filamentos emaranhados que compõe o corpo de um fungo, o antropólogo Vitor Chiodi propõe repensar a escrita. Suas pesquisas estão intimamente ligadas a um campo de estudos denominado Estudos Multiespécies em que estudiosos das ciências humanas fazem uma espécie de imersão afetiva e política na vida dos mais diversos seres. Levar a sério o que fungos, nuvens, pedras, cachorros, plantas, bactérias, rios etc. têm a nos dizer e ensinar tem levado esses estudiosos a mergulhos profundos em diversos campos do conhecimento – das artes à física quântica, da química, engenharias de materiais à fisiologia e ecologia – e gerado intercessões bastante inusitadas.

Foi o que assistimos na apresentação que Vitor fez durante a segunda edição do Simbioses, que aconteceu na Unicamp no final de 2019 e foi organizado pelo grupo multiTÃO, revista ClimaCom e tema transversal de Comunicação do INCT Mudanças Climáticas Globais – 2a fase. Sua fala parecia com a de um biólogo. Uma semelhança inventada de modo bastante peculiar, tendo em vista sua formação e proposta especulativa radical de sua pesquisa: “fungos escrevem e pensam para escrever. E eles não estão sozinhos”, afirmou.

Não se trata mais de pensar uma escrita exclusivamente humana, nem feita apenas com lápis, papel, palavras, livros, computadores etc.. Trata-se de uma reinvenção da noção de escrita e da ideia de fungos e humanos. Vitor Chiodi nos diz que é um movimento de atenção a uma alteridade radical o fato de tentarmos entender o que os fungos têm a nos dizer. Para ele, qualquer ser, em seu mundo, está se comunicando e passando uma mensagem da sua vivência e mundo coletivo. O fato de não prestarmos atenção a essas inteligências coletivas demonstra nosso antropocentrismo.

Chiodi-IMG_5986Visualizar, entender, aprender como esses coletivos transformam nosso modo de pensar e buscar meios de escutá-los passa por nos deixarmos afetar por essa escrita, acreditar na transformação e na continuidade desses coletivos por meio de outros. Interagir com eles numa perspectiva menos hierárquica e homogeneizadora nos permite crescimento e reflexão para encontrarmos caminhos a seguir contrários ao antropocentrismo.

Para o pesquisador, a ligação com os fungos foi uma forma de estar mais presente e construir um futuro diferente do apocalíptico presumível e, algumas vezes, evidente para muitos. Sua dedicação a escutar e ler o que essas colônias escrevem envolve um gesto de cuidado com elas o quê, na avaliação dele, já faz toda a diferença. “O nosso contato com esses coletivos nos permite cuidar, e ao cuidar, interagimos e protegemos e, de alguma forma, já fomos afetados e fazemos parte desses coletivos”, escutamos do pesquisador.

E nessa escuta, percebemos que fungos escrevem, não apenas porque Vitor nos diz isso, mas pelo modo como nos diz: “A nossa transformação com o ambiente acontece quando nos deixamos ser afetados e reflexivos em relação ao que acontece ao nosso redor. Não para criar novas ruínas, mas aprender a cuidar das já existentes. Aprendi com os fungos a explorar uma ruína, um espaço de qualquer tamanho, e pensar junto um jeito de afetar e cuidar dessa ruína de alguma forma”. Sentimos que não escreve sozinho e que, talvez, também possa estar sendo escrito por eles.

O antropólogo Vitor Chiodi, membro do laboratório de Ficção, Ciências e Cultura (LABFICC), participou do 2° Simbioses – Refúgios para Espantar o Antropoceno – que ocorreu dia 22-11-2019 na Faculdade  de Educação -Unicamp. Este evento contou com o apoio do Mestrado em Divulgação Científica e Cultural (MDCC), do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) e Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e faz parte do projeto INCT-Mudanças Climáticas Fase 2, financiado por: CNPq projeto 465501/2014-1, FAPESP projeto 2014/50848-9 e CAPES projeto 16/2014. É organizado pelo grupo multiTÃO, sob coordenação de Susana Oliveira Dias (Labjor-Nudecri-Cocen-Unicamp)

Para conhecer mais sobre o trabalho do antropólogo Vitor Chiodi com as micélias segue link do Dossiê “Fabulações Miceliais”, da revista ClimaCom, editado por ele junto com outros colegas, em abril de 2019.

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