O meu propósito era dizer a vocês que o enterro (não) esteve lindo | Suely Kofes


Suely Kofes [1]

UMA BULA, COMO PRÉ-INTRODUÇÃO

Este é um artigo[2] de risco, particularmente para uma antropóloga etnógrafa (ou, antropógrafa, na instigante inspiração de Tim Ingold (2011, p. 179). Ainda mais quando o experimento aqui sugerido se inspira em uma figura-conceito de uma antropóloga rigorosamente etnógrafa. Que, por sua vez, inspirou-se, aliás, com relativa liberdade, no ciborgue de Donna Haraway (1991), para a figuração da conexão parcial, uma ousada crítica à comparação de totalidades, de um lado, e à colagem de fragmentos, por outro lado. Cito aqui um trecho de Marylin Strathern:

No final, então, a imagem de Tyler do antropólogo escritor é transformada de dentro para fora. O viajante cuja experiência composta integra uma miscelânea de eventos e locais são substituídos pelo ciborgue. Os escritos do antropólogo formam uma espécie de circuito integrado entre as partes, funcionando umas como extensões de outras. Como um campo de extensões o ciborgue se move sem viajar, como imaginar o efeito de pular nos pensamentos de uma sociedade das Terras Altas para outra, ou de um aspecto da vida social para outro. O circuito, entretanto, ainda parece centrado nas ferramentas perceptivas do antropólogo (STRATHERN, 2004, p. 55)[3].

Por que então este artigo é um experimento de risco? Porque nele me aproprio da conexão parcial para “pular” nos “pensamentos” (ou, no mundo) de uma ficção literária escrita no século dezenove ao da vida tecnossocial do século vinte e um.

 

INTRODUÇÃO

Não é incomum atualmente que seja recomendado que um artigo, ou livro, deva começar anunciando o seu tema e a questão que o sustenta. Deveria eu iniciar este artigo formulando concisamente que o tema é a morte e que a questão é a problematização das continuidades e descontinuidades entre a vida e a morte, entre os mortos e vivos? Ou, ao contrário, apoiando-me em um autor respeitável como Claude Lévi-Strauss (1991, p. 14-15) dizer que talvez não haja um tema. No caso dele querendo dizer que no mito “os temas se desdobram ao infinito”.

Mas, a morte seria um tema, afinal? Seria possível dizer sobre a morte o que disse Lévi-Strauss de que é provável que nem há um tema no livro citado acima e que a análise do mito enfrenta uma tarefa de Penélope em que cada passo adiante traz uma nova esperança atrelada a uma nova dificuldade? A elevação em rosácea possibilitou a Lévi-Strauss montar um campo semântico em torno de um mito – por meio da etnografia e de outros mitos – repetindo várias vezes a operação para cada outro, multiplicando percursos e círculos com sequência e temas divergentes. O método da análise equivaleria, assim, ao próprio caráter do mito que se pretende analisar, o de uma estrutura que se revela na sua multiplicidade.

Se a minha premissa é a de que a morte se dá a conhecer na multiplicidade de suas expressões, se ela tem uma estrutura não é aquela afirmada por Lévi-Strauss em relação ao mito. A morte é um acontecimento, algo por vir, e, ao mesmo tempo, ela contém uma constante, a relação sócio-cosmológica com a vida e a relação entre os vivos, os mortos e seres liminares.  Acontecimento que contém uma relação constante, portanto, o que talvez nem seja um paradoxo. Dizer que a morte é um acontecimento não encerra a discussão, aliás. Por exemplo, Eduardo Viveiros de Castro (2009) pergunta se como e para quem a morte é um acontecimento. Contrapondo os efeitos da morte entre os indígenas (ameríndios) e os não indígenas, Viveiros de Castro chama a atenção sobre o caráter narrativo da morte, isto é, a morte como boa para contar envolvendo narradores e personagens, enredando e encenando uma terminologia da lembrança e do esquecimento. Sobre os nomes, os bens, o que deve ser esquecido e deve ser lembrado, o que é preciso apagar ou não dos mortos para a continuidade dos vivos.

Práticas funerárias, os dispositivos fúnebres que investem socialidade na morte são uma entrada significativa para a compreensão de concepções e relações sociais. No clássico estudo de Robert Hertz (1928 [1907]) sobre a “representação coletiva” de morte, ao referir-se às concepções de morte, volta-se para corpos, almas, aos vivos, à carne e aos ossos, e com estes temas trata dos modos de sepultamento e de luto, às maneiras pelas quais à morte se sucedem uma série de acontecimentos.

O estudo de Hertz baseou-se em dados etnográficos indonésios e sua contribuição definitiva é a de chamar a atenção sobre a ritualização do sepultamento sequenciado, ou seja, um enterro transitório e um segundo enterro, definitivo, bem como as concepções que justificavam tal sequência selando a morte. Os posteriores estudos antropológicos sobre este tema, em distintas áreas etnográficas, mantiveram a atenção nos rituais funerários, nas concepções de pessoa, corpo e alma. Como o fez, aliás, Maurice Leenhardt (1987), que nos deixou também a questão instigante sobre se haveria ou não a presença do conceito de morte entre os Canaque, tendo em vista ali a ausência de oposição entre vivos e mortos, e sugeriu que, entre os Canaque, a perenidade mítica contrapõe-se à descontinuidade histórica e cria continuidades cosmológicas contra a finitude orgânica.

Outros temas se fazem presentes nas mais recentes pesquisas e discussões sobre os efeitos sociais da morte, e sobre as variações do que fazer com os mortos, o que a frase que dá título ao livro de David Charlie Sloane (1991), The last great necessity tão bem condensa. Ou, outro título The final rights (SLOCUM; CARLSON, 2011), ambos referindo-se ao que os vivos devem aos mortos. Esta última publicação é parte de uma luta pelos direitos do consumidor frente aos abusos do que é chamado como “indústria funerária”. Entretanto, é preciso talvez perguntar o contexto significativo destas formulações, pois uma antropologia mesmo cética suspeitaria de palavras como final e última ao se referir à morte. Desconfiança tendo em vista os efeitos dos dispositivos que podem prolongar a presença dos mortos entre os vivos.

A morte, o que os povos fazem dela e com ela, é um tema muito presente na antropologia, embora, como assinala João de Pina Cabral (1984), de modo intermitente. Desde as etnografias clássicas encontramos a morte tratada em sua complexidade revelando relações de parentesco, noções de pessoa, expressões estéticas, gênero, trocas, cosmologias e rituais.

No já clássico estudo sobre a morte entre os Krahó, Manuela Carneiro da Cunha (1978) destaca a importância do conjunto ritual e jurídico, as instituições funerárias; as descrições escatológicas; os presságios e os rituais fúnebres; uma etnofisiologia; as evocações que a morte motiva (e, poderíamos acrescentar o embate entre memória e esquecimento); o conjunto de representações e as manifestações socialmente padronizadas que cercam a ideia de morte; finalmente, a herança. E, poderíamos acrescentar a reordenação política e os conflitos desencadeados pela morte, ou seja, a morte como recurso político, na relação entre rituais funerários e troca; no embate entre o corpo político e o corpo “natural”, entre instituições e a família. Um tema que, evidentemente, não está apenas presente nas pesquisas antropológicas, também em inúmeros outros modos de conhecimento, além de que a morte inspira a literatura, a arte pictórica, a arquitetura, o cinema, recorrentemente falando da vida.

Vista como um desfecho, um fim, um encerramento, ou como distinção moral entre os vivos pelo valor atribuído às mortes gloriosas, a morte pode remeter à fuga de um mundo imperfeito para um mundo idealizado, para se referir moralmente à redenção e à punição, à crítica de um modo de vida, como o fazem Liev Tolstói (2009) e Evelyn Waugh (2008), como exemplos. A luta da vida contra a morte temida pode ser espiritualizada e, inclusive, tornar-se, como agora é o caso, uma controvérsia na tecnociência. Metaforizada, a morte presta-se à analogia entre o estático e o movimento, como nas associações que comumente se fazem entre a escrita e a fotografia à morte, e a narrativa oral e o cinema à vida. A fotografia pode ser vista como uma micro-experiência da morte como escreveu Roland Barthes (1984).

Mas, é preciso acentuar que estas oposições são tão frequentes quanto as suas contestações.

Assim, são múltiplas as concepções e imagens da morte e os dispositivos sociais que ela movimenta[4] que se fazem presentes e se expressam na organização de ritos funerários. Aliás, creio poder afirmar que a convivência entre rituais funerários comunitários e/ou familiares e o empresariamento funerário, que precisam ser considerados ambos como contemporâneos, são indícios importantes para a compreensão das distintas socialidades e temporalidades.

O funeral, conforme escreveu Sylvia Caiuby (2006) ao tratar do funeral Bororo, é um momento de recriação, de reafirmação estética, de conhecimento. Um conhecimento que se afirmaria e se difundiria de modo específico, em que se percebe nitidamente que os sentidos do mundo passariam pelos sentidos do corpo. Caiuby, inspirada pela discussão de Michael Taussig (1999) sobre a desfiguração (defacement) analisa os funerais bororo como uma sequência de transformações[5].

Embora seja preciso considerar também que a configuração e a refiguração já se iniciam com a morte e no corpo do morto, a morte altera o estatuto, condições e imagem do corpo, o que é retido na figuração da morte como uma “caveira”, que, aliás, em alguns lugares, como no caso mexicano, é positivada e destituída do medo e do tabu. Aliás, a singularidade do México, no que se refere à maneira de lidar com a morte é tema de várias pesquisas, indicando, inclusive, a folclorização simbólica, estimulada pela riqueza de imagens e pela proliferação de objetos reinventados pela indústria turística e cinematográfica. Uma das imagens-objetos, por exemplo, a das caveiras (calaveras), foi tratada pelo importante livro de Mercurio Lopez Casillas (2008). Uma relação instigante é a que faz o autor entre a fundação dos cemitérios públicos e o caráter festivo do dia dos mortos, que assim se tornaram desde quando os enterros saíram da jurisdição dos templos, das capelas, dos conventos e dos átrios das igrejas onde se realizavam. A lei que estabeleceu os cemitérios públicos é de 1837, em 1839 a Igreja perdeu o poder de intervir nos modos e locais de enterro, liberando-se inclusive os epitáfios e tendo efeitos nas artes gráficas. Sobre as caveiras, assinalando inclusive uma descontinuidade da relação entre as caveiras das pinturas europeias ou com as grafias indígenas, Lopez Casillas assinala que foi em 1889 a primeira litografia realizada no México, por José Guadalupe Pousada, como capa do periódico La Patria Ilustrada.

Retomando a premissa a que já me referi, a existência da morte está em suas expressões, narrativas e discursos, em grafias e objetos que por significados a eles associados a materializam. Nas suas expressões, a morte passa por distintas metamorfoses, remete à relação entre o visível e o enunciável, o que tem como efeito transformar a relação entre a morte e a vida. Pois, ao dizer-se a morte e os mortos se diz também vida e vivos, mas não da mesma maneira, inclusive, nem mesmo, necessariamente, como oposição.

Neste artigo, pretendo explorar tais questões por meio de “conexões parciais” que incluem a ficção literária, descrição com palavras e imagens, e aí o contexto são as próprias relações que estas conexões dão a pensar (leia o artigo completo em pdf).

 

Recebido em: 11/11/2020

Aceito em: 07/12/2020

 

[1]Antropóloga. Professora Titular Colaboradora do Departamento de Antropologia, do PPGAS e PPGCS. Coordenadora do Laboratório Antropológico de Grafia e Imagem (LA’grima). E-mail: kofes@unicamp.br

[2]O título desse artigo é uma paródia de uma frase de um conto de Lima Barreto, “Carta de um defunto rico”, em BARRETO, Lima, 2018, p. 47.

[3]“At the end, then, Tyler’s image of the writing anthropologist is turned inside out. In place of the traveller whose composite experience integrates a miscellany of events and locations, I have substituted a cyborg. The anthropologist’ s writings form a kind of integrated circuit between parts that work as extensions of another. As a field of extensions, the cyborg moves without travelling, as one might imagine the effect of jumping in one ‘s thoughts from one Highlands society to another, or from one aspect of social life to another. The circuit still seems centered, however, on the perceptual tools of the anthropologist” (STRATHERN, 2004, p. 55).

[4]Ou seja, a morte é um tema importante e disseminado. Como a isto se refere Louis Vincent Thomas (1983), logo no início do prefácio do seu livro, respondendo à sua própria pergunta “¿Porque um libro sobre La muerte? Tres razones, o más bien tres grupos de razones, abogan em favor de esta elección. En primer lugar porque La muerte es el acontecimento universal e irrecusable por excelencia: em efecto, lo único de lo que estamos verdaderamente seguros, aunque ignoremos el dia y la hora em que ocurrirá, su porqué y el como, es que Debemos morir”. Observando as pesquisas apresentadas em reuniões cientificas, na RAM, como um exemplo, nota-se a criação de novos temas, a repetição de muitos já canônicos, mas, principalmente, a diversidade de objetos de pesquisa sobre a morte. Inclusive, em grupos temáticos nas redes.

[5]Conforme Caiuby, “O objetivo do trabalho é analisar os funerais bororo como momentos de desfiguração e refiguração do mundo”, citando Michael Taussig (1999).

O meu propósito era dizer a vocês que o enterro (não) esteve lindo

RESUMO: Este artigo trata da morte e da vida como uma relação cuja dobra constitui sujeitos, sugerindo que essa relação e sujeitos se dão a conhecer por suas expressões. Trata ainda da tradução desta composição múltipla em ambiente digital e, particularmente, das transformações e efeitos dos dispositivos epidêmicos. Finalmente, sugere que nas pandemias há uma inversão da relação entre morte e vida em analogia com a relação figura e fundo.

PALAVRAS-CHAVE:  Morte. Funeral. Epidemia. Conexão parcial.

 


My intention was to tell you that the burial was (not) beautiful

ABSTRACT: This article discusses life and death as a relation whose fold constitutes subjects. It suggests that these relations and subjects become known via their expressions. This article also covers the translation of the multiple compositions of these expressions in a digital ambience, particularly of the transformations and effects of pandemics devices. Finally, it suggests that there is an inverse relation between life and death in pandemics, as an analogy between figure and ground.

KEYWORDS: Death. Funeral. Epidemic. Partial connections.

 

 

 


KOFES, Suely. O meu propósito era dizer a vocês que o enterro (não) esteve lindo. ClimaCom – Epidemiologias [Online], Campinas, ano 7,  n. 19,  Dez.  2020. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/entre-a-vida-e-a-morte/