Uma educação pelas plantas: aprender por vias não cognitivas | Diego Winck Esteves


Diego Winck Esteves[1]

Manjericão

Ao iniciar este ensaio, relato um acontecimento recente. Tudo ocorreu quando minha afilhada, de dois anos e meio, passou a noite em nossa casa. O fato relevante, para os pensamentos que este texto põe em curso, se deu por volta da meia noite. Em virtude de um resfriado, com coriza e muita tosse, a menina adormecia e acordava, em estado de visível desconforto. Com o intuito de alterar aquela condição, mas sem qualquer medicamento, na humilde farmácia que se mantém neste lar, para uma criança tão pequena, a apreensão tomava conta do meu corpo, e eu sequer havia cochilado até então. Naquele momento me ocorreu o seguinte: que o manjericão, uma das espécies do meu jardim de apartamento, poderia produzir um efeito benéfico, isto é, que seria um tratamento para a ocasião. De imediato, após macerar algumas folhas com a mão e segurá-las próximo ao seu nariz, enquanto ela dormia com visível dificuldade na respiração, as tosses cessaram e as vias respiratórias desobstruíram. Eis que me senti uma espécie de improvável xamã urbano, conectado com um conhecimento que desconhecia. A verdade é que, racionalmente, eu não contava com nenhuma informação a respeito da relação entre manjericão e problemas do trato respiratório. Com efeito, me perguntei se era possível que eu tivesse aprendido algo no meu envolvimento com o mundo vegetal, no processo de conviver com plantas, que ganhou corpo durante a pandemia – já são mais de 50 espécies num apartamento de pouco mais de 50m2. No dia seguinte, curioso sobre meu gesto terapêutico inesperado – ou, para ser justo, ao gesto terapêutico do manjericão –, ao pesquisar na internet descobri que esta espécie é incluída, pela medicina tradicional chinesa, dentre outras, no tratamento de problemas respiratórios. (Leia o ensaio completo em PDF).

 

Recebido em: 15/09/2022

Aceito em: 15/10/2022

 

[1] Mestre e doutorando no Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Pesquisador, professor e artista. Site: http://diegoesteves.com; E-mail: winckesteves@gmail.com  

 

Uma educação pelas plantas: aprender por vias não cognitivas

 

RESUMO: Este ensaio problematiza a relação entre plantas e humanos, questionando se, pelo advento da agricultura, não teria ocorrido, em reciprocidade, uma antropocultura – espécie de cultivo do humano pelas plantas. Desde esta questão, que pode soar absurda à primeira vista, parte-se para um estudo acerca da relação entre o mundo animal e o vegetal em termos de uma ontografia, escrita que se esforça para perspectivar o que nos envolve, desviando da predominância da razão. Com efeito, pergunta-se o que temos aprendido com as plantas, ainda que de modo inconsciente, e o que podemos aprender, de modo ativo, se nos colocarmos numa postura atenta, contemplativa ao que elas – com seu tempo, seus ritmos, com processos tão distintos dos animais humanos – podem nos ensinar. Disso decorre que esta relação, assim exposta, detém potencial para revermos nossa ocupação na Terra, em pleno Antropoceno, para atualizar uma política de descentralização, de convivência em cooperação, valendo-se de uma espécie de inteligência coletiva característica do mundo vegetal.

PALAVRAS-CHAVE: Educação. Ontografia. Política. 

 


Plant-based education: learning by non-cognitive means

 

ABSTRACT: This essay investigates the relationship between plants and humans, questioning whether the invention of agriculture would have produced an anthropoculture—a kind of cultivation of humans by plants. From this question, which may sound absurd at first, this ontography sets out to study the relations between the animal and plant worlds, a writing that strives to put into perspective that which surrounds us, deviating from reason. It inquires what we have learned from plants, even if unconsciously, and what we can actively learn if we adopt an attentive, contemplative regard to what plants—with their time, their rhythms, their processes so different from those of human animals—can teach us. If follows that such a relationship could help us rethink our occupation on Earth, amidst the Anthropocene, to update a policy of decentralization and cooperative coexistence, employing a kid of collective intelligence characteristic of plants.

KEYWORDS: Multispecies studies. Plants. Writing. Anthropoceno.

 


ESTEVES, Diego Winck. uma educação pelas plantas: aprender por vias não cognitivas. ClimaCom – Políticas Vegetais [online], Campinas, ano 9, n. 23., dez. 2022. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/educacao-pelas-plantas/