Relicário de pequenas vidas | Eduardo Silveira

Título | Relicário de pequenas vidas

 

Toda floresta carrega consigo a condição de ser multiplicidade. Comunhão de diferenças, espaço de imersão onde os seres partilham o mesmo sopro e fazem mundo (Coccia, 2018). Não há silêncio, não há pausa, não há excesso. Há, sim, o movimento incessante da vida que atravessa indivíduos de diferentes reinos, espécies, escalas. Assim, numa floresta, a morte de um indivíduo é a oferta generosa do sopro que ali existia, para que outras formas se produzam. Em meio a esse emaranhado de vidas, as plantas são como detentoras de uma sacralidade ancestral, pois não são apenas os artesãos mais finos de nosso cosmos, são também as espécies que abriram para a vida o mundo das formas (Coocia, 2018, p.18), permitindo que a terra firme fosse um laboratório permanente para o ensaio de novas e variadas vidas. Essa dimensão mítica das plantas encontra eco naquilo que Peter Wohlleben, engenheiro florestal e gestor de uma reserva florestal em Wershofen, Alemanha, propõe. A partir de sua vivência na floresta ele parece ter adquirido a capacidade de ouvir os sussurros das árvores. Em seu livro (Wohlleben, 2017) ele sugere que as árvores possuem algo como uma linguagem capaz de comunicar perigos e outras situações a vizinhas. É como a delicada conversa entre o carvalho, o álamo e o baobá, as três árvores que discutem o infortúnio do carvalho, que teve sua pele rompida por duas pessoas gravando seus nomes como prova de amizade, no belo romance A vida privada das árvores, de Alejandro Zambra (2013). Peter Wolleben também considera que as árvores estabelecem relações de amizade entre si e com seres de outros reinos em uma comunhão existencial. Seus corpos, notadamente as raízes, são atravessados pelo corpo de fungos e outros seres com os quais compartilham vida, na forma de substâncias e informações. A proposição artística Relicário de pequenas vidas parte dessa noção da floresta como espaço de movimento incessante da vida; e das árvores como seres míticos, capazes de artesanatar o mundo e encontra eco naquilo que sussurra Emamuele Coccia (2018, p.70) viver, experienciar ou estar-no-mundo, significa também se fazer atravessar por toda coisa. Sair de si é sempre entrar em alguma coisa de outro, em suas formas e em sua Relicário de pequenas vidas se constitui de três movimentos realizados a partir de visitas à Cachoeira da Solidão, em Desterro [Florianópolis], Santa Catarina. A Cachoeira da Solidão se localiza no extremo sul de Desterro e é acessada por uma trilha curta de aproximadamente 400 metros de extensão, em meio à mata atlântica. As visitas foram todas feitas pela manhã, bem cedo e encontraram a Cachoeira sem a presença de mais humanos. O primeiro movimento compõe-se de um relato ficcional em vídeo, narrado pela própria Cachoeira. O segundo se abre como um gesto de coleta de fragmentos de vida que se desprendem das árvores presentes no entorno da Cachoeira e da trilha de acessa a ela. O terceiro se relaciona a penetrar nesses pequenos fragmentos, para, com eles, compor: fazer mundo e, mais do que isso, proliferar a floresta que neles habita em potência. Assim, cada pequeno fragmento desprendido de uma árvore qualquer dessa multidão que constitui a trilha e Cachoeira da Solidão, volta à vida ganhando uma identidade, em um movimento de composição único.

Bibliografia
COCCIA, Emanuele. A vida das plantas: uma metafísica da mistura. Tradução: Fernando
Scheibe – Desterro [Florianópolis]: Cultura e Barbárie, 2018.
WOHLLEBEN, Peter. A vida secreta das árvores. Tradução: Petê Rissati. Rio de Janeiro:
Sextante, 2017.
ZAMBRA, Alejandro. A vida privada das árvores. Tradução: Josely Vianna Baptista. São Paulo:
Cosac Naify, 2013.

 


 

Eduardo Silveira

2020

 

 

 

 

 

 

SILVEIRA, Eduardo. Relicário de pequenas vidas. ClimaComFlorestas [online],  Campinas,  ano 7, n. 17. Maio. 2020. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/eduardo-silveira-florestas/


 

SEÇÃO ARTE | FLORESTAS | Ano 7, n. 17, 2020

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