Composições lúdicas entre crianças, jovens, adultos e natureza| Juliana Araújo Silva e Elizabeth M. F. A. Lima


Juliana Araújo Silva[1]

Elizabeth M. F. A. Lima[2]

 

INTRODUÇÃO

 

Não se trata mais das utilizações ou das capturas, mas das sociabilidades e comunidades. Como indivíduos se compõem para formar um indivíduo superior, ao infinito? Como um ser pode se apoderar de outro no seu mundo, conservando-lhe ou respeitando-lhe, porém, as relações e o mundo próprios? (DELEUZE, 2002, p.131).

Este artigo relata a experiência de um projeto de extensão realizado entre a Universidade de São Paulo (USP) e o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), criado e executado por estudantes de graduação e pós-graduação dos cursos de Terapia Ocupacional, Arquitetura e Urbanismo e Pedagogia da universidade. Ele parte da monografia “A sutileza em criar mundos” apresentada para o Curso de Teria Ocupacional da USP que fez uma análise a partir do método cartográfico da experiência em questão. O projeto intitulado “O espaço do brincar: construindo coletivamente um brinquedo-espaço”, foi realizado no assentamento Dom Pedro Casaldáliga de 2006 a 2008, com o financiamento do Fundo de Cultura e Extensão da USP. 

No ano de 2006 surgiu uma parceria entre o MST e a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), através da disciplina obrigatória de graduação da FAUUSP – Desenho Urbano e Projeto dos Espaços da Cidade. O trabalho desenvolvido pelos alunos desta disciplina aconteceu no assentamento Dom Tomás Balduíno e consistia em conceber em parceria com os assentados, propostas de desenho urbano para o local. Após esse trabalho houve um desejo de continuidade dessa parceria entre a FAUUSP e o MST que se desdobrou em ações desenvolvidas a partir da disciplina de Paisagismo: Sistemas de Espaços Livres no assentamento Dom Pedro Casaldáliga e que tinha por objetivo o desenvolvimento de planos e projetos capazes de espacializar conceitos em forma de sistemas de espaços livres que atendam tanto às peculiaridades da base física como às demandas e anseios da população, participante ativa do processo de elaboração e discussão dos projetos (NASCIMENTO, 2014). 

Para a implementação de tal proposta foram constituídos dois grupos de trabalho, o primeiro para realizá-lo com os adultos e o segundo com as crianças. O último foi formado a partir do desejo de se trabalhar com essa população a fim de desmistificar a criança como ser passivo e tutelado, e compreender todos os habitantes (do assentamento), sejam eles adultos, crianças ou jovens, como sujeitos da construção de seus lugares. As estudantes foram aos poucos se aproximando da realidade das crianças assentadas por meio de conversas com os setores de Educação e Cultura daquele assentamento e de passeios que realizavam com elas para reconhecimento do local. O principal objetivo era perceber como aquelas se relacionavam com o espaço, como estavam vivenciando a transição campo-cidade, e compreender como as crianças se apropriavam de noções espaciais e temporais. 

Durante esse trabalho, as estudantes perceberam que o lúdico estava presente em diversos momentos em que estiveram junto às crianças, nos passeios e nas conversas com os pequenos e observaram que o repertório de brincadeiras destes havia mudado significativamente após a mudança da cidade para o campo. Além disso, essas crianças apresentavam diferentes vivências, pois é interessante ressaltar que cada uma vinha com sua família de um lugar diferente, algumas de cidades pequenas, outras grandes, da região sudeste a norte do país. 

As experiências vividas pelas estudantes de Arquitetura durante a última disciplina foram intensas ao ponto de fazer vingar um desejo de continuidade do trabalho com as crianças e certos agenciamentos para tal. As curiosidades por elas vividas, as ideias que surgiram naquelas andanças pelos espaços, foram fundamentais para que buscassem outros estudantes, de áreas diferentes, e professores que bancassem juntos a formulação de um projeto interdisciplinar específico para pensar a Infância e o Espaço. 

A equipe ficou composta por cinco estudantes de graduação em Arquitetura e Urbanismo, uma estudante de pós-graduação (mestrado) da mesma área, duas estudantes de Terapia Ocupacional e uma de Pedagogia. Professores da FAUUSP e do curso de Terapia Ocupacional entraram como orientadores e colaboradores do projeto. O grupo realizou reuniões periódicas para traçar o que seria o novo projeto, seus objetivos e métodos. Emergiram questões sobre o universo infantil (desenvolvimento, criatividade, cultura, possibilidades de relações sociais e a contemporaneidade), conceitos de participação, movimentos sociais e sua relação com a universidade e com o conhecimento que é produzido nesta. O projeto foi se formando com o intuito de discutir a infância naquele assentamento, recorte singular de nossa sociedade, mas que acreditava-se comportar valores e atitudes carregados do que é produzido de forma mais ampla em relação à população infantil. 

A estratégia a ser utilizada para pautar a infância estava em parte definida, seria a construção de estruturas arquitetônicas e brinquedos a serem elaborados, a partir da vivência com as crianças e por todos os envolvidos. Acreditava-se que esta seria a melhor forma de atingir o universo infantil, através de um viés do próprio lúdico. As estruturas/brinquedos foram nomeadas de “Brinquedo-Espaço” conforme aponta Juliana Bespalec et al:

Brinquedo-Espaço […] não como um objeto, mas como uma estrutura espacial que abrigue diversas possibilidades de apropriação, e que tenha efeito potencial de intensificar relações sociais no espaço coletivo em geral, introduzindo o lúdico como aspecto do cotidiano (BESPALEC et al, 2007, p.30).

Foram realizadas reuniões iniciais, como um aquecimento, para que o grupo de estudantes pudesse se conhecer, para trocar experiências e ideias e afinar um modo de trabalho na possibilidade do momento. Como não eram todos os integrantes do grupo que conheciam as crianças envolvidas, então, operávamos uma construção que era em parte baseada em “imagens”. Imagens pré-existentes de um assentamento ligado ao MST, de como seriam crianças de um assentamento, do que elas necessitariam, ou do que crianças em geral necessitam, etc. Mesmo os que conheciam as crianças, ainda estavam num momento inicial do contato, não havia tanto conhecimento sobre o cotidiano das mesmas e sobre como elas ocupavam o assentamento no dia a dia. Portanto, ideias mais generalizadas eram guias para a construção do projeto, a partir deste contágio vivido pelas estudantes no processo anterior. Um outro tipo de contágio também acontecia: em suas trocas, as estudantes conheciam o que era a Arquitetura, o Urbanismo, a Pedagogia, a Terapia Ocupacional através do que as presentes traziam em seus corpos, pensamento e fala. 

Quando o projeto iniciou começaram a acontecer efetivamente os encontros com os corpos infantis e com o espaço do assentamento, produzindo derivas e desvios fundamentais para por em curso desconstruções e explorações importantes para liberar um ato cartográfico e um devir-criança e assim, reconduzir o projeto por outros caminhos. Diferentes momentos foram vividos pelo grupo formado entre estudantes, professores da universidade, jovens e adultos do setor de educação do assentamento e pelas crianças. O projeto, ao abrir estes momentos de desvio colocou em operação uma ação junto a crianças a partir das singularidades dos modos pelos quais habitavam e circulavam no assentamento e construíam seus territórios de vida. 

Neste artigo pretende-se discutir o processo de construção do trabalho que envolveu deslocamentos das posições hegemônicas – adultos propositores e crianças receptoras -, a construção de uma presença cartográfica e inventiva e a colocação em fluxo de composições entre corpos infantis, de jovens adultos e do ambiente natural do assentamento, a partir de uma perspectiva ético-estética, e política, em Terapia Ocupacional. Para isto, seu exercício escritural faz coexistir narrativas, autores que compõem com a experiência e com as questões apresentadas e fragmentos do diário de campo, em destaque durante o corpo do texto. O leitor notará que há duas concepções de cartografia colocadas, a primeira como método de pesquisa que embasou a monografia, e a segunda que terá mais destaque no texto como forma de conhecer e agir. Abordaremos brevemente como a cartografia, enquanto modo de conhecer, serve de base para a formulação do método de pesquisa (Leia o artigo completo em PDF).

 

Recebido em: 30/06/2020

Aceito em: 30/07/2020

 

 

[1] Doutora em Psicologia e Sociedade. Pós-doutoranda na Universidade de São Paulo. E-mail: juliana.arsi@gmail.com.

[2] Professora Livre Docente do Curso de Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo. Email: beth.lima@usp.br

Composições lúdicas entre crianças, jovens, adultos e natureza

 

RESUMO: Este artigo relata a experiência de um projeto de extensão realizado entre a Universidade de São Paulo e o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), criado e executado por estudantes de graduação e pós-graduação dos cursos de Terapia Ocupacional, Arquitetura e Urbanismo e Pedagogia da universidade. O projeto intitulado “O espaço do brincar: construindo coletivamente um brinquedo-espaço”, foi realizado no assentamento Dom Pedro Casaldáliga de 2006 a 2008, com o financiamento do Fundo de Cultura e Extensão da USP. O projeto foi formado com o intuito de discutir a infância naquele assentamento, através da construção de estruturas/ brinquedos a serem elaborados, a partir da vivência com as crianças e por todos os envolvidos. Seu desenvolvimento, no entanto, comportou diferentes percepções e mudanças a partir do contato com as crianças. Pretende-se discutir neste artigo o processo de construção do trabalho que envolveu deslocamentos das posições hegemônicas – adultos propositores e crianças receptoras -, a construção de uma presença cartográfica e inventiva, colocando em fluxo composições entre corpos infantis, de jovens adultos e do ambiente natural do assentamento.

PALAVRAS-CHAVE: Infância. Invenção. Cartografia.

 


Playful compositions between children, youth, adults and nature

 

ABSTRACT: This article reports the experience of an extension project carried out between the University of São Paulo and the Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), created and executed by undergraduate and post-graduate students in Occupational Therapy, Architecture and Urbanism and Pedagogy courses from the university. The project entitled “O espaço do brincar: construindo coletivamente um brinquedo-espaço” was carried out in the Dom Pedro Casaldáliga settlement from 2006 to 2008, with funding from the USP Culture and Extension Fund. The project intended to discuss childhood in that settlement, through the construction of structures / toys to be elaborated, from the experience with the children and by everybody involved. Its development, however, involved different perceptions and changes from contact with children. It is intended to discuss in this article the process of construction of work that involved displacement of hegemonic positions – proposing adults and receiving children -, the construction of a cartographic and inventive presence, putting in flux compositions between children’s bodies, young adults and the natural environment of the country.

KEYWORDS: Childhood. Invention. Cartography.

 


SILVA, Juliana Araújo; LIMA, Elizabeth M. F. A. Composições lúdicas entre crianças, jovens, adultos e naturezaClimaCom – Devir Criança [Online], Campinas, ano 7,  n. 18,  Set.  2020. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/composicoes-ludicas-entre-criancas-jovens-adultos-e-natureza-juliana-araujo-silva-e-elizabeth-m-f-a-lima