Caminhando pelos manguezais do fim do mundo | Pedro Castelo Branco Silveira


Pedro Castelo Branco Silveira [1]

 
A maneira mais comum de se caminhar através do manguezal é enfrentar a textura da lama nas canelas ou nos joelhos. Aprendi que para se ter sucesso é preciso manter um passo ritmado, lento, porém não lento demais. Aceitar que os pés afundam ao se pisar, porém retirá-los da lama antes que fiquem demasiado presos.

É preciso estar com os pés protegidos por calçados de solado resistente. Os caranguejeiros costumam usar botas de borracha ou fabricar calçados artesanais usando lona de caminhão ou outro material que não rasgue ao se pisar numa ostra ou outro corpo afiado aderido às raízes das árvores de mangue. As árvores de mangue vermelho (ou sapateiro ou, ainda, gaiteiro), Rizophora mangle, apresentam suas raízes aéreas, chamadas pneumatóforos, bastante robustas.  Nos lugares do manguezal com árvores de Rizophora em grande densidade, ou ao longo de uma lama muito movediça, é preferível um estilo de caminhada diferente, pouco tocando o chão, equilibrando-se sobre as raízes. Andar por cima dos rizóforos, calculando os saltos, é um outro exercício humano de habilidade e confiança.

Os caranguejos-uçá andam com facilidade por cima e por dentro da lama. Cavam buracos onde se alojam, saindo diariamente durante a maré baixa para se alimentar das folhas em decomposição das árvores. Na maré alta, quando a água cobre a lama, os caranguejos permanecem dentro dos buracos.

Outro tipo de caranguejo do manguezal, o aratu, pequeno e vermelho-vivo, também anda sobre a lama. Às vezes se esconde nos buracos dos uçás, mas seus movimentos vitais são entre o solo e a copa das árvores, onde repousam durante a maré alta. Por serem curiosos, uma técnica de capturá-los é emitir ruídos, assobiando ou batendo nas árvores até que se aproximem.

Guaxinins visitam os manguezais para comer os caranguejos, é fácil identificar suas pegadas na lama. Pescadores me contaram que um dos métodos de captura usado por esses mamíferos é enfiar seu rabo peludo na toca do caranguejo e trazer o bicho agarrado a ele. Por isso, dizem, muitos guaxinins dos manguezais têm o rabo danificado. (Leia o artigo completo em PDF).

 

Recebido em: 01/05/2020

Aceito em: 05/06/2020

 

[1] Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) em Recife, PE; professor do Programas de Pós-graduação de Sociologia em Rede (ProfSocio/Fundaj) e do Programa de Pós-graduação em Antropologia (PPGA-UFPE); doutor em Ciências Sociais e Mestre em Antropologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Caminhando pelos manguezais do fim do mundo

 

RESUMO: Proponho compartilhar com o leitor a experiência de caminhar ao longo da florestas fluidas e lunares dos manguezais do Nordeste do Brasil, com suas relações socioecológicas, a partir de minhas práticas de pesquisa em acompanhar caranguejeiros e outros pescadores artesanais que fazem do manguezal um espaço vital. Comentando sobre a produtividade ecológica das áreas estuarinas e a sua importância histórica e contemporânea para as populações de origem afro-indígena, aponto as forças antropocênicas de destruição e contaminação dos manguezais, que tornam a experiência de caminhar nos manguezais a de relacionar-se com uma diversidade contaminada que teima em se regenerar e abrigar a autonomia humana.

PALAVRAS-CHAVE: manguezal; etnografia multiespécie; antropologia da paisagem; caranguejos; pesca artesanal.

 


Walking through the mangroves in the end of the world

 

ABSTRACT: I propose to share with the reader the experience of wandering through the fluid and moon-driven mangrove forests in the Northeast coast of Brazil, and its social-ecological relations. I write from my research practices of coming along with crab fishermen that make the mangrove a vital space. I comment about the ecological productivity of estuarine areas and its historical and current importance for the afro-indigenous population. I also point to the destructive and contaminant anthropocenic forces that turn the experience of walking through the mangrove into the experience of relating to a contaminated diversity that insist in regenerating and housing human autonomy.

KEYWORDS: mangrove; multispecies ethnography; landscape anthropology; crabs; small-scale fisheries.

 


SILVEIRA, Pedro Castelo Branco. Caminhando pelos manguezais do fim do mundo. ClimaCom – Florestas [Online], Campinas, ano 7,  n. 17,  Jun.  2020. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/pedro-silveira-florestas