Apocalipse zombie, sem efeitos especiais | Cristiana Bastos


Cristiana Bastos[1][2]

 

Zombies e epidemias

Especialistas em epidemias vindos da antropologia, da história, dos estudos de ciência e da saúde pública reuniam-se num simpósio sobre as articulações epidemias/cidades organizado em 2014 na Universidade de Goethe, em Frankfurt, Alemanha[3]. Uma das apresentações era sobre zombies e sobrevivência a epidemias. Estranhámos, alguns, a intrusão da linguagem do cinema e jogos num simpósio em que dominavam os nomes pesados e sérios da cólera, febre tifoide, sífilis, tuberculose, AIDS, SARS, chikungunya, dengue; em que se falava de biossegurança e cidades-sentinela, de políticas urbanas e sanitárias passadas e contemporâneas, e se articulavam a interpretação histórica, a análise do presente e a aprendizagem para uso futuro. Eu levava a análise das políticas de regulamentação para a sífilis e prostituição em Lisboa e dos debates sobre transmissão e tratamentos experimentais na primeira metade do século XX, apresentando um caso de surto numa família multigeracional de Alfama em que o alegado paciente zero fora um bebé aleitado por uma vizinha infectada – algo que emergira durante a pesquisa empírica de um projeto anterior sobre assistência à sífilis no antigo hospital do Desterro em Lisboa[4].

Outros participantes do encontro levavam análises provenientes da China e vizinhanças, do Mediterrâneo, do Índico, das Américas (MADSEN, 2014). Ninguém vinha do planeta Hollywood nem havia secção de ficção científica, estudos de cinema ou literatura. Mas a referência ao apocalipse zombie não estava ali deslocada: pelo contrário, era um conceito chave na frente de preparação para calamidades, a metáfora usada em departamentos de prevenção e saúde pública para hipotéticas epidemias de contornos imprevisíveis[5].

A evocação de zombies traz-nos bandos de mortos-vivos deambulando em busca de presas que se contagiam e transfiguram em crescente malignidade, híbridos de vampiros e monstros esfarrapados, com sangue a jorrar dos olhos e orelhas, pele a explodir, ramos peçonhentos nascendo do tronco e membros, e outros elementos dos filmes de terror[6]. No cinema de pendor realista os equivalentes dramáticos são o contágio descontrolado, a evolução rápida de sintomas, hemorragias violentas, mortandade generalizada, militarização do espaço público, cenário de guerra e, idealmente, um final de redenção pela ciência e a medicina, cujos agentes personificam heróis em duríssima provação. Assim se viu em Contágio [Contagion] (Dir. Steven Soderbergh, 2011), em Epidemia[7] [Outbreak] (Dir. Wolfgang Petersen, 1995), e de certo modo já no clássico de Elia Kazan Pânico nas Ruas [Panic in the Streets] (1950). Mas nem sempre é assim na vida real, ou não o é no início de cada nova epidemia (leia o ensaio completo em pdf).

 

Recebido em 15/10/2020

Aceito em 26/11/2020

 

[1] Uma versão inicial deste ensaio foi publicada na série “Ciências Sociais em Público”, resultante de uma pareceria entre o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e o diário português O Público. Agradeço à colega Filipa Vicente o desafio e encorajamento, e ao público leitor o bom acolhimento.

[2]Investigadora Principal, Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa. cristiana.bastos@ics.ulisboa.pt

[3] Epidemic entanglements: Exploring the interrelation of cities and infectious disease, organizada por Meike Wolf e Kevin Hall, 24-25 Julho de 2014, Goethe Universitat, Frankfurt.

[4] Trata-se do projeto de História da Ciência (HC/0071/2009) A Ciência, a Clínica e a Arte da Sífilis no Desterro, 1897-1955, que coordenei no ICS com apoio da Fundação para a Ciência e Tecnologia (https://sites.google.com/site/cerasdesterro/home; para este estudo de caso, ver cf. BASTOS, 2011, especialmente o capítulo 10, “Do mercúrio ao arsénico: Thomaz de Mello Breyner e a clínica de sífilis”).

[5] Na apresentação “Zombie survival: preparing for and acting upon imagined epidemics”, Maximilian Mehner (U Philipps, Marburgo), demonstrou a relevância da noção de zombies enquanto chave visual no desenvolvimento de programas de preparação para pandemias futuras. A sua pesquisa baseou-se no programa dos Centros de Controle e Prevenção das Doenças dos Estados Unidos “Preparedness 101: Zombie Apocalypse” (Preparação Básica: Apocalipse Zombie) e em trabalho de campo no programa alemão “Campo de Sobrevivência Zombie” (MEHNER 2014; MADSEN 2014).

[6] “Zombie” tem historicamente um significado mais amplo, remetendo para a sua etimologia africana e para a cultura afrodescendente no Caribe, destacando-se o Haiti, onde Zombies são aparições de mortos vivos – podendo ser interpretados como representação condensada da condição de morte-em-vida dos escravizados. Neste ensaio, contudo, restringi-me ao seu uso popularizado no cinema, música e videojogos, com matriz no filme “A Noite dos Mortos- Vivos” [Night of the Living Dead], (dir. George Romero, 1968), em que o fenómeno ainda não é referido como “zombie”, e destaque para a “dança zombie” do videoclip Thriller de Michael Jackson e suas reencenações, incluindo a que mobilizou centenas de encarcerados mexicanos no que veio a ser um vídeo viral.

[7] O título do filme Outbreak foi traduzido no Brasil como Epidemia e em Portugal como Outbreak- Fora de Controlo.

Apocalipse zombie, sem efeitos especiais

RESUMO: A propósito do SARS-CoV-2/COVID-19, que apresento como zoonose contemporânea, discuto neste ensaio as articulações entre epidemias e memória coletiva, produção de conhecimento, literatura, arte, experiência vivida, medo, preparação e prevenção de calamidades, representações do futuro, biopolítica, necropolítica, e saúde pública.

PALAVRAS-CHAVE: COVID-19. Epidemias. Zoonoses.

 

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Zombie apocalypse, with no special effects

ABSTRACT: In this essay, I address SARS-CoV-2/COVID-19 as a contemporary zoonosis, and discuss the articulations of epidemics and collective memory, the production of knowledge, literature, art, lived experience, fear, preparedness, projections of future, biopolitics, necropolitics, and public health.

KEYWORDS: COVID-19. Epidemics. Zoonoses.


BASTOS, Cristiana. Apocalipse zombie, sem efeitos especiais. ClimaCom – Epidemiologias [Online], Campinas, ano 7,  n. 19,  Dez.  2020. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/apocalipse-zombie/