Alice Dalmaso | De um sábado qualquer – por entre imagens e textos e Deleuze e…

Título: De um sábado qualquer – por entre imagens e textos e Deleuze e…


O Coletivo de Estudos ‘Sábados com Deleuze’ é composto por um grupo de professores de diferentes áreas, e/ou artistas e/ou pesquisadores, que se encontram uma vez ao mês, aos sábados no Laboratório de Artes Visuais (LAV) do Centro de Educação (CE) da Universidade Federal de Santa Maria – e que tem trabalhado com textos e imagens em suas pesquisas entre arte e educação como disparadores de tramas discursivas que excedem, ampliam, tensionam visualidades e escritas formuladoras de multiplicidades experimentativas (MOSSI, OLIVEIRA, 2019). O que aqui se compartilha é um dos encontros produzidos, com a abordagem do livro Mil Platôs, vol. 3, dos autores Gilles Deleuze e Félix Guattari, e a exploração dos recortes dos platôs 6 (28 de novembro de 1947 – Como criar para si um corpo sem órgãos), 7 (Ano zero – Rostidade) e 8 (1874 – Três novelas ou “O que se passou?”). Fizemos vazar por linguagens visuais a configuração da necessidade de lidar com a materialidade exposta, provocados pela conversação e recortes conceituais do livro Mil Platôs. Um trato com os materiais que, em aberto, instalaram um modo de produzir novos corpos, rostos e desejos a partir, com, por entre, em meio, junto de imagens, conceitos, discursos. 

Como desarticular os estratos que nos enredam – organismo, significância e significação – e produzir um corpo sem órgãos? Não nos desfazemos deles, mas antes, desarranjamo-nos: é numa relação meticulosa com esses mesmos extratos, no agenciamento entre eles, que se consegue produzir linhas de fuga que possam dar conta de viver uma arte prudente da experimentação de si com o mundo, improvisando sempre novos modos de existir. Será um embate constante, confronto entre a produção de si mesmo e a imagem da representação que insiste em cristalizar nossas formas de pensar, ser e viver. 

São os atuais modos de vida capitalista – máquinas abstratas da rostidade que não tem rosto – que forçam e engendram signos, códigos, territórios, consciências, paixões, gravando em nós a configuração de um “rosto”, não próprio e singular, porém unificado universalmente. Por isso, perguntamos: de quais rostos você se compõem, passante? E sua política, sua produção social do corpo, o que você rejeita dos rostos não-conformados – gordos, tristes, negros, amarelos, de uma língua não standard e gaguejante – e que você (se) instala em rostidades outras. Como desfazer um rosto? Rosto de professor, de estudante, de escola, de universidade, de mulher, de homem, de criança? Como desterritorializar as linhas de um rosto se ele está entrando sempre em choque com a máquina binária (branco/negro, europeu/latino, homem/mulher, adulto/criança, rico/pobre)? Ora, antes de tudo: conheçam seus rostos. É preciso conhecer os rostos para desconfigurá-los, criando dentro daquilo que temos e somos. Potência de devires inumanos, imperceptíveis e inaudíveis, que, por entre as linhas de segmentaridade dura, e a partir das forças armazenadas nesse rosto, os traços de rostidade poderão ser liberados: “se o homem tem um destino, esse será mais o de escapar ao rosto, desfazer o rosto e as rostificações, tornar-se imperceptível, tornar-se clandestino, não por um retorno à animalidade, nem mesmo pelos retornos à cabeça, mas por devires-animais muito espirituais e muito especiais, por estranhos devires que certamente ultrapassarão o muro e sairão dos buracos negros […].” (DELEUZE; GUATTARI, 2004, p. 36). Novamente e sempre, por entre as linhas de desterritorialização que nos formam: crie e multiplique a prudência, pintando o mundo sobre si mesmo e encontrando a sua política, seus amores, sua ética.


FICHA TÉCNICA

Artista: Alice Dalmaso

Palestra-encontro, problematização sobre o livro Mil Platôs Vol. 3 de Deleuze e Guattari (2004), realizada em 24/09/2016 no Sábados com Deleuze.

Concepção e realização do encontro: Alice Dalmaso

Resumo: Alice Dalmaso e Marilda Oliveira de Oliveira

Participantes: 13 pesquisadores de diferentes áreas.

Local: Laboratório de Artes Visuais (LAV) – Centro de Educação (CE) – UFSM.

 

 

 

DALMASO, Alice; De um sábado qualquer. ClimaCom – A Linguagem da Contingência [online],  Campinas,  ano. 6n. 15. Ago2019 . Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/alice-dalmaso-de-um-sabado-qualquer-por-entre-imagens-e-textos-e-deleuze-e-3/


SEÇÃO ARTE | A LINGUAGEM DA CONTINGÊNCIA | Ano 6, n. 15, 2019

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