Karyne Coutinho | A vida de festejo com a morte: dramaturgia de um encontro em Pátzcuaro


Karyne Dias Coutinho[1]

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Fotos: Ilona Adamczyk[2]

Não existe nada de terrível na vida para quem está perfeitamente convencido de que não há nada de terrível em deixar de viver. (Epicuro)[3]

Quantos modos de surpreender tem a morte? Filosofar é aprender a morrer. (Montaigne)[4]

 

Final de outubro, início de novembro de 2018. Morélia, Michoacán, México. Estávamos justamente no meio de uma residência artística intitulada Juego ritual y ancestralidad, que teve como objetivo uma pesquisa sobre o día de muertos, ritual tradicional da cultura mexicana que acontece nas proximidades do dia dois de novembro, feriado de finados no Brasil. Composta por artistas e pesquisadores do Brasil, do México e do Chile, a residência durou doze dias, percorrendo três cidades mexicanas, com início em Cuernavaca/Morelos, passando por Pátzcuaro/Michoacán e finalizando em Oaxaca de Juárez/Oaxaca. Conectado à troca cultural e acadêmica entre artistas e pesquisadores latino-americanos interessados no tema da ancestralidade, nosso trabalho resultou na apresentação da performance ritualística Encuentros Ancestrales Cempasúchil[5].

Mas o que venho contar agora nada tem a ver com o espetáculo em si nem com seu processo de criação, que experimentamos nos intensos laboratórios cênicos desenvolvidos no decorrer da residência. O que consta nesse texto é uma estória que compus a partir da força do que vivemos em poucos dias em pueblos do estado de Michoacán/México; uma narrativa que, embora composta por elementos que de fato atravessaram nossa experiência juntos, passou ao largo do trabalho cênico realizado e em nada diz respeito a ele[6]. Ou talvez diga, ainda que indiretamente, já que a visita aos cemitérios das comunidades mexicanas era parte da nossa pesquisa artística sobre ancestralidade. Em todo caso, não é disso que este texto se ocupa. Trata-se aqui da construção de cinco personagens, apresentados ao final dessa narrativa, inspirados tão somente nos detalhes daquilo que mais singelamente se passou, aos meus sentidos, entre seis amigos em dois dias e três noites no interior mexicano: a dramaturgia de um encontro em Pátzcuaro[7].

Assim, os cinco personagens apresentados nas últimas páginas deste texto nada têm a ver com os motivos que nos levaram ao México: não compunham nossos planos de viagem nem de trabalho; não estavam no meu campo de expectativas ou possibilidades. Foram escritos de supetão, como passatempo de um trajeto entre cidades percorrido de ônibus. Ou seja: os personagens em questão neste texto não tiveram motivo de ser. Continuam não tendo. Não servem para nada. E, no entanto, aí estão, àquele modo de quase tudo o que inutilmente se escreve; uma escrita isenta de compromisso com a representação justa do que quer que seja; uma escrita inteiramente destituída de preocupação com a verdade científica, filosófica, artística ou qualquer outra. E embora as coisas inúteis que escrevo todos os dias não tenham nenhuma pretensão de ser literárias, ao escrevê-las me sinto muito próxima do que diz Eduardo Pellejero sobre o tipo de comprometimento da literatura com o real: trata-se de “colocar entre parênteses qualquer ideia preconcebida do que o real é, qualquer forma que se apresente como adequada para a sua representação”[8]. Sintonizada com essas palavras, cujo sentimento me atravessa muito antes de lê-las, eis neste texto apenas uma breve passagem desses escritos diários desprovidos de serventia: são eles que — sob o fundo de todas as coisas, e na sua total independência a qualquer forma corretamente ajustada de conhecimento humano — dão sentido a tudo o que de fato eu sinto me acontecer na vida.

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Pois nada mais somos do que a folha e a casca.

A grande morte que cada um carrega em si.

É o fruto em torno do qual tudo muda[9].

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Quarta-feira, 31 de outubro de 2018. Ali, éramos seis: um chileno, dois mexicanos, dois brasileiros e uma polonesa (os outros só se juntaram a nós depois). Chegamos às dez da noite na rodoviária de Morélia, capital do estado de Michoacán, e fomos recepcionados por X., que nos aguardava com sua van. Descemos no centro de Pátzcuaro para jantar: havia muito frio e comida típica; enquanto meus ombros se encolhiam pela temperatura, meu estômago fervia com tanta pimenta. Mais trinta minutos até San Rafael, interior de Pátzcuaro, onde dormiremos esses dias. N. foi cantando por quase todo o trajeto, fico impressionada com a energia que ele tem, parece uma criança travessa, incansável, com disposição e curiosidade incessantes; claro que tamanho ânimo não deixa também de ter efeitos um tanto cansativos aos demais: quando N. não está concentrado na tela de seu celular, quer a atenção do grupo toda para si; seja como for, agradeço imensamente por suas boas vibrações, caso contrário receio que eu me transformasse na companhia mais rabugenta do mundo, tamanha era minha vontade de banho e cama quentes.

A cabana é linda, grande, dois andares, com lareira na sala, banheiros imensos, e está situada num lugar maravilhoso, repleto de árvores, flores, piscina natural e queda d’água. Só não é melhor por causa da quantidade de degraus que se tem que subir para chegar até ela; estaria tudo bem não fosse meu estado febril e alérgico que tem me causado um cansaço sem fim. Sorte minha que N. foi generoso o suficiente para subir a bagagem nos três andares de escadas no apartamento de J. em Cuernavaca, e agora foi X. quem prontamente carregou o peso da minha mala por todos os degraus até a cabana. Na verdade, detesto esses rituais de marcação de gênero, mas confesso que eles me têm sido extremamente úteis durante a gripe que se grudou em mim de uma maneira tão pegajosa como nunca antes. Sei que os medicamentos contra a febre causam fadiga e sonolência. E não gosto de pensar na doença como metáfora. Mas sinto que essa infecção das vias respiratórias pode representar, no meu caso, mais do que uma condição física; é possível que ela faça parte do modo educado como aprendi a estabelecer certas relações, então preciso escutar o que essa infecção tem a me dizer, aprender com a sua comunicação até que ela possa se aquietar. C. e eu ficamos com o maior quarto da cabana, uma suíte imensa com uma vista maravilhosa para a cachoeira. Tenho vontade de me deitar ali e dormir até o fim do mundo.

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Quinta-feira, 1 de novembro de 2018. X. nos levou a um desayuno típico do interior mexicano, com omelete de cogumelos e café de olla, mesclado a muita canela, anis estrelado e casca de laranja, e acompanhado, claro, de tortillas. Em seguida saímos a caminhar pelos pueblos. J. e A. parecem dois pássaros grudados a voarem juntos e vão sempre à nossa frente abrindo caminhos no ar.

Hoje visitamos os cemitérios de quatro comunidades e fomos de barco à exótica Ilha de Janitzio, que fica no meio do Lago Pátzcuaro, e é lindamente iluminada com velas. A chuva não nos deu trégua e, apesar da umidade que só piora o meu estado de saúde, parece que o lugar ficou ainda mais encantador no cenário nublado e repleto de sombrinhas e pessoas buscando as marquises de lona das tendas de artesanato. Subimos e subimos, porque o que não faltam lá são degraus por onde vamos desbravando o morro da ilha em círculos até chegarmos ao ponto mais alto onde está a estátua de Morelos, o famoso herói da independência mexicana.

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Nas comunidades que visitamos, o mais interessante é o modo cuidadoso e singular como as pessoas envolvem a família toda para enfeitar as tumbas dos seus entes com velas, flores, bandeiras, preparando os cemitérios para a festa da noite de dois de novembro. Na tarde daquele feriado, as crianças brincam e correm entre os túmulos; as mais crescidas ajudam a carregar os carrinhos com água, frutas e pães de todo tipo; suas risadas, o modo eufórico como vibram, a intensidade de seus moveres, seu alvoroço e entusiasmo com a tarefa nos dão a ver a beleza da vida na celebração da morte. Há uma alegria ímpar naquele ritual de preparação do cemitério, que funciona como um poderoso espaço de socialização das famílias tanto entre seus membros quanto umas com as outras.

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A. e eu ficamos por um longo tempo em silêncio contemplando um campo gigante de girassóis mexicanos, que foi uma das coisas mais lindas que já vi, e que ocupava um vasto terreno ao lado de um mausoléu, bem na entrada de um dos pequenos pueblos.

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Das muitas coisas que fizemos e vimos hoje, o mais impressionante foi sem dúvida a visita ao cemitério de Tzintzuntzan, ao qual chegamos à meia noite. Havia certo tumulto de pessoas na porta do cemitério porque de fato é uma quantidade muito grande de visitantes. Logo na entrada, uma banda ao redor de uma tumba, com sete músicos usando calça e camisa brancas e o típico chapéu mexicano, tocando sax e outros instrumentos de sopro, corda e percussão. É impressionante a harmonia de tudo o que se presencia lá: o impacto de tantas melodias, cores e flores, que embalam, enfeitam e perfumam a madrugada.

As covas são no chão, feitas na terra preta e úmida, não há azulejos nem outros materiais de construção. Sobre elas, altares montados pelas famílias que compõem o lugar com uma infinidade de cempasúchil amarelo ouro, velas, fotografias, adornos festivos, comidas e bebidas que seus entes gostavam, para dar as boas vindas àqueles que voltam da morte e que são o motivo da vivacidade daquele evento. Sentadas em cadeiras ao redor das sepulturas, as famílias dos mortos rezam; algumas cantam, dançam, comem e bebem; e há quem até durma por lá.

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Para nos cercarmos um pouco mais dos sentidos do evento, conversamos com uma família que homenageava um senhor falecido há sete anos. Estavam ali uma matriarca, com seu filho, sua nora e seu casal de netos adolescentes. O morto era marido dessa senhora. Apresentamo-nos muito respeitosamente e perguntamos se podiam nos ensinar um pouco sobre o que faziam ali. Em tom baixo e doce porém firme, o filho do morto falou que se trata de uma tradição mexicana muito antiga, passada de geração a geração, que consiste num sistema de crenças segundo o qual o ente falecido vem visitar sua família uma vez por ano: se morreu criança, vem no dia primeiro; se morreu adulto, vem em dois de novembro. Após desfrutarem daqueles momentos juntos, o morto regressa ao mundo das almas onde passou a viver desde sua morte.

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E isso me fez lembrar o Sr. Z., um mexicano de quase setenta anos de idade, alegre, divertido, comunicativo e faceiro. Certo dia passamos uma tarde inteira na sua casa, em Cuernavaca, para conhecer a homenagem que ele faz à sua finada mãe Dona S., que morreu há mais de trinta anos. Era parte da nossa pesquisa cênica sobre a morte. Em plena sala de estar, um belíssimo altar (anualmente montado) com frutas, pães, velas, flores e muitos outros adornos que a identificavam como viva nesse mundo: algumas de suas roupas, sapatos, perfumes, bijuterias e outros acessórios. Em meio a uma afetuosa recepção, com direito à dança e cantoria no jardim, o Sr. Z. nos explicou que a tradição pode mudar segundo os diferentes pueblos mexicanos, mas a essência — que consiste na ideia de que os mortos vivem em outro lugar — é a mesma. As pessoas do pueblo onde o Sr. Z. nasceu acreditam que os mortos visitam suas famílias por volta de dez dias antes de dois de novembro, por isso as casas devem estar preparadas para recebê-los, com as comidas e as bebidas de que gostavam e adereços que lhe pertenciam. Em dois de novembro, os mortos finalizam sua breve visita anual ao mundo dos vivos e vão até o cemitério para dali retornarem à sua morada espiritual. De acordo com o Sr. Z., é por isso que se faz uma grande festa no cemitério naquela noite, como forma de os vivos acompanharem os mortos ao seu local de regresso, para se despedirem com alegria, festejos e orações, até o ano seguinte em que poderão se reencontrar.

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Chegamos em San Rafael já mais de três horas da madrugada, faz um frio monumental, e tivemos que encontrar algum mercado aberto porque surpreendentemente N. está irritado e não adormece sem beber sua garrafa de leite… Essa noite vamos dormir no pequeno chalé com cheiro abafado de mofo ao lado da grande cabana, porque ela já estava reservada para um grupo de franceses, em função do qual X. se atrasou para nos buscar e tivemos que caminhar quatro quilômetros na madrugada em meio à fila literalmente quilométrica de carros que tentavam acessar o cemitério. Agora entendo perfeitamente o ditado popular que diz “morro e não vejo tudo”.

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Sexta-feira, 2 de novembro de 2018. Passamos o día de muertos no centro histórico de Pátzcuaro, repleto de altares na praça central, muitas barracas de artesanato, comida típica, e palco com danças e músicas mexicanas. Caminhamos devagar por toda a tarde, curtindo em bando os encantos da cidade. Havia uma tranquilidade e uma paz admiráveis. I. fotografou o dia todo, e seguiu tímida a cada vez que lhe pedíamos para nos ensinar palavras em sua língua materna: segundo ela, para fazer jus à sua formação em artes visuais, prefere sempre a linguagem das imagens ao cansativo polonês. C. fez suas duas maquiagens de calavera, que ele tanto queria, e rimos muito com isso. J. e eu conversamos desde a manhã sobre trajetórias de vida. A. e N. permaneciam sorridentes e festivos. Estávamos todos estranhamente serenos e risonhos, calmos e divertidos. Almoçamos numa barraca de rua. Conhecemos a Casa dos Onze Pátios. Tomamos café de olla de tarde. Comprei mel puro no caminho. Finalizamos o dia num restaurante típico com X., que nos trouxe à San Rafael por volta das nove da noite. N. e I. foram com X. para Morélia, querem aproveitar a noite da capital e vão dormir na outra casa que X. tem lá. Estamos agora mesmo J., A., C. e eu desfrutando do calor da lareira na sala da agradável cabana para onde retornamos essa noite. Há uma paz, provisória, nesta casa.

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Sábado, 3 de novembro de 2018. Deixamos Morélia, capital de Michoacán, às 9h. Um dia inteiro de viagem de ônibus até chegarmos em Oaxaca. No meio do caminho nos despedimos de I., que foi uma grande e grata companhia, é uma mulher interessante, densa e alegre ao mesmo tempo, disponível e misteriosa, expressiva e tímida, mas sobretudo autêntica. Na rodoviária da Ciudad de México, onde nos separamos, pedi a ela que enfrentasse o mal jeito e nos brindasse com frases de despedida em sua língua. Ela nos juntou a todos numa roda fechada por um abraço coletivo e dali de dentro se pôs a falar em polonês, breve, mas com um ritmo e um som encantadores. Já no ônibus de novo, aproveitei a energia do momento para ensaiar uma possibilidade de dramaturgia daquele potente encontro de três noites e dois dias em Michoacán: vivemos ali cinco personagens, inseparáveis de seus instrumentos que funcionavam como objetos mágicos de poder.

1) Los pájaros — são dois, que formam um casal; cada um deles carrega nas costas uma das asas, que são seus objetos mágicos de poder; como pássaros, só conseguem se realizar na vida voando, mas um precisa do outro para que isso aconteça por inteiro, porque não se voa batendo uma asa só. A questão é que eles são dois e não um só; eis assim o duplo desafio de los pájaros: aprender a voarem juntos sem se suprimirem mutuamente, e perceber que isso é um exercício diário. Praticando o voo juntos, los pájaros aprendem que o amor não é, mas está sendo a cada vez. Aprendem a se amar e cultivam esse sentimento permanentemente, como um trabalho sobre si, exercitando aquele estado ímpar que só o amor permite: ter plena alegria em contemplar o ser amado naquilo pelo quê de fato é amado: sua maneira distinta, e no limite até oposta, com que vive, age e sente. É uma tal disposição que lhe possibilita emergir como energia ingovernável, revelando o seu inigualável poder: no mundo em que a gente vive, talvez não haja nada mais difícil e também nada mais invencível do que o amor que los pájaros nutrem.

2) La enferma — o conjunto dos medicamentos que carrega é seu objeto mágico de poder. As enfermidades do corpo e da alma fazem parte da vida, e todo o desafio dessa personagem é aprender a conviver com isso, aprender a impossibilidade de se extirpar a dor da vida, entender que o sofrimento faz parte e que é preciso acolhê-lo e escutá-lo, dar-lhe liberdade para vir, para ficar o tempo necessário e para partir somente depois que ele disser tudo o que precisa dizer. O desafio de la enferma é aprender que, enquanto o sofrimento está lhe visitando, não será possível imobilizar a vida: é preciso continuar vivendo tudo, e vivendo bem, mesmo na companhia da dor; e saber que, quando a dor se for, sua partida é temporária e provisória; ela voltará, com diferentes vestes, em diferentes épocas, com diferentes tons, mas voltará, porque ela é parte integrante da vida e a pretensão de exterminá-la de uma vez por todas é algo equivalente a um suicídio. É preciso, portanto, aprender a habitar o sofrimento; manter-se firme no padecer, com honestidade e sem dramas, para ser digna de tudo o que lhe acontece.

3) El bebé — a garrafa de leite é seu objeto mágico de poder. O bebê é alegre, curioso, faceiro, descobridor, espontâneo, ingênuo e imaturo. Vê tudo pela primeira vez, quer atenção o tempo inteiro, canta sem parar e todos aplaudem os seus pequenos feitos. É destemido e não se preocupa com o que os outros vão pensar. Tudo pergunta e não raro é um tanto encantadoramente egoísta e ciumento. É sempre o primeiro a tomar banho, comunica aos outros quando tem fome e não fica sem o seu leite. O desafio de el bebé é sensibilizar para a beleza dos começos. O bebê se joga na existência: ele tem o mundo todo para si, a vida toda pela frente, e muitas perspectivas de sucesso. Ele é o nascimento e representa o início, a chegada, a abertura de possibilidades, em qualquer idade que se tenha.

4) La calavera — sua maquiagem é seu objeto mágico de poder. A caveira é pálida e misteriosa, por vezes assustadora, e não há quem queira de fato se aproximar muito dela, mas o que ela representa é condição fundamental para o exercício da humanidade de cada um de nós. Quando nos damos conta de que algum dia vamos morrer, passamos enfim a ter consciência de nossa própria condição humana. Portanto, a morte não é somente nosso destino, como seres finitos: é também nossa origem, como seres humanos; assim, o início e o fim não constituem dualidades. E se a vida vive sempre às expensas de outra vida, ou seja, se para nos mantermos vivos dependemos de outras vidas, então nossa vida é uma morte perpétua. O desafio de la calavera é pôr em causa o sentido da nossa existência, e nos questionar sobre o que significa estarmos vivos. Ela põe o ser diante de si mesmo e lhe provoca a pensar sobre o que ele está fazendo nesse mundo: Por que você faz as coisas que faz? Por que você pensa as coisas que pensa? Por que você vive a vida que vive?

5) La extranjera — sua língua materna é seu objeto mágico de poder. O desafio de la extranjera é despedir-se do logocentrismo e aprender que ele não passa de uma limitada ficção ocidental que busca a impossível presença biunívoca entre as palavras e as coisas. Ao tentar se comunicar em sua língua materna em terras estrangeiras, essa personagem mostra a todos o sem sentido da linguagem e dá adeus à sua primazia… é assim que sabiamente ela abandona a tentação de ter algo a dizer de modo acabado, e percebe a impossibilidade de atribuir a cada palavra um sentido terminal. La extranjera incita os seres a se livrarem da soberba pretensão de subjugar, capturar e dominar o sentido das coisas, e ensina que não se consegue falar de modo a dizer tudo. Com essa personagem, pode-se aprender que a linguagem é ambivalente e sempre insuficiente; que não há discurso completo, e que não é senão por medo do acaso que tentamos em vão exterminar a contingência através de códigos linguísticos ingenuamente entendidos como um meio, como uma correia, como uma esteira que seria capaz de transportar uma suposta transparência do ser… Mas o fato é que não apenas somos estrangeiros uns em relação aos outros, como também somos estrangeiros de nós mesmos, na medida em que eu sou apenas em atravessamentos do que os outros são. Somos uma imanência, um plano oblíquo de cruzamentos, personagens de personagens. Minha pele (entendida como um envelope que deixa entrar e que guarda) tem zonas de linguagem. Não é que a linguagem seja uma estrutura objetiva; não é que a linguagem produza o outro; mas a linguagem é um sistema tecnológico no interior do qual cada um de nós produz a si mesmo. E é por isso que la extranjera é a personagem mestra na trama da vida porque escapa à lógica da dualidade e atravessa todos os outros personagens de modo inteiramente ambivalente. Se os outros quatro personagens podem ser associados em duplas, como se fossem duas faces de uma mesma moeda — los pájaros e la enferma representam a face conjunta do amor e da dor; el bebé e la calavera representam a face conjunta do nascimento e da morte —, la extranjera atravessa a todos sem par, porque seu objeto mágico de poder está fora de qualquer sistema dual. Ela é a lateral da moeda, o círculo que lhe envolve e lhe constitui, e que fica no meio de suas duas faces, nos lembrando que na vida estamos sempre no meio, já que num círculo o fim e o começo inevitavelmente se encontram. Ao buscar uma lógica do sentido, la extranjera se depara com — e evidencia para todos — o caráter incapturável da linguagem; e é assim que aprende e ensina a amar o insignificante, a amar o inominável daquilo que transborda, ultrapassa e excede as pessoas…

A trama da vida está tecida. Esses cinco personagens não passam de cinco facetas da vida humana que, juntas, compõem tudo o que de mais íntimo lhe diz respeito: o amor, a dor, o nascimento, a morte e o sentido da existência. Essa dramaturgia foi produzida no período entre 31 de outubro e 3 de novembro de 2018, na potência de um encontro entre amigos no interior do estado de Michoacán, México, numa viagem em que viveram o dia dos mortos tentando fazer da vida uma obra de arte.

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Recebido em: 30/06/2019

Aceito em: 30/07/2019


[1] Karyne Dias Coutinho é Doutora em Educação (UFRGS), com Pós-Doutorado em Artes (UNESP). Professora dos Programas de Pós-Graduação em Artes Cênicas e em Educação (UFRN). Coordenadora do Grupo de Pesquisa Poéticas do Aprender. Viajante. Observadora de si e do mundo. Escreve todos os dias coisas que não servem para nada. E-mail: kdiascoutinho@gmail.com.

[2] Ilona Katarzyna Adamczyk é Licenciada em Turismo (Adam Mickiewicz University, Polônia), Diplomada em Fotografia (Escuela Activa de Fotografía, México) e Licencianda em Artes Visuais (Centro Morelense de las Artes, México). Fotógrafa profissional em Cuernavaca, México. E-mail: ilonaadamczyk64@gmail.com.

[3] EPICURO. Carta a Meneceu (Sobre a felicidade). Lisboa, Portugal: Relógio D`água, 2008 (p. 17).

[4] MONTAIGNE, Michel de. Ensaios [1595]. São Paulo: Companhia das Letras, 2010 (p. 51).

[5] Cempasúchil é como se chama a flor laranja usada na celebração do día de muertos. Na tradição mexicana, diz-se que ela cria uma ponte entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos e, por isso, casas e cemitérios ficam exuberantemente adornados com essa flor no período do referido ritual.

[6] O resultado do trabalho cênico da residência artística a que me refiro sairá brevemente publicado em dois textos: COUTINHO, Karyne Dias. Poéticas del Aprender en el Teatro Ritual: de la improvisación a la pedagogía de si. Revista Artis, Revista Cultural de la Universidad Veracruzana, Xalapa, Vera Cruz, México. n. 4, p. 1-12, out./dez. 2019 (aceito para publicação, no prelo); e COUTINHO, Karyne Dias; HADERCHPEK, Robson. Pedagogia de si: poética do aprender no teatro ritual. Art Research Journal, Dossiê: Perspectivas Multidisciplinares no Campo da Arte, v. 6, n. 2, p. 1-25, 2019 (no prelo).

[7] Proposta por Robson Haderchpek em sua pesquisa de pós-doutorado na Universidade de Música e Artes Cênicas de Viena, Áustria (2014-2015), a dramaturgia dos encontros é uma metodologia de trabalho cênico característica do jogo ritual, a partir da qual a estória a ser contada numa performance emerge das práticas de improvisação desenvolvidas nos laboratórios de criação. É assim que, ao invés de já ter um conteúdo que antecederia a prática, a narrativa dramatúrgica vai, ao contrário, sendo escrita pelos próprios corpos em movimento, a partir das relações que estabelecem entre si. Nesse sentido, a dramaturgia emerge sempre como resultado dos encontros, o que inverte o trabalho com os personagens: ao invés de os laboratórios consistirem em experimentações (nos corpos dos performers) de personagens que já estariam escritos antecipadamente, são os próprios personagens que, de modo inverso, nascem da experimentação dos corpos, em sua forma tanto física quanto escrita. Para saber mais sobre essa proposta dramatúrgica, pode-se consultar:  HADERCHPEK, Robson. A Dramaturgia dos encontros e o jogo ritual: Revoada e a conferência dos pássaros. Revista Encontro Teatro. Goiânia: Grupo Sonhus Teatro Ritual, n. 3, jul. 2016, p. 38-58.

[8] PELLEJERO, Eduardo. “Morder o real”: o engajamento antes da sua representação. O que nos faz pensar, Rio de Janeiro, v.26, n.40, p.223-236, jan.-jun. 2017 (p.228).

[9] Rainer Maria Rilke apud BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Rio de Janeiro: Rocco, 2011 (p. 132).

 

 

A vida de festejo com a morte: dramaturgia de um encontro em Pátzcuaro

RESUMO: Este texto coincidiu com uma residência artística composta por performers e pesquisadores latino-americanos, mas sua escrita não compunha os planos de trabalho da equipe: trata-se tão somente de registros de um diário desprovido de serventia, àquele modo de quase tudo o que inutilmente se escreve; uma escrita isenta de compromisso com a representação justa do que quer que seja, inteiramente destituída de preocupação com a verdade científica, filosófica, artística ou com qualquer outra forma corretamente ajustada de conhecimento humano, e por isso mesmo uma escrita muito mais sintonizada com a contingência do real. Assim, despreocupado com as linguagens dos saberes e dos poderes que envolveram o contexto de sua emergência, este texto narra a experiência vivida por seis amigos em dois dias e três noites no interior do estado de Michoacán, México, para onde foram a fim de conhecer o típico ritual mexicano do día de muertos. Inesperadamente, a experiência da escrita culminou na construção de cinco personagens entendidos como facetas da vida humana cuja combinação compõe tudo o que de mais íntimo lhe diz respeito. Trata-se da dramaturgia de um encontro a partir do qual o tema da morte colocou a vida no centro do palco.

PALAVRAS-CHAVE: Escrita de Diário. Linguagem da Contingência. Dramaturgia dos Encontros.


 

La vida de festejo con la muerte: dramaturgia de un encuentro en Pátzcuaro

RESUMEN: Este texto coincidió con una residencia artística compuesta por performers e investigadores latino-americanos, pero su escritura no formaba parte de los planos de trabajo del equipo: se trata solamente de registros de un diario desprovisto de utilidad, aquel modo de casi todo lo que inútilmente se escribe; una escritura exenta de compromiso con la representación justa de lo que quiera que sea, enteramente destituida de preocupación con la verdad científica, filosófica, artística, o con cualquier otra forma correctamente ajustada de conocimiento humano, y por eso mismo una escritura mucho más sintonizada con la contingencia de lo real. Así, despreocupado con los lenguajes de los saberes y los poderes que envolvieron el contexto de su emergencia, este texto narra la experiencia vivida por seis amigos en dos días y tres noches en el interior del estado de Michoacán, México, donde fueron con el fin de conocer el típico ritual mexicano del día de muertos. Inesperadamente, la experiencia de la escritura culminó en la construcción de cinco personajes entendidos como facetas de la vida humana cuya combinación compone todo lo que de más íntimo le dice respeto. Se trata de la dramaturgia de un encuentro a partir del cual el tema de la muerte colocó a la vida en el centro del escenario.

Palabra clave: escritura de diario, lenguaje de la contingencia, dramaturgia de los encuentros.

 


COUTINHO, Karyne Dias. A vida de festejo com a morte: dramaturgia de um encontro em Pátzcuaro. ClimaCom – A Linguagem da Contingência [Online], Campinas, ano 6,  n. 15,  ago.  2019 . Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/a-vida-de-festejo-com-a-morte-dramaturgia-de-um-encontro-em-patzcuaro/