A potência do método de perguntas e respostas em Pina Bausch: deslocamentos em educação | Fernanda Monteiro Rigue e Ana Paula Parise Malavolta


Fernanda Monteiro Rigue [1]

Ana Paula Parise Malavolta [2]

ABERTURA

A vida de quem trilha, andarilha vivências em educação, por vezes é palco por onde passam forças, microlinhas que tocam, aproximam-se. Pequenos fios que chegam até nossas superfícies, contribuindo para que coisas aconteçam, passem a acontecer. Acontecimentos que se efetuam e instalam-se atingindo nossos corpos, sentidos, errâncias, composições. A educação como acontecimento do mundo nos apresenta uma diversidade de vivências que vamos costurando com os mais diversos fios e elementos que selecionamos a partir das experimentações que extraímos da/na/com a vida.

Em todo acontecimento, há de fato o momento presente da efetuação, aquele em que o acontecimento se encarna em um estado de coisas, um indivíduo, uma pessoa, aquele que é designado quando se diz: pronto, chegou a hora; e o futuro e o passado do acontecimento só são julgados em função desse presente definitivo, do ponto de vista daquele que o encarna. Mas há, por outro lado, o futuro e o passado do acontecimento tomado em si mesmo, que esquiva todo presente porque está livre das limitações de um estado de coisas, sendo impessoal e préindividual, neutro, nem geral nem particular, eventum tantum…; ou antes que não tem outro presente senão o do instante móvel que o representa, sempre desdobrado em passado-futuro, formando o que convém chamar de contra-efetuação. Em um dos casos, é minha vida que me parece frágil demais para mim, que escapa num ponto tornado presente numa relação determinável comigo. No outro caso, sou eu que sou fraco demais para a vida, a vida é grande demais para mim, lançando por toda a parte suas singularidades, sem relação comigo nem com um momento determinável como presente, salvo com o instante impessoal que se desdobra em ainda-futuro e já-passado (DELEUZE, 2000, p. 177-178). 

A seleção do mundo, a criação de coerência pela assimilação-eliminação cria modos de relação específicos, singulares em sua configuração. Modos os quais se perpetuam no tempo em um contágio de si que forma uma série de variações: contágio de si para si que produz um “si outro”. Neste modo de variar a si em outro, os modos forjam um estilo entre a diferença e a repetição: uma cadeia contingente de acontecimentos a formar uma complexa trama que dá corpo ao que denominamos mundo.

É sobre um acontecimento da vida/mundo que o presente estudo se debruça. Uma oficina intitulada “Experimentação corporal” que foi realizada em meados de 2019, como parte integrante da programação de uma semana acadêmica em alusão a Luta Antimanicomial promovida pelo curso superior de Psicologia de uma instituição privada, situada na região sul do Brasil. 

De modo ensaístico, como “uma figura do caminho da exploração, do caminho que se abre ao tempo em que se caminha” (LARROSA, 2003, p. 112), nos colocamos em um movimento de atentar para essa experimentação pela via das microlinhas que dizem das sensações, marcas, pulsões ativas que foram possíveis de serem acessadas por um experimentar. Composição que foi habitar particular e coabitar coletivamente essa oficina. Uma potência de um devir:

Em outras palavras, a ideia de ‘devir’ está ligada à possibilidade ou não de um processo se singularizar. Singularidades femininas, poéticas, homossexuais ou negras podem entrar em ruptura com as estratificações dominantes. Esta é a mola-mestre da problemática das minorias: uma problemática da multiplicidade e da pluralidade e não uma questão de identidade cultural, de retorno ao idêntico, de retorno ao arcaico (GUATTARI; ROLNIK, 2008, p. 86).

De um devir-criança, pela via de uma atenção para o que se passou, estabeleceu, pulverizou no/com/sob o corpo. 

Se por um lado enfrentamos esse cenário que vigora pelo esclarecimento, que prima por seu potencial concentrado no pensamento racional das ideias, numa educação pela representação, pela certeza e clarificação das significâncias, por outro, podemos experimentar as singularidades, essa potencialidade de abrir espaços para o que de fato somos e se abrir para uma educação das expressões dos diferentes modos de vida (GUARIENTI, 2018, p. 117). 

O devir-criança, neste contexto, nos mostrou que é singular das crianças a invenção e a criatividade ou a facilidade de enveredar pelos distintos e insólitos universos sensíveis e inventivos. 

Um devir-criança da criança que escapa às categorias que tentam enquadrar, como, por exemplo, a de gêneros, e se quer livres de nominações substanciais em relação ao seu devir, pura força em devir-criança, aclassificável, um ser cambiante, transmutável, capaz de atravessar as formas materiais que o corpo físico o aprisiona e desejar o corpo que lhe caiba pela sensação em devir-outro (GUARIENTI, 2018, p. 120).

O imaginário-criança é o das afecções sensíveis, dos acoplamentos cognitivos, da invenção de linguagens para descobertas vividas. Um imaginário-criança não busca o verdadeiro, pois experimenta, inventa e seleciona. Não analisa no duplo lógica-racionalidade, mas afeta e deixa-se afetar. Não se prende a identidades e limites, embarca na expansão, extrai do mundo suas modulações e forças (CECCIM; PALOMBINI, 2009). Deix(ar) fluir.

Com efeito, buscamos nesta escrita lançar alguns estratos e possibilidades dimensionadas pela experiência oficineira vivenciada, na perspectiva de costurarmos caminhos possíveis para compor pensamentos que se tramam com o corpo, devir-criança e seus elementos de aventura e criação (Leia o artigo completo em PDF).

 

Recebido em: 30/06/2020

Aceito em: 30/07/2020

 

 

[1]  Doutora (2020) e Mestra (2017) em Educação pelo Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Maria. Licenciada em Química (2015) pelo Instituto Federal Farroupilha – Campus São Vicente do Sul. E-mail: fernanda_rigue@hotmail.com.

[2] Doutora (2020) em Educação pelo Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Maria. Mestra (2017) em Artes Visuais pelo Programa de Pós Graduação em Artes Visuais da Universidade Federal de Santa Maria. Psicóloga (2015) pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões URI – Campus Santiago. E-mail: anamalavolta@gmail.com.

A potência do método de perguntas e respostas em Pina Bausch: deslocamentos em educação

 

RESUMO: O presente manuscrito se trata de um ensaio (LARROSA, 2003) que trama a composição da oficina “Experimentação corporal” a partir do método de perguntas e respostas de Pina Bausch. Lança alguns estratos e possibilidades dimensionadas pela experiência oficineira com a ampliação da compreensão do corpo em educação. Devir-criança, aventura e criação são transversalidades habitadas enquanto percebemos a potência da força da vida e do pensamento como afirmação da existência em processos educativos, experimentando esse corpo que habita o acaso, singulariza, deseja e desloca-se em educação.

PALAVRAS-CHAVE: Educação. Oficina. Corpo.

 


A question and answer method in Pina Bausch: displacements in education

 

ABSTRACT: This manuscript present is an essay (LARROSA, 2003) that outlines the composition of the workshop ‘Body experimentation’ using the question and answer method of Pina Bausch. It introduces some strata and possibilities dimensioned by the workshop experience with the expansion of the understanding of the body in education. Child-becoming, adventure and creation are inhabited transversalities while we perceive the power of life force and thought as an affirmation of existence in educational processes, experiencing this body that inhabits chance, singularizes, desires and moves in education.

KEYWORDS: Education. Workshop. Body.

 

 


RIGUE, Fernanda Monteiro; MALAVOLTA, Ana Paula Parise. A potência do método de perguntas e respostas em Pina Bausch: deslocamentos em educação. ClimaCom – Devir Criança [Online], Campinas, ano 7,  n. 18,  Set.  2020. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/a-potencia-do-metodo-de-perguntas-e-respostas-em-pina-bausch-deslocamentos-em-educacao-fernanda-monteiro-rigue-e-ana-paula-parise-malavolta