A animalidade que habita a escola: artes visuais, alteridade e educação | Tathiana Jaeger de Morais



Tathiana Jaeger de Morai
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[1]

Entre nós e entre outros: alteridade, animalidade e educação

 

Segundo Skliar (2014, p. 119) educar é ter espaço e tempo para estarmos juntos, fazermos coisas juntos, entre nós e entre outros. Para o autor, educar não é somente sentir e pensar sobre si mesmo, mas é também mobilizar outras formas possíveis de viver e conviver consigo mesmo e com qualquer outro que habite o ambiente escolar e o mundo. Vista assim, a educação assume uma responsabilidade ética naquilo que acontece entre um e o outro. Mas quem é o outro? Entendemos o outro, neste artigo, como um animal humano ou não humano, assim, não se traça uma linha divisória entre espécies, ou formas de vida diferentes, antes se aceita a alteridade desses outros, enquanto sujeitos com uma visão de mundo, cultura e sociedade própria. 

 

Porém, a herança de um modelo educativo moderno antropocêntrico, que nos leva a privilegiar um certo humano ideal acima de outras vidas, o pensamento racional acima do sensível e a normalidade que busca a semelhança em oposição à diferença, ainda permeia a escola e nossas práticas pedagógicas. Essa herança perpetua outro modo de relação com outros, em que esses seres não têm a permissão de se constituírem como alteridades, pois o outro é entendido como um mesmo, como um próximo ao eu, que pode ser compreendido e assimilado. Esses outros resistem e escapam às normas e domesticações escolares, eles quebram com uma suposta linearidade, com um tempo de produção e urgências, eles quebram com a suposta totalidade de um humano ideal. Esse modelo de humano ideal apto para entrar no conjunto da humanidade foi pensado, por certas visões teológicas e filosóficas antropocêntricas, como um ser de existência singular, uno e soberano às outras formas de vida, quando consegue cortar a ligação com o animal e domar a enigmática e assustadora animalidade que o habita, num movimento de transcendência, oposição e negação. Foi nessa separação, do Homo sapiens de todo o restante do reino animal, que surgiu o que entendemos hoje como humanos. 

 

(Leia o artigo completo em PDF).

 

Recebido em: 20/03/2021

Aceito em: 15/04/2021

 

[1]  Mestre em Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Professora de Artes Visuais concursada na Rede Municipal de Ensino de Porto Alegre, Rio Grande do Sul – Brasil. E-mail: tathij@gmail.com

A animalidade que habita a escola: artes visuais, alteridade e educação

 

RESUMO: Este artigo apresenta relações entre artes visuais e animalidade como potência para pensarmos outras relações de alteridade na escola, a partir de um diálogo entre o campo da arte e suas provocações ético-estéticas que desacomodam certas verdades sobre como relacionamo-nos com os outros, animais humanos ou não, e a noção de experiências de animalidade, experiências de alteridade em algumas memórias da animalidade que habita a escola, bem como da presença real dos animais nesse espaço, aliadas ao pensamento de Carlos Skliar, Nadja Hermann e Luciana Gruppelli Loponte. Esses exercícios, entrelaçados ao campo das artes visuais, são entendidos como operações pedagógicas de resistência, de criação poética e estética na escola, que buscam outras formas de pensar nossa animalidade e a convivência com os outros enquanto alteridades radicais, independentemente de sua forma, gênero, espécie e raça, bem como nos provocam a usar de outros modos a razão, a linguagem e nossa sensibilidade. Nesse percurso, tentaremos mostrar como se criam laços entre as fronteiras do ser humano e animal, do eu e do outro, laços que subvertem e resistem a certas normas pedagógicas, ligadas a uma visão humanista antropocêntrica e cartesiana. 

 

PALAVRAS-CHAVE: Alteridade. Animalidade. Artes Visuais e Educação. 

 


The animality that inhabit the school: visual arts, alterity and education

 

ABSTRACT: This article presents the relations between visual arts and animality as a potency to think other relations of alterity in education, based on a dialogue between the field of art and its ethical-aesthetic provocations that stir certain truths about how we relate to others, human animals or not, and the notion of experiences of animality, experiences of alterity in some memories of animality that inhabit the school, as well as the real presence of animals in this area, allied to the thought of Carlos Skliar, Nadja Hermann and Luciana Gruppelli Loponte. These exercises, interwoven with the field of visual arts, are acknowledged as pedagogical operations of resistance, of poetic and aesthetic creation at school, which seek other ways of thinking our animality and the coexistence with others as radical alterities, regardless of their form, gender, species and race, as well as provoke us to use reason, language and our sensibility in other ways. Along the way, we will try to show how connections are created between the limits of human and animal, of the self and the other, links that subvert and resist certain pedagogical norms, linked to an anthropocentric and cartesian humanist vision.

 

KEYWORDS: Alterity. Animality. Visual arts and Education.

 


MORAIS, Tathiana Jaeger de. A animalidade que habita na escola: artes visuais, alteridade e educação. ClimaCom – Coexistências e cocriações [online], Campinas,  ano 8, n. 20. abril 2021. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/a-animalidade/