ANO 05 - N12 - "Dialogos do Antropoceno" ISSN 2359-4705

CHAMADA | BUSCA E OUTRAS EDIÇÕES | ENGLISH


Parece que foi ontem

TÍTULO: Parece que foi ontem


Um chibé de sabores e de aprendizagens. Esta publicação é resultado de uma experiência. Daniel Munduruku, escritor indígena, foi professor visitante na Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, durante o primeiro semestre de 2018. Na pele, na superfície, experimentamos o arrepio: do encontro, do toque, do abraço, do susto, da alegria, do horror e o gosto salgado da lágrima alegre-triste. Como marca dos encontros felizes, ficou-nos o afeto de nos vermos frente a frente com aquilo que não conhecemos, com o novo que não nos assusta, com o diferente que não nos é indiferente, com o desejo de ter cada vez mais. Ter… contato, …afetos, …parcerias, …outras oportunidades de entre-laçar experiências e experimentações. As aulas foram momentos em que as aprendizagens fluíram de maneira afetuosa, carinhosa, bem-humorada. Falamos de coisas sérias, de assuntos muito sérios: falamos de resistência, de 518 anos de resistência. Falamos de uma imensidão de multiplicidade que ainda está por ser descoberta. Esse sim um descobrimento que ainda não aconteceu. Faltava-nos retomar esse vínculo com aquilo que nos é mais interiorizado, primeiro, autóctone. E aconteceu. Aconteceu de gente interessada deixar-se tocar por aquilo que nos afeta: a planta, a luz do sol e do céu, os objetos, as imagens, as leituras, a poeticidade indígena, os mergulhos fílmicos, as reflexões, as conversas, as rodas, as sonoridades, os cantos… Tudo isso e mais… Da leitura do livro “Parece que foi ontem”, de Daniel Munduruku, partimos para as oficinas ao estilo do Projeto “Fabulografias”, em experimentações com as imagens inspiradas pelo texto literário. Trazemos para esta exposição criações fotográficas de alunos e alunas da disciplina entremeadas ao texto do livro. Aqui tem um pouco daquilo que nos ficou na pele, no arrepio, no contato, na superfície que não parava de se embrenhar nas nossas mentes e nos nossos corações. E parece que foi ontem. Xipat oboré! Tudo de bom!

 


FICHA TÉCNICA
TEXTOS: Livro “Parece que foi ontem”- Daniel Munduruku
IMAGENS e MONTAGEM: Alunos e alunas da disciplina “Temática Indígena na Escola” oferecida por Daniel Munduruku (Professor Visitante da Faculdade de Educação, Unicamp e Alik Wunder (Professora da Faculdade Educação, Unicamp) entre março e junho de 2018 – Alexandra Krenak; Amanda Maria Pinheiro Ramos; Ana Carolina da Silva Oliveira; Ana Carolina Brambilla; Bruno Vieira Nery; Ana Paula Guimarães de Oliveira; Andréa Cunha Silva Franco; Bruna Carolini Biasi; Bruno Bristotti de Castro; Bruno Campelo Pereira; Bruno Henrique Canova; Caio Gusmão; Cynthia Faria Oliveira; Danilo Ross de Almeida França; Davina Marques; Edilene Alves Da Silva; Fabiana de Castro Santiago; Fernanda Llanos Angelo; Gabriela Paulino; Hosana Almeida da Silva; Hosana Mariotti; Iangrid Archanjo; Ingrid Sayuri Corsi Taquemasa; Isadora Franco Di Gianni; Jefferson Antonio de Castro dos Santos; Jéssica Alves; Julia Smidt Oliveira; Kaetê Spessotto Okano; Karolina Barros Moraes; Luísa Registro Fonseca; Luísa Registro Fonseca; Maíra de Oliveira Baltazar; Maíra Otsuka Lambert; Marcelo Rodrigues do Prado Júnior; Maria Luiza Felix dos Reis Fernandes; Mariana Feldmann; Mariana Fogaça Marcelo Watanabe; Mariana Gonzaga Marques de Freitas; Marília de Castro Felipe; Marina de Oliveira Ribeiro; Mayara Lucas Dos Santos; Narcleyre Dias Santos; Nathalia Castilho de Almeida; Nataliane Isabela Oliveira Martins; Nícolas Assaf; Rode Simonele Alves; Sara Melo; Rodrigo Marcelo Cardoso Ramos; Tatiana Plens; Thatiana Roberta Paula; Thomas dos Anjos; Victor Hugo da Silva Iwakami; Zilda Aparecida Godoy Bianchim; Zilda Farias.

OFICINAS DE CRIAÇÃO: Fotografia, desenho e colagem – Coletivo Fabulografias – Davina Marques, Alik Wunder e Marli Wunder


 

PARECE QUE FOI ONTEM – Daniel Munduruku
É que ficou guardado na minha memória como se fosse uma tatuagem. Tem até cheiro de saudade. Quase impossível não lembrar. Vem como se fosse uma imagem: o céu cheinho de estrelas. Grandes e pequenas, fortes e fracas. Algumas piscam lembrando o passado. Outras estão apenas lá como a nos lembrar no futuro.
No meio da roda o fogo, irmão de outras eras. Libera faíscas, irmãs das estrelas. Soprando suavemente, o vento, o irmão-memória, vem trazendo as histórias de outros lugares. Sob nossos pés está a mãe de todos nós, a terra, acolhedora. Sempre pronta, sempre mãe, sempre a nos lembrar que somos fios na teia.
De repente o falatório humano cessa. Um velho entra na roda. Tem passos lentos, suaves, de quem não deixa rastros. O fogo, o vento, a terra se animam. Nos calamos. O homem se senta num banquinho e olha ao redor. Vê olhinhos ansiosos que lhe fitam o rosto, aguardando suas palavras. Ele se cala. Acende um cigarro feito da palha da árvore tauari. Inicia um ritual secular para lembrar que temos raízes, temos passado, temos história. Canta suavemente, sem pressa, como um sussurro. Fala com os espíritos numa linguagem antiga.
Ouve-se o fogo responder com estalidos quase musicais. O sábio se ergue de seu banco e joga fumaça sobre as cabeças dos presentes. Um perfume se espalha pelo terreiro. Completa o círculo. O tempo passa pequeno, sem pressa. Ninguém desiste. Nesse momento somos hummmmmm.
O sábio vai para o centro da roda e conversa com o fogo, com o vento, com a terra, com a água, enquanto todos nos mantemos firmes em nosso cântico, única certeza que temos de manter o céu suspenso. Voltamos a falar uns com os outros. O velho fala: “Nosso canto e nossa dança são formas milenares de nos mantermos unidos e de mantermos a harmonia do Universo. Sem nosso canto seríamos inúteis. Sem nossa dança nada teríamos”.
“Precisamos da memória de nossos parentes-seres. Eles nos lembram que somos parte da teia. Nossos cantos nos lembram que é preciso celebrar. Nossa dança nos mostra que somos iguais. Velhos, homens e mulheres maduros, jovens e crianças, somos todos importantes como o são a Terra, a Água, o Vento e o Fogo, nossos irmãos primeiros. ”
O velho sábio ajustou-se em seu banco e iniciou uma história dos tempos imemoriais. E nós, crianças ainda, fomos com ele, para outros tempos. Parece que foi ontem, mas muitos anos já se passaram.
Parece que foi ontem, mas muitos anos já se passaram. Fico pensando nestas e em outras muitas passagens quando me sinto só no mundo. Saudades de casa, dos avós. Os velhos são sábios. Sábios não porque ensinam através das palavras, mas porque sabem silenciar e no silêncio mora a sabedoria.
Os velhos sempre nos trazem o novo que é sempre velho, antigo, pois está escrito na Natureza. É assim que aprendemos na aldeia. É assim que vivemos nossa tradição. É assim que desempenhamos nosso ser social: pelo respeito às tradições, pelo respeito ao saber do outro e pelo exercício do pertencimento a uma teia que nos une ao infinito.

 

 

 

 

 

 

WUNDER,  Alik (Org.) Parece que foi ontem (exposição). ClimaCom – Diálogos do Antropoceno [online], Campinas, ano.  5, n. 12. Ago. 2018 . Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/?p=9684


 

SEÇÃO LABORATÓRIO-ATELIÊ |DIÁLOGOS DO ANTROPOCENO |Ano 5, n. 12, 2018

ARQUIVO LABORATÓRIO-ATELIÊ |TODAS EDIÇÕES ANTERIORES