ANO 05 - N11 - "Ecologias Radicais" ISSN 2359-4705

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Carta de um biólogo-artista para um artista-biólogo qualquer


 

Carlos Augusto Silva e Silva[1]

Dhemerson Warly Santos Costa[2]

 

Um convite…

 

“As cartas são um rizoma, uma
rede, uma teia de aranha. Há um vampirismo
das cartas, um vampirismo propriamente
epistolar.”[3]
 Deleuze & Guattari

 

Carta I

 

Floresta, entre cavernas e cachoeiras de uma lua cheia

 

Caro leitor, as suas cartas ainda estão fundidas em árvores, águas, rochas, terra, macacos, cigarras, rabiscos, partículas de tintas… Um multicolor vibrante enleado às folhas de papel. São cartas que me lembram as folhas das árvores que encontrei, as quais também estão fundidas à outras coisas… Experimentações im-possíveis, cartas-art(e)ciências que contam sobre as experimentações produzidas numa cachoeira, nas paredes frias e esverdeadas de uma caverna que exala guano, exala morte e vida nas fezes de Andirás ou Guandira, seres que enxergam e se comunicam com as narinas, revoam com as mãos, dormem de ponta cabeça e constroem uma amizade simbiótica com diversas plantas.

Aliás, preciso contar-lhes algo, acabo de retornar à cidade, estava foragido! Não aguentava tantas vidrarias, jalecos, pipetas, revestidos de tons de brancos e cinzas que se intercalavam e me intercalavam. Peço que me entenda, ansiava por outras aquarelas! Verde, vermelho, azul… Movimentos não foliados que afogam-me nos delírios mais profundos, na busca de uma realidade que não me asfixie, para que o território caótico se torne abrigo, onde possa colher passagens que me tiram de dentro de mim. Pois o ser já não me satisfaz, nem mesmo os movimentos foliados.

Antes de mergulhar-te-me nos experimentos desta caverna-cachoeira-floresta preciso contar-lhes algo que aconteceu comigo em 2012 numa aula de campo, a qual inicialmente fui com o intuito de fazer experimentos na e com a natureza, mas tudo já estava tão orquestrado, que me sentia ainda preso ao laboratório.

Então, era uma tarde qualquer quando tudo já estava pronto, a armadura que me compunha como um bio-experimentador estava trajada: bota, calça, camisa com mangas compridas; junto aos elementos essenciais para grande tarde de desbravanças: água, protetor solar, alimento, amizades, volição pelos encontros da tarde. A mata era fechada, e nela os bio-experimentadores seguiam o bio-experimentador mais experiente. Era uma única trilha distante, os espinhos incomodavam, a fadiga possuía o corpo, mas nada era mais gratificante do que experimentar o ambiente, imbuir-se na sua fauna e flora; ver aquilo que nunca foi visto, tocar naquilo que nunca foi tocado, é uma experimentação que extrapola o limite do estudo da vida, aliás, é um estudo que excede a própria noção de saber sobre algo, é sentir isto, aquilo, coisas…

Cada passo era uma experimentação, pudera, tratava-se de bio-experimentadores em busca de encontros com “coisas” da natureza. O discurso era: aplique aquilo que foi outrora ensinado, aplique a teoria aprendida. Lorota! Estávamos em um lugar que de prescrito não tem nada, todos nós sabíamos, mas era necessário inventar um protocolo experimentativo, que pouco servia naquele momento, mas, quem sabe um dia poderia servir.

As técnicas de coleta, os equipamentos para extração, a leitura feita da vida que ali continha, caracterizou com grande tenacidade aquela tarde e muitas outras que foram produzidas ali e em outros lugares pouco desbravados por bio-experimentadores.  Mas a ciência que ali latejava tinha seus momentos de alucinação, de outras experimentações, que não seguiam aquele protocolo que vos mencionei anteriormente.

Estavam novamente os bio-experimentadores prontos para desbravar mais um ecossistema, olhar para ele a partir de um sistema científico. Tolos, a ciência moderna não dá conta de todos os encontros vitais. O raiar do sol despertou os bio-experimentadores que resolveram experimentar as vidas que compunham todo aquele ambiente, insistindo sempre em dizer num tom messiânico – precisamos utilizar as pesquisas científicas para proteger a floresta, precisamos garantir a conservação das espécies deste e daquele ecossistema – não importa como se dê a manipulação, o governo precisa gerir a manutenção da vida.

A saga continuara e com ela, a vida se mostra aos bio-experimentadores: ninhos de tartarugas, ninhos de jacarés, macacos, todo um ecossistema que a ciência por si só não consegue explicar. E quem quer explicações? Quem precisa de explicações? Os bio-experimentadores?

Na busca de explicações, um encontro inusitado aconteceu, aquele que se dá na ordem dos acasos, que não é com pessoas, mas sim com… Silêncios! Estavam eles, os bio-experimentadores defronte a uma revoada de centenas de pássaros. Nessa hora todas as certezas, todas as explicações, toda razão proporcionada pela ciência racional entrou em delírio. Os pássaros os convidaram para uma dança de apenas trinta segundos, o suficiente para proporcionar outras experimentações com a natureza. O pensamento voou, dançou, se tornou pássaro, arrastou, naquele momento, outras possibilidades de sentir e ver o ecossistema, lugar em que os pássaros não são apenas concebidos a partir de mecanismos ecológicos, mas ainda, “virtuoses, artistas, e o são, antes de mais nada, por seus cantos territoriais”[4], ou seja, numa mesma revoada de pássaro vimos processos biológicos, e, também, processos artísticos.

Aqueles movimentos experimentativos daquela aula ins-piraram-me. Os encontros foram intensos, subvertendo a ciência e seu frio discurso, criando possibilidades-outras experimentativas e inimagináveis. O que antes era uma floresta onde habitavam coisas que precisavam ser manipuladas a partir de experimentos tornou-se uma floresta com outras vidas, verde, transgressiva, possibilitando outros sentidos.

E lá estou novamente, numa floresta-caverna-cachoeira, andarilhando por entre florestas, cavernas e cachoeiras, ziguezagueando com o movimento performativo da natureza, do ar e de tudo que a compõe. Parece-me que ali a vida estava embaralhada por todos os lados, criando-se e reinventando-se nas mais improváveis formas, um caos vital.

O oxigênio que saia da mata atravessava meu corpo para então transformar-se em gás carbônico pronto para ser consumido por outra forma de existência… Movimentos dessa complexa máquina da vida. No entanto, buscava por outros modos de oxigenação, outros modos de respiração, aquele ar que perpassava pela criação. Ar que nutre corpos. Cessando essa fonte ao corpo, este não mais aguentaria, poucos minutos seria o suficiente para jogá-lo no rio das representações. Poucos suspiros, um último fôlego, esta é a respiração de muitos bio-experimetadores que estão sendo asfixiados para seguir regras, ou mesmo por não segui-las. Quem os privaria de tal manancial vital?

Voltando a pensar com o compasso das florestas, as imagens são re-in-ventadas. Gesto-corpo-riscado que desatam fios, nós, identidades. Forças-diagrama que germinam flora amazônica, e, ainda, derivas-cartográficas, que faz uma ciência não destinada aos laboratórios, ou mesmo uma arte não mais para as galerias, agora deseja aventurar-se pelas águas de uma cachoeira, pelas trilhas inexistentes de um recorte da Amazônia.

A ciência escapou por linhas de fugas trazendo consigo desterritorializações de atmosferas. Bio-experimentadores que esperavam pelo novo compasso da mu-dança, não por que mu-danças possuem maiores intensidades, mas, principalmente por que proporcionam outros encontros alegres ou tristes, e é claro, na ordem do acaso.

Uma mochila pesada nas mãos carregadas de tralhas tecnológicas, para coletar pequenos seres, que, por vez, pensa-se serem inferiores e passíveis de manipulações. Tudo isso ao som das árvores, macacos, ventos, musgos. Uma floresta cheia de armadilhas, encontros a povoam… O “homem da ciência” vive entre seus valores, seus mitos e suas necessidades. Onde armarei minha armadilha para capturar os meus afectos? Na escuridão da caverna seria um bom lugar, preferencialmente nos compartimentos mais profundos. Então, como isca, usarei um bocado de movimentos, processos inacabados, certamente conseguirei capturar meus afetos, paixões… Ser-me-ei tolo, eis que a armadilha estava todo tempo atada ao meu corpo, aliás, era eu minha própria armadilha, e assim como os encontros, os afectos também estão na ordem do acaso.

Mergulhando no suor da floresta, via corpos aberrantes. A pele do corpo é inundada. A pele da floresta é inundada. Ambas diluem-se. Os poros são rompidos e fissuram-se para uma possível respiração cutânea de um novo devir-artista. Um salto da jusante à vazante na fúria movediça. Água que devora e consome.

O sol reflete a cor das águas; verde, azul, cristalina, marrom… Um olhar mostra uma cor, outro olhar mostra outra cor. Diagramações coloristas/colorantes que permitem novas diferenças. Vamos, roube uma cor, duas cores, quantas quiser.

Invenções in-ventadas pela ciência que também ins-piram encontros artísticos, encontros de coisas… Encontros que criam, que comem a.r.t.(e).c.i.ê.n.c.i.a, e, além disso, incitam conhecimentos que beneficia, quem? Portanto, penso a art(e)ciência como uma possibilidade criadora de derrubar essas delimitações bobas de arte ou ciência, sempre como itinerâncias, transitando entre experimentações científicas, experimentações artísticas, experimentações artísticacientíficas. Experimentações que metamorfoseiam processos, eco-processos, multi-processos

Antes que você, leitor, pense que estou buscando instituir um maniqueísmo artístico ou científico na natureza, não é bem por aí que tentarei dialogar, quem sabe, talvez, suscitar possíveis encontros a partir de cartas-sensações que corroborarão outras experimentações, diferentes das que vivi.

Por isso, não vos mando esta carta na busca por um destinatário já pensado, mas um destinatário qualquer. Todavia, que diálogos surgiriam a partir desta carta sem paradeiro? Cartas-sensações que navegam por águas, poderiam encontrar ancoragem? Temo que sim, temo que não… Temo pelas sensações que s(er)ão ativadas a partir deste encontro.

E neste bloco de sensações, termino esta minha carta, lançando-a num rio qualquer, entre o mar e um rio, talvez um rio-mar, que neste encontro gera ondas. Venha pororoca, arrebente os ambientes estabelecidos, arrancando-os do lugar fixador de vidas, com um barulho ensurdecedor, modifique-os, modifique-os, modifique-os… n’vezes… Viole com mansidão? Também, viole como desejares, inclusive com violência. Resista, re-exista, insista em novos fluxos! Aproveite e leve consigo minhas cartas a um biólogo-artista, artista-biólogo, a um(a) qualquer, mas antes pulverize pinceladas de vida por onde passares.

 

Para outro biólogo-artista qualquer…

 

 

Carta ll

 

 

 

Saudações…

 

 

Prezado Biólogo-Artista escrevo-lhe esta carta, a qual nem sei dizer se posso chamá-la de carta-resposta. Aqui estou, sentado no laboratório, por entre vidraçarias, pipetas, jalecos e soluções.  Acabo de ler tuas palavras, confesso que não sei como ela chegou às minhas mãos, é que em nada pareço com outro biólogo-artista qualquer. É fato que sou biólogo, por força de formação institucional, mas de arte, penso que nada sei.

Ainda estou em estado de delírio, tuas palavras foram arrancadas do papel, impregnaram na minha pele, provocou em mim sentidos únicos, um verdadeiro bloco de sensações, entre elas o desconforto! Ora, poderia um biólogo ser artista? Ou, um artista ser biólogo? Poderia a arte e a ciência dialogar? Poderia um corpo cientista performatizar artistagens em meio à floresta? Poderia um corpo artista performatizar pesquisas científicas no laboratório?

Assim como estas indagações floresceram a partir do encontro que tive com tua carta, lembranças que atravessaram meus pensamentos, de modo que já não era mais possível seguir nos teus versos sem, concomitantemente, transmutar-me imediatamente para uma caverna, explorada por dois corpos em um domingo desses qualquer.

Tudo começou com um convite inocente de um amigo para ajudar-lhe com um trabalho da universidade: experimentar a natureza. Confesso que de imediato relutei a aceitar aquela proposta, afinal era domingo. Porém fui vencido, é difícil um coração apaixonado permanecer firme na negação, e que bom foi perder essa batalha. Hoje, por meio de tua escrita, olho para aquele dia com outros olhos, quem sabe o olhar de um biólogo-artista.

Caminhávamos calmamente pela floresta, o destino a caverna da Planaltina. Ali, enquanto meu amigo performatizava conexões com os elementos da floresta: árvore, rocha, água, terra, vento, serapilheira, minha missão era “capturar”, com a máquina fotográfica, os movimentos daquele momento.

Aqueles encontros potentes saltavam-me os olhos, corpo e natureza, em um verdadeiro estado de simbiose, corpo-árvore, corpo-água, corpo-rocha, corpo-solo. A princípio encantei-me pela beleza daquele corpo, logo aquelas conexões improváveis com a floresta agenciaram aberturas para pensar minha relação com a ciência por outras vias, ao final recolhemos nossas coisas e voltamos para o seio dos nossos lares, cercados pela cinza dos edifícios e o preto do asfalto.

Guardei os sentimentos produzidos naquela experiência comigo, porém, ao experimentar uma carta de um biólogo-artista, aquelas sensações explodiram dentro do meu corpo, (ins)pirando-me, movendo-me ao infinito, a navegar por mares nunca antes navegados, o da arte e suas conexões com a ciência.

Preciso despedir-me agora, aproveito os intervalos de uma esterilização e outra para escrever esta carta-quase-resposta. Peço que mantenhamos contatos, quem sabe combinar umas artistagens em um domingo desses qualquer.

 

Abraços afetuosos, de um biólogo qualquer

 

Recebido em: 15/02/2018

Aceito em: 15/03/2018


 

[1] Universidade Federal do Pará. Graduado em Ciências Biológicas-UFPA. Atualmente mestrando em Educação em Ciências pelo Instituto de Educação Matemática e Científica carlos.s02@gmail.com.

[2] Universidade Federal do Pará. Graduado em Ciências Biológicas-UFPA. Atualmente mestrando em Educação em Ciências pelo Instituto de Educação Matemática e Científica dhemerson-santos@hotmail.com.

[3] Trecho da livro Kafka. Por uma literatura menor de Deleuze e Guattari, p. 20. 1975.

[4] Trecho da livro Mil Platôs v.4 de Deleuze e Guattari, p. 130. 2012. 

 

 

Carta de um biólogo-artista para um artista-biólogo qualquer

 

RESUMO: Avisto uma pequena floresta-caverna-cachoeira ao longe. E nisso pergunto-me: o que podem os múltiplos encontros com tais ambientes? Não se sabe ao certo, apenas que, deles, surgiram duas cartas, e nelas não estão contidas apenas palavras, mas, sobretudo, forças que outrora foram produzidas pelos mil encontros a partir de experimentações. Encontros que ecoaram de vidas que estão conectadas à elas e embaralham-se. As cartas foram lançadas nas águas esverdeadas e misteriosas de um igarapé no meio da estrada, torcendo para que elas fossem arrastadas pelas águas a fim de promover novos encontros antes que as cartas morram, antes que tudo se apague, antes que as palavras se desmanchem. Não quero dizer aqui do que ao certo as cartas se tratam, apenas incentivar o leitor para que experimente o encontro-leitura. Movimente-se por entre prosas e versos, por entre cavernas e cachoeiras, por entre artes e ciências, por entre lugares: a caverna da Planaltina e um Laboratório de Ciências, neles os corpos-vozes experimentaram/ão pipetas, vidraças, cachoeiras, morcegos, jalecos, intensidades, devires… Compondo e ampliando outras existências onde nada se via, onde nada se sentia…

PALAVRAS-CHAVE: Cartas. Biólogo. Artista.


Letter from a biologist-artist to an artist-biologist anywhere

 

ABSTRACT: I see a small forest-cave-waterfall in the distance. And in that I ask myself: what can multiple encounters with such environments? It is not known, only, that from them two letters have appeared, and in them are contained not only words, but above all, forces that were once produced by a thousand encounters from experiments. Encounters that echo from lives that are connected to them and shuffle. The letters were thrown into the greenish, mysterious waters of an igarapé in the middle of the road, hoping that they would be dragged across the water in order to promote new encounters before the letters die, before everything goes away, before the words disintegrate. I don’t want to say here than for sure the letters are about just encouraging the reader to try the encounter-reading. Move between prose and verse, between caves and waterfalls, between arts and sciences, between places: the cave of the Planaltina and a Laboratory of Sciences, in them the voices would have experimented pipettes, panes, waterfalls, bats , coats, intensities, devires … Composing and expanding other existences where nothing was seen, where nothing felt…

KEYWORDS:  Letters. Biologist. Artist.


SILVA, Carlos Augusto Silva e; COSTA, Dhemerson Warly. Carta de um biólogo-artista para um artista-biólogo qualquer. ClimaCom [online], Campinas, ano 5, n. 11, abr. 2018. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/?p=8848