ANO 05 - N11 - "Ecologias Radicais" ISSN 2359-4705

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Uma flora amazônica: conexões eco(flor)arte nas aquarelas de Margaret Mee


Helane Súzia Silva dos Santos[1]

Esboçando outras possibilidades…

A Flora Amazônica é vista, hegemonicamente, pelas vias taxonômicas, pelas estratificações aprisionadoras das intensidades, fixadoras das singularidades em sistemas de redundância, consolidados pela ciência, que binariza a existência, classificando tudo que passa pelo campo vital.

Produzir conhecimento sobre esse ecossistema, tradicionalmente, é recorrer à ciência, como via formal para tal produção. A Botânica, como ramo da Biologia que estuda as plantas, sedimentariza todo o conhecimento produzido no campo biológico, reduzindo-o aos seus preceitos e desconsiderando outras possibilidades.

No entanto, a Flora Amazônica também é inspiradora para experimentações artísticas, como as da pintora inglesa Margaret Mee, que viveu na Amazônia entre 1956 e 1988, período em que produziu várias aquarelas, principalmente de orquídeas e bromélias (ALMEIDA, 2014).

Embora, suas telas sejam de cunho artístico, também foram utilizadas como modelos para identificação das espécies vegetais. Tal apropriação pode ser pensada, a partir de Deleuze e Guattari (2012b), como uma molarização dos fluxos moleculares, que compõem as aquarelas.

A ciência opera por códigos, regras, leis, manuais, por um conjunto de linhas molares que dependem de máquinas binárias classificatórias, assim é a taxonomia botânica. Deleuze e Guattari (2012b) denominam Ciência Régia para esse modo de produzir conhecimento, mas eles enfatizam que essa Ciência pode se apropriar de outras produções, as quais não seguem o método científico.

Nesse contexto, como fissurar essas sedimentações produzidas pela ciência? Como pensar outras possibilidades? É possível percorrer as linhas entrelaçadas da arte e da ciência, onde as “fronteiras” são como um horizonte com delimitação inexistente? Que linhas escapam dos sistemas de classificação taxonômicos para percorrer o campo das sensações?

Partindo dessas problematizações, este texto tem como objetivo experimentar outras possibilidades para pensar a Flora Amazônica, percorrendo vias fronteiriças da ciência e da arte.

Essas vias são pensadas a partir dos escritos de Deleuze e Guattari sobre ciência e arte, na obra O que é Filosofia? Portanto, esses autores são tomados como intercessores para movimentar este ensaio.

 

Flora Amazônica como um deserto…

Sentir a imensidão da Flora Amazônica como um deserto povoado por multiplicidades, como uma proliferação de vidas, sensações potencializadas pelos escritos de Deleuze e Guattari (2012a), onde eles dizem que no deserto o horizonte delimitador entre a terra e o céu não existe. A orientação e o movimento, segundo um sistema de referência fixo, não encontra lugar.

A ciência opera com o plano de referência (DELEUZE e GUATTARI, 2010), que no estudo da flora se traduz pela produção de chaves taxonômicas para classificar as plantas. Ela não se importa com a diferença entre espécimes[2], mas sim com as similaridades, que compõem os functivos utilizados para a construção do plano de referência da Sistemática Botânica.

É importante enfatizar que para Deleuze (1999) o ato de criação é comum a todas as áreas, mas elas se diferenciam pelo componente operatório com que cada uma delas compõe sua criação, à ciência cabe criar funções e às artes blocos de sensações. Para este autor, “…a pintura inventa um tipo totalmente diverso de bloco. Não são nem blocos de conceitos, nem blocos de movimento/duração,  mas  blocos  de  linhas/cores…” (DELEUZE, 1999, p. 3).

As vias de produção de conhecimento, nem sempre se mantêm com suas bordas fixas. Vazamentos são possíveis! A produção artística de Margaret Mee percorre as vias das duas formas de produzir conhecimentos, a ciência e a arte, borrando suas fronteiras. As suas telas não foram a priori produzidas com o rigor exigido pelas regras taxonômicas, configurando-se como produção artística, como experimentações que perpassam pelo campo das sensações. Posteriormente, no entanto, foram utilizadas por institutos botânicos servindo de objeto de estudo para sistemática da flora, como coloca Almeida (2014, p. 45): “… a Desenhista desempenhou um grande papel para a Ciência, ilustrando espécies de plantas através de suas expedições, algumas que ainda não tinham sido descritas pela Ciência…”.

Essas produções artistícas foram amplamente capturadas pela taxonomia botânica, inclusive como instrumento para a identificação de novas espécies, pois em algumas telas a artista tentou fazer a identificação das plantas através do nome científico. No entanto, apesar de ser considerada também uma ilustradora botânica (desenhista que representa a realidade de forma fiel, fugindo de elementos simbólicos que venham a distorcer características comuns da espécie representada), não seguiu o rigor científico, fugiu dos padrões que a ciência exige para uma leitura universal, utilizando cores, brilhos e texturas inspiradas na sua experimentação com a flora, que parece conotar uma relação simbiótica, já que Margaret Mee viveu na floresta produzindo suas telas em contato direto com as plantas. Por isso, seu trabalho também pode ser sentido como potencializador de processos vitais, que vão além do organicismo.

Deleuze e Guattari (2012a) consideram o organismo como um fenômeno de sedimentação ou coagulação, que impõe ao corpo fluído formas dominantes e hierarquizadas de organizá-lo, conferindo-lhe um sujeito e atribuindo-lhe uma significação. Para esses autores, o organismo impõe formas, funções, ligações, organizações dominantes e hierarquizadas, transcendências organizadas para extrair trabalho útil.

Muitos trabalhos, publicados nos campos da taxonomia botânica e de outras áreas, incluindo livros, dissertações e artigos, seguem esta lógica de pensamento organicista, quando fazem a leitura da produção de Margaret Mee, a partir de um sistema binário, em que um sujeito dá significações a um objeto estudado, ignorando outras “possibilidades”, outras imagens do pensamento fomentadas pelas sensações.

Neste texto, considera-se que as telas de Margaret Mee esfumaçam as fronteiras entre a ciência e a arte. A Flora Amazônica também pode ser pensada como um deserto, onde a segmentação taxonômica não a reduz a uma existência fixa. Nesse deserto proliferam vidas! Os fluxos vitais escapam, compondo linhas flexíveis que passam pelo campo das sensações.

 

Eco(Flor)Arte…

… Então, a primeira pétala começou a se mexer, depois outra e mais outra, e a flor explodiu para a vida…

Margaret Mee

Margaret Mee percorreu linhas moleculares através da produção de suas aquarelas, ao se lançar no deserto amazônico, povoado por sensações, compondo um campo de intensidades, proliferador de outros modos de pensar a ecologia e a flora em interação com a arte – experimentada neste texto como Eco(Flor)Arte.

Que Flora Amazônica é possível sentir nas aquarelas de Margaret Mee? Não há intenção de responder tal questionamento neste texto. Mas, proliferar pensamentos que esbocem possibilidades, as quais (des)construam o rigor científico, como representação fiel da ecoflora que compõe as aquarelas, como única possibilidade de compreensão deste ecossistema. Considera-se importante retirar a ciência de um status de hegemonia sobre as outras vias de conhecimento, pois ela é tão necessária quanto à arte. Deleuze e Guattari (2010) enfatizam que uma não deve ter nenhum privilégio sobre a outra.

Assim, é possível movimentar sensações que atravessam a experimentação com a Flora Amazônica nas aquarelas de Margaret Mee, percorrendo linhas entrelaçadas entre ciência e arte, que esboçam outras paisagens possíveis nesse ecossistema, como nos traçados e cores que produzem uma flora nas telas dessa artista.

Figura 1: Ilustração de uma orquídea feita por Margaret Mee

Fonte: MEE, M. Flowers of the Amazon Forests. Ney York: Garden Art Press, 2006.

A flora pintada por Margaret Mee embaralha fronteiras, (des)funcionaliza esses “organismos” como componentes bióticos dos ecossistemas amazônicos, produtores de alimento e oxigênio apenas, que precisam ser identificados para endossar a molarização pelas vias da sistemática vegetal. Não é somente através dos functivos, construtores de um plano de referência, que se conhecem as plantas de um ecossistema.

As misturas de cores e as sensações hápticas, encontradas nas telas, podem movimentar outras imagens do pensamento acerca dessa vegetação, passando a ser visualizada não apenas como estratos, compreendidos a partir de populações, de sistematizações, de chaves taxonômicas, mas do que difere. Há uma potência criadora nesses processos artísticos.

[…] Pintamos, esculpimos, compomos, escrevemos sensações. As sensações, como perceptos, não são percepções que remeteriam a um objeto (referência): se se assemelham a algo, é uma semelhança produzida por seus próprios meios, e o sorriso sobre a tela é somente feito de cores, de traços, de sombra e de luz. Se a semelhança pode impregnar a obra de arte, é porque a sensação só remete a seu material: ela é o percepto ou o afecto do material mesmo […] (DELEUZE e GUATTARI, 2010, p. 215).

Margaret Mee criou uma flora amazônica atravessada por singularidades, que destoa das cores pálidas da segmentarização, tingindo-a por manchas resultantes das misturas coloridas e vivazes. Nesse sentido, ela se aventurou a ocupar o deserto Eco(Flor)Arte como um espaço povoado por sensações que transbordam os limites fronteiriços entre ciência e arte, lacerando a unidade da experiência vivida. Tais sensações arrancam o pensamento do torpor organicista, forçando-o a movimentar outras possibilidades para pensar a Flora Amazônica.

Para Deleuze e Guattari (2010), a sensação é feita de perceptos e afectos, e cabe à arte criar e compor sensações. E o artista é alguém que sente algo que o ultrapassa, mas que ele terá que tornar visível através das sensações que cria e compõe, excedendo os estados perceptivos e as passagens efetivas do vivido.

Qualquer artista, como um pintor, por exemplo, procura recortar do mundo uma possibilidade através de sua obra. As aquarelas de Margaret Mee são recortes de uma Flora Amazônica singular, atravessada por um plano de composição, que gera múltiplas sensações sobre essa flora.

 

Uma Flor da Lua…

“… um incessante murmúrio de vida.”

Margaret Mee

 

A Flor da Lua inspirou uma das aquarelas mais caras à Margaret Mee, retratada em seus diários. Ela teve muita dificuldade em encontrá-la, devido a sua existência efêmera, pois esta flor vive apenas uma noite, durante a lua cheia. E assim como é possível conhecer suas estruturas pelas vias da ciência, também é possível ter sensações potencializadas pela sensibilidade artística de Margaret Mee.

A artista ficou à espreita na floresta, durante várias excursões, até sentir o murmúrio de vida da Flor da Lua. Uma paisagem transitória da Flora Amazônica, atravessada por tantos outros murmúrios vitais. Intensidades potencializadoras de vida!

A Flor da Lua povoa esse deserto, a Flora Amazônica, como uma paisagem transitória. Que sensações podem proliferar da sua existência, mesmo numa aquarela? A potência vital desse ecossistema é atravessada por um campo de intensidades, onde cabem quantas Flores da Lua forem possíveis de serem criadas.

Figura 2: Flor da lua Selenicereus witti feita por Margaret Mee

Fonte: MEE, Margaret. Flowers of the Amazon Forests. Ney York: Garden Art Press, 2006.

Através das telas dessa pintora foi possível pensar sobre os planos de referência, utilizados pela ciência, e sobre os planos de composição como geradores de sensações, ligados à arte. Transitar entre esses dois campos de criação, sem privilegiar nenhum deles, possibilitou reinventar uma Flora Amazônica, a qual compõe uma nova imagem do pensamento sobre esse ecossistema.

Assim, este trabalho sugere, através das aquarelas de Margaret Mee, outras imagens do pensamento e sensações que atravessam a Flora Amazônica, como um deserto, como paisagem para se pensar um novo mundo, uma “nova terra”, tema caro a Deleuze e Guattari, onde se faz sentir por via da dilaceração da experiência vivida.

Torna-se urgente, nesses tempos de degradação antrópica acelerada dos ecossistemas, criar meios de resistência para intensificar a proliferação de vidas, para reinventar o mundo, para compor uma nova imagem do pensamento, para criar blocos de sensações, para movimentar potências criativas… para construir uma Eco(Flor)Arte de uma Flora Amazônica.

 

Bibliografia

ALMEIDA, A. S. de. O Desenho de Margaret Mee: Contribuições para a taxonomia Botânica. Dissertação de Mestrado. Universidade Estadual de Feira de Santana. 80 p. 2014.

DELEUZE, G. O ato de criação. Tradução: José Marcos Macedo. In. Folha de São Paulo, 27/06/1999. Transcrição de conferência realizada em 1987.

DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil Platôs. Vol. 3. São Paulo: Ed. 34, 2012a.

DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil Platôs. Vol. 5. São Paulo: Ed. 34, 2012b.

DELEUZE, G.; GUATTARI, F. O que é a filosofia? São Paulo: Editora 34, 2010.

MEE, M. Flowers of the Amazon Forests. Ney York: Garden Art Press, 2006.

 

Recebido em: 15/02/2018

Aceito em: 15/03/2018


[1] Docente no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA). Doutora em Educação em Ciências. E-mail: helanesantos@yahoo.com.br

[2] Designam individualmente uma planta ou uma parte identificável, usada como amostra representativa para o estudo das propriedades de uma população da espécie a qual pertence.

Uma flora amazônica: conexões eco(flor)arte nas aquarelas de Margaret Mee

 

RESUMO: Este texto tem como objetivo experimentar outras possibilidades para pensar a Flora Amazônica, percorrendo vias fronteiriças da ciência e da arte. A partir das aquarelas da pintora inglesa Margaret Mee sobre essa flora, levantam-se alguns questionamentos: como é possível percorrer as linhas entrelaçadas da arte e da ciência? Que linhas escapam dos sistemas de classificação taxonômicos para percorrer o campo das sensações? Que Flora Amazônica é possível sentir nas aquarelas de Margaret Mee? Não há intenção de responder tais questionamentos. Mas, sugerir outras imagens do pensamento e proliferar sensações que atravessam a Flora Amazônica, como um deserto, como paisagem para se pensar um novo mundo, uma “nova terra”, tema caro a Deleuze e Guattari.

PALAVRAS-CHAVE: Flora Amazônica. Ciência. Arte.


Una flora amazónica: conexiones eco(flor)arte en las acuarelas de Margaret Mee

 

RESUMEN: Este texto tiene como objetivo experimentar otras posibilidades para pensar la Flora Amazónica, recorriendo vías fronterizas de la ciencia y del arte. A partir de las acuarelas de la pintora inglesa Margaret Mee sobre esa flora, se plantean algunos cuestionamientos: ¿cómo es posible recorrer las líneas entrelazadas del arte y de la ciencia? ¿Qué líneas escapan de los sistemas de clasificación taxonómicos para recorrer el campo de las sensaciones? ¿Qué Flora Amazónica es posible sentir en las acuarelas de Margaret Mee? No hay intención de responder a estos cuestionamientos. Pero, sugerir otras imágenes del pensamiento y proliferar sensaciones que atravesan la Flora Amazónica, como un desierto, como paisaje para pensar un nuevo mundo, una “nueva tierra”, tema caro a Deleuze y Guattari.

PALABRAS-CLAVE: Flora Amazónica. Ciencia. Arte.


 

SANTOS, Helane Súzia Silva dos. Uma flora amazônica: conexões eco(flor)arte nas aquarelas de Margaret MeeClimaCom – Ecologias Radicais [Online], Campinas, ano 5,  n. 11,  abr.  2018 . Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/?p=8801