ANO 04 - N10 - "Cosmopolíticas da imagem" ISSN 2359-4705

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NoctilucaScreen Project: Cosmopolíticas da imagem

NoctilucaScreen Project: Cosmopolíticas da imagem ou o fogo todo vivo entre as águas, o vento e a terra.
por Hambre | espacio cine experimental + ClimaCom


Nesta terceira entrega, o projeto NoctilucaScreen continua insistindo na iminência de novas matrizes perceptivas, de novos modos de fazer corpo com o cinema que nos abram a movimentos onde nossa humanidade moderna de mais encontre dentro dela mesma o que há de não humano, de mais do que humano que nos religa com o mundo, com o cosmos. Toda uma política de borda, de imagens descentradas e descentrantes, toda uma ecologia onde o mergulhar no cosmos está no centro do problema, para que este não seja nem único nem só humano, para que este se multiplique, se falsifique e prolifere entre as imagens. Um arrebatar a tutela das imagens de quem acha ter sua propriedade, fazer delas uma pura impropriedade para que sua energia seja puro fluxo próprio da vida. Afirmar uma cosmopolitica, ser promotor da insistência do cosmos nos afetos que se tramam pelo mundo todo, afetos impessoais, afetos anônimos que podem passar por nós, pelo humano, mas devem continuar. Sermos com as imagens puro entre-viver que se abandona mutuamente, que se faz resto, que se faz impermanência, que se faz pura nascença.

Toda uma cosmopolítica das turbulências energéticas. As imagens como esse fogo instável e todo vivo, como essa energia que engravida e que reclama um cinema de manipulação dos elementos, onde se procure a propensão destes entre os materiais sonoros e visuais. Uma cosmopolítica que propomos rastrear em três movimentos por onde o fogo das imagens passa, por onde a energia que elas são desdobra modos inusitados de ganharmos intimida com as águas, o vento e a terra.

As forças do mar:

Nunca esquecer o berço primordial, o mar. Nunca se distanciar de suas forças e formas. Maravilhar-se e contemplar a vida que há nele nos dirão as imagens de Jean Painlevé. Tentar escutar seus ritmos secretos em suas formas nos tentarão fazer ouvir as composições de Alfred Ehrhardt. Intuições que nos fazem sentir que todos levamos um mar dentro, que nosso sangue não nos pertence, que seu vermelho e uma variação do azul do mar. Sangue, mar e filme podem se tramar, podem fazer parte do mesmo fluxo como nos faz lembrar Andres Garcia Franco.

As atmosferas que ventam:

As imagens ventam, se dizem deslizar do ar entre as árvores, se dizem sensações insondáveis para o ouvido humano, lampejos entre os galhos e luzes cintilantes que Mikel Guillen & Scott Barley fazem proliferar, como algo quase insuportável, mas que devemos abraçar. Imagens frágeis, ínfimas e gigantes, feitas sussurros que emaranham os limites entre as flores, toda uma anima botânica em explosão de cores que Wolfgang Lehmann cuida sigilosamente com o jardim audiovisual que semeia. Toda uma percepção esfumaceante, de nevoeiros e atmosferas outras onde, como nos diz Pierre Villemin, podemos apreender o mundo de modo mais imediato, mais incerto, mas mais próximo, mais alucinado, mas mais verdadeiro. Novos corpos perceptivos onde o humano escoa e deixa passar o cosmos sem resistência.

Os movimentos da terra:

Entre Tiziana Panizza, Francisco Huichaqueo, Colectivo Los Ingravidos e o Karrabing Film Collective o cinema se abre a uma escuta da terra, dos movimentos da e com a terra. Entre terremotos, cataclismos perceptivos e proliferações de modos de existência não ocidentais a terra canta, a terra ganha novas qualidades de aparecer, de poder comparecer.  Cada uma destas composições nos lembra que tão enraizados estamos na terra por mais que o tentemos negar, nos lembra que  há algo de muito telúrico em nós, que há uma ancestralidade-terra que fala em cada um de nossos gestos por mais imperceptíveis que estes pareçam. Uma escuta se abre, e com ela vozes outras vêm, vozes de povos humanos ameríndios e australianos, de povos menores, mas também de povos ainda mais ínfimos e que excedem o limiar de nossa humanidade. Povos de luz, povos que brilham, que aparecem na medida em que algo em nós se cega para que um outro, um desconhecido se manifeste em nós, um outro que na sua desrazão e delírio inventa uma língua alheia a todos mas própria da terra.

Sebastian Wiedemann
Curador


As forças do mar
“The Seahorse” de Jean Painlevé (1934)
“Crabs and Shrimps” de Jean Painlevé (1929)
“Korallen – Skulpturen der Meere” de Alfred Ehrhardt (1964)
“Spiel der Spiralen” de Alfred Ehrhardt (1951)
“Blood, Sea, Film” de Andres Garcia Franco (2011)

As atmosferas que ventam
“The Sadness of the trees” de Mikel Guillen & Scott Barley (2015)
“Traces of garden” de Wolfgang Lehmann (2016)
“From the side of immediate reality” de Pierre Villemin (2017)

Os movimentos da terra
“Tierra en Movimiento” de Tiziana Panizza (2015)
“Chi Rütran Amulniei ñi Nütram / El metal sigue hablando” de Francisco Huichaqueo (2016)
“Piedra de Sol” de Colectivo Los Ingravidos (2017)
“Wutharr.Saltwater Dreaming” de Karrabing Film Collective & Elizabeth A. Povinelli (2016)
“The Jealous One” de Karrabing Film Collective & Elizabeth A. Povinelli (2017)

 

 

As forças do mar

 

As atmosferas que ventam

 

Os movimentos da terra