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ClimaCom Cultura Científica - pesquisa, jornalismo e arte | ano 02 - volume 02


Águas (,) escritas (.) enchentes (de) gentes…

Elenise Cristina Pires de Andrade[1]

Louise Mara Soares Bastos[2]

 

 

Feira de Santana, Lagoa Grande, 29 de dezembro de 2016.

Querida Jacaroa Lamoa,

As coisas aqui andam bem agitadas, quase não tenho tempo nem espaço para mais nada, nem para nadar, nem para passear, nem para tomar sol, nem para jantar fora. É um entra e sai de gente, tanta perna zanzando, chegam colocando o celular na nossa cara, você precisa ver, mal conseguimos ter privacidade. Juro que não vou fazer uma carta-reclamação, mas antes que você venha me visitar amiga, preciso te contar como está a nossa vida aqui na Lagoa Grande. Pois bem, desde o ano passado o pessoal tá no mexe-remexe por aqui. É um monte de máquina comendo terra, abrindo buraco, fechando buraco.

imagem 1No começo a gente teve medo, nos escondemos lá perto daqueles lírios onde a gente gosta de boiar, lembra? Então, ficamos lá uns dias, sondando o que estavam fazendo. Mexe, vira e revira, eles mudaram um monte de coisa por aqui. Sabe aquele lado cheio de jaçanã, onde a gente ia catar lambari? Pois é amiga, não tem mais. Nem jaçanã, nem lambari, a gente vai ter que esperar um tempinho até aparecer tudo isso de novo. De bom deixaram um super banco de areia, ótimo para tomar sol. E foi aí que a coisa sucedeu. No começo, só aparecia um ou outro, olhavam assim, de longe, e depois iam embora. Eu também não queria ficar muito em cima, tentava me esconder um pouco, meio com medo, meio com vergonha. Aí fui me acostumando e subindo, subindo. Menina, foi aí que apareceu tanta gente, sim, me esqueci de avisar que esse povo todo era gente, aqueles que se acham o máximo que até se chamam de sapiens, affffff, tanta arrogância. Então, esse povo todo me filmando, tirando foto, me senti a Angelina da Lagoa. Você pode ver no Youtube[3], o nome do vídeo é “Jacarés atraem curiosos na Lagoa Grande”. Se sua internet prestar, assista. Eles fizeram um vídeo muito legal onde eu mostro minha boca aberta, enorme. Isso foi meio estratégico, para deixá-los longe de mim um pouco né? Senão, você sabe, iam me fazer até de cavalinho para bater foto e postar no Facebook, e eu não tenho espírito de pônei para essas brincadeiras.

Bem, fora isso, enrolo uma visita aos primos lá do Igarapé faz meses, alego cansaço, digo que engordei demais para viajar tanto, se eles assistem esse vídeo e eu estou lá, toda de boa, vão dizer que estou mentindo. Não estariam de todo errado, né? Espero notícias suas.

Ah! Tenho zap, vamos nos falando pelas redes sociais. Eles não se acham os sabidos? Usemos de tanta sapiência!!!!!

Beijos da sua amiga

Jacaroa Penina

 

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Migaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa, sua lokaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa A-D-O-R-E-I seu Insta. Tanto que até preferi outra carta ao invés de conversas no zap. Você fez uma zoeira SENSA com aquela placa horrível. As pessoas vêm pra Lagoa todos os dias, trazem crianças, tomam cerveja, namoram, riem, correm, jogam umas coisas com bola, gostam de ficar me olhando tomar sol. Acho engraçado como um simples banho de sol parece tão extraordinário e ameaçador, pois logo depois do vídeo vieram colocar essa placa vermelha dizendo: PERIGO, ÁREA SUJEITA A ATAQUE DE JACARÉ[4]. Que grande mentira, se eu nunca ataquei ninguém. E se sou tão perigosa, por que vêm atrás de mim? Sei, sapiens, tá bom! Esse monte de perna, cheia de sangue fresquinho e nunca encostei para dar uma cheiradinha sequer. Ainda colocam um desenho muito mal feito. Antes colocassem uma foto minha, seria bem mais legal. Ainda assim, tá certo que eu abri a boca no vídeo, mas estava calor e não queria comer ninguém, só mostrar como minha boca era grande, bem maior que a do lobo, por exemplo. Aquele que todo mundo diz que é mal, sei não, desconfio do que todo mundo diz. Se é mal. Se é um ser, sei lá. Des-confio…

Até mais, então.

Beijos da sua amiga

Jacaroa Penina

 

 

 

Otávio das Chagas tornou-se um não ser. A hidrelétrica de Belo Monte o reduziu a um pescador sem rio, um pescador que não pesca, um pescador sem remos e sem canoa. A ilha do amazônico Xingu, no Pará, onde cresceu, amou Maria e teve nove filhos não existe mais. Entre ele e o peixe não há mais nada.

(…)

– Não tenho leitura – ele avisa, oferecendo a mim os hieróglifos que dizem dele para que eu os desvende.

Há algo de violento naquilo que se escreve sobre os que não se leem em papéis, naqueles que até o nome é escrito por outros. Recuso por enquanto aquela porta. Peço ao pescador que já não pesca que se documente em seus próprios termos.

(…)

Entre todos [da família], só Davi conhece bem as letras. É um menino quieto, de olhos grandes. Ele gosta de estudar, tem capricho no caderno que mostra, folha por folha.

– Eu não choro quando não tem comida na volta da escola. Eu fico só triste.

Davi tem 12 anos. As letras que só ele decifra são pesadas demais para um corpo tão franzino[5].

Letras em fios contorcidos. Lemos? Escrevemos? Rabiscos cantantes gravados numa superfície há aproximadamente 600 anos… O livro que “ninguém pode ler”[6]. Se não pode ser lido, continua sendo um livro? Uma escrita? (Será que os jacarés que aqui já se expressaram conseguiriam se encantar com esses fios tanto quanto nós, as escritoras desse texto?)

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Ritmos de carícia de um olho sem pálpebra? E por que comemorar o fato de que o manuscrito não se mostra como uma farsa? Por que tanto ansiar que as escritas e os desenhos presentes no Voynich Manuscript[7] expliquem, descrevam, signifiquem algo? O que o canto da página 66 quer cantar?

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As sereias entretanto têm uma arma ainda mais terrível que o canto: o seu silêncio. Apesar de não ter acontecido isso, é imaginável que alguém tenha escapado ao seu canto; mas do seu silêncio certamente não. Contra o sentimento de ter vencido com as próprias forças e contra a altivez daí resultante – que tudo arrasta consigo – não há na terra o que resista (Franz Kafka)[8]

Tempos de frenéticas trocas de escritas, ódios, preconceitos, memes, fotos de cachorros, ursinhos e… e… e… Livros, teses, dissertações, artigos, blogs, outdoors, revistas, lousas, que tantas pessoas desejam ardentemente que sejam letras e, mais, que componham uma escrita – afinal, qual seria a função de uma letra que não escrevesse? Não nos forçaria a pensar pensamentos impensáveis? O silêncio de desenhos que parecem letras. Otávio das Chagas e a impossibilidade de manifestação da ausência de um pescador sem rio, de um jacaré que ‘simplesmente’ aparece na porta de uma casa, de trocas de correspondências entre ideias/ideais jacareônicos… que resistência ainda re-existe e insiste?

Amarrada ao caibro, que é pilar do portão, pintada e protegida da chuva por telhado de zinco, só pode ser uma caixa de correio. Tosca, porém melhor cuidada do que muitas das que tenho registrado, só um detalhe deixa a cisma: o seu corpo, de bloco de concreto, não traz a abertura para a carta (Mário Rui Feliciani).

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Mário Rui Feliciani, em Quando o carteiro chegar (1995)[9], nos brinda com um maravilhoso conjunto de fotografias de caixas de correio espalhadas por São Paulo, em um trabalho que durou dois anos. E, a mais emblemática, nos diz o escritor e fotógrafo, foi uma caixa que expulsa qualquer possiblidade – presente nos planos da recognição – de receber uma carta. A foto acima, é de uma caixa de correio pertencente a Saravá, que é assim descrito pela sua vizinha, com a qual Feliciani conversou:

“Ele é atrapalhado, moço. Faz anos mora aí sozinho. Tem espaço lá em cima, onde tinha uma outra casa que podia ter alugado, mas desmanchou o telhado e fez essa cerca. Os filhos são gente boa. Moram na cidade ao lado, mas – até mesmo eles! – ele bota p’ra fora quando vêm. Mal vi o senhor e pensei ‘se ele sobe, não demora e desce correndo’. Veio da Bahia. Dizem que lá era de Saravá. Parece que por isso a mulher largou dele e ele veio morar aqui. P’ros meninos eu arrumei colocação e hoje são pais de boas famílias. Mas o pai é assim, sempre sozinho. Trabalha de cuidar de um sítio. Cozinha na lenha. Grita muita bobagem. N’outro dia quase acertei ele, que tenho mulher e mãe morando comigo. Elas não têm que ficar escutando essas coisas, têm? Mas não vale a pena. É um coitado, que não quer ninguém por perto. Se eu pudesse, mudava daqui, mas quem vai comprar uma casa com terreno tão grande…”

Carta do corpo fechado? “Sempre sozinho. A mulher que abandona. O Saravá. Expulsa quem entra. A caixa fechada. Pintada com cuidado. A carta que nunca vem. Que não quer que venha. Que quer que venha. A falta da fresta na caixa. A mulher fechada?” (FELICIANI, 1995). Que carta conseguiria acessar tal caixa? Quereria essa caixa receber alguma carta escrita? Ex-crita? Ex cripta?

Talvez uma carta de uma jacaroa para outra?

Preciso contar uma coisa. No comecinho do ano, o nosso amigo Jacinando, lembra? Lindooooooooooooo, resolveu jantar fora, dar uma voltinha procurando outras guloseimas. Você sabe que às vezes a gente cansa de comer só peixe e caramujo, além disso as correntezas das lagoas são lentas e a gente gosta, mas é bom dar uma agitada às vezes, mudar um pouco, quando se é novinho então. Aí o Jacinando foi passear e exagerou um pouco no caminho. Jovem, aventureiro, explorador, foi parar lá do outro lado da Lagoa. Parou para dar uma descansada no caminho, alguém o viu e pronto, acabou o passeio. Amarraram o pobre e chamaram aqueles caras do carro grande, acho que é resgate que eles chamam, só não sei resgatar o que se o Jacinando não estava perdido. A dita cuja da sapiência, eu é que estou perdendo a paciência com esse povo, viu. Saiu até no jornal daqui, o Acorda Cidade, pode procurar na internet que você encontra[10], com uma foto linda do Jacinando, mesmo porque ele fica lindo de todo jeito mesmo. Em setembro foi a vez da Rubertina sair no jornal, nesse mesmo site do Jacinando você acha fotos dela. Foi atrás de uma galinha no quintal de uma moça, aqui perto da Lagoa mesmo, mas deu azar do pessoal chegar na hora que ela ainda estava lá. Quando viram a Rubertina foi um grita de lá, grita de cá. Menina, rapidinho os vizinhos estavam todos no quintal fazendo roda. A Rubertina disse que foi o dia que mais sentiu medo na vida, acuada naquele canto de muro, aquela gente toda e tudo que tinha eram seus dentes para se defender. Mas, ainda bem, ela não precisou morder ninguém e, rapidinho, voltou para casa. Disse que não vai querer passear de novo tão cedo.

Tem muita gente morando perto da Lagoa, a gente precisa ficar muito atenta para não dar de cara com as pessoas quando vai passear ou caçar. Não sei porque elas começam a gritar quando a gente aparece. Como eu disse na outra carta amiga, por aqui, apesar das nossas correntes de água lenta, o caminho da terra está muito agitado. Estou me preparando para fazer aquela visita aos primos do Igarapé, lá em Manaus. Vi na internet que o Igarapé encheu demais e levou os primos todos para a rua[11], mas lá as pessoas já conhecem a família e guiaram todos de volta até o rio. Lembra como a gente se divertia quando estava lá nas cheias? Uma delícia deslizar sem esforço, deixando a água arrastar o nosso corpo para onde quisesse, escorregando de boca aberta, pegando peixe sem pescar! No mais, estamos esperando ansiosos a sua visita por aqui, será uma grande festa e teremos muitas coisas novas para te mostrar. Talvez boas, talvez nem tanto, mas também né? O que bom e para que? Sabe que colocar uma foto sua no jornal da cidade seria beeeeem divertido! Uma boa dica de que fizemos algo que não esperavam… Será que esse povo sabidão saberia ler as nossas cartas? Como vem diz Rubertina: du-vi-de-o-dó. Vai ver que eles nem consideram essas cartas uma escrita. Deixe estar!

Beijos da sua amiga

Jacaroa Penina

(Im)possibilidades de diálogos a perfurar mundos, cartas escritas por jacarés. Seriam mesmo cartas? Seriam escritas? Expressam desejos, encontros assustados em cantos de muro, aventuras em zona de risco. Cartas como “máquinas de expressão”. Passeios ansiosos em territórios desconhecidos, aparecimentos inesperados. Risco (im)preciso a rabiscar outros olhares, outros desenhos que racham o cotidiano da paisagem. Borbulhar de existências, enchente de gente e jacarés e linguagens e pensamentos. Escritos em letras desconhecidas, palavras ausentes, linhas ilegíveis que arrastam sentidos entre rios e lagoas e jacarés e peixes e pessoas. Uma escrita em hieróglifos narra a ausência do pescador sem rio, sem peixe, sem leitura, “tem mais presença em mim o que me falta” deságua Manoel de Barros. Quais letras se fazem possíveis na impossibilidade da escrita? Uma sereia sem canto, silenciada em papel de sons embaralhados, riscos que não falam. Arriscam? Versos em silêncios, em ausências, palavras que se escrevem sem letras.

O que acontece quando a gente escreve sem ver? Uma mão de cego se aventura solitária ou dissociada, num espaço mal definido, ela tateia, ela apalpa, ela afaga, acaricia ao mesmo tempo em que escreve, ela confia na memória dos signos e substitui a vista, como se o olho sem pálpebras se abrisse na ponta dos dedos: o olho em excesso acaba de nascer perto da unha, um único olho no meio da testa, um olho de gigante, um olho de ciclope (DERRIDA[12]).

Olhos de ciclope, de jacarés, de pixels a invadirem outros (mesmos?) espaços. Linhas (d)e letras a comporem palavras que apartam um pescador do peixe e do rio e que, ao mesmo tempo (que tempo seria esse?), possibilitam a Davi uma compreensão impossível – decifrar um enigma impossível. Violência das águas que, antes, acariciavam os peixes. Que olhos sem pálpebras atingem a dobra do envelope nessa caixa de correios? Que gestos nos invadem ao perfurar a pedra de uma caixa que ex-pulsa as cartas? Que cataclismas pulsam, então?

As palavras de Francisco [filho mais velho de Otavio das Chagas] buscam um porto, uma forma de se ancorar quando ele já não reconhece o mundo. Aquele que migra, ainda que saiba que talvez não exista retorno para a terra que deixou, conta com a concretude do passado. Há um lugar, há a carne e os ossos dos que ficaram. Aqueles que perdem uma ilha, como Francisco, perdem com ela tudo o que contava deles. Desfazem-se. Resta uma memória que só se expressa pela oralidade – e a oralidade tem menos valor no Brasil dos letrados, no universo dos cartórios, em que a justiça legitima o documento escrito. É do lugar dos que não têm mais mundo que fala Francisco. E ele fala em torrente, porque é mais rio do que terra. E não é papel.[13]

Vontade de escrever sem escritas, sem letras. Torrente. Gaguejar no sentido de esgarçar de tal forma os dualismos que eles se des-com-sub-vertam em fios. Des-afiar. Lâminas.

“Os dualismo não se referem mais a unidades, e sim, escolhas sucessivas: você é um branco ou um negro, um homem ou uma mulher, um rico ou um pobre, etc.? […] Há sempre uma máquina binária que preside a distribuição dos papeis e que faz com que todas as respostas devam passar por questões pré-formadas, já que as questões são calculadas sobre as supostas repostas prováveis segundo as significações dominantes. Assim se constitui uma tal trama que tudo o que não passa pela trama não pode, materialmente ser ouvido” (DELEUZE; PARNET, p. 29, 1998).

Ritmos de sensações afi(n)adas com as águas, que também expulsam jacarés e pescadores para que cidades-trama se consolidem e justifiquem uma violência em expulsão de uma água que não pulsa em vida. Gestos mínimos, imperceptíveis, não insensíveis, em uma proposta junto ao pensamento de O’Sullivan (2009). Nesse texto o autor inicia sua discussão sobre uma relação entre as características da literatura menor, segundo Deluze e Guattari (1977), e a prática artística contemporânea. Queremos destacar para a (dis)tensão aqui trazida com os alagamentos e exageros de águas e escritas apresentadas, paradoxalmente, nesse texto escrito, a aproximação que O’Sullivan traz dessa prática artística com a característica de que a literatura menor – seu caráter especificamente coletivo. Para o autor, os artistas contemporâneos não realizam suas práticas para uma audiência já existentes, eles a invocam, não oferecem mais do mesmo, não produzem ‘conhecimento’, não oferecem um reconfortante espelho refletindo uma subjetividade já estabelecida. Seriam, então, um tipo de profetas traidores, “[…] na medida em que realizam uma traição em relação aos nossos regimes afetivos/significantes mais dominantes (isto é, a realidade consensual)” (2009, p. 248).

Trair enchentes de gentes ao redor da Lagoa? Ausência d’água de que é também excesso quando uma outra Lagoa torna um pescador sem rio para pescar o peixe? Escutar fios-letras-sensações. Trans-bordar. Bordar as bordas que margeiam as certezas na recognição para que as águas escorram. Ex-correr como as jacaroas faziam quando iam para os igarapés? Correntezas de pensamentos e cores e sprays e linhas. Ritmos-signos expressantes, desejantes de outras águas, cidades. Ocupações (im)prováveis. Águas-linhas-palavras na vontade de desprezar um reconfortante espelho, o vídeo Ochente[14]se insere em uma outra produção artística: um mural grafitado inspirado nessa inundação que nos trouxe o convite do Labjor (Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp) paraa participar de uma exposição-instalação disparada pelo tema “DESAPARECIMENTOS #cidades-limites#futuros-tangíveis#”[15] realizada em 2015, no MIS-Campinas. Tecido sobreposto em muro ou muro sobreposto ao tecido? Muro-rua?

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Apostas artísticas que escapam à ideia de recognicção, fixas significações, forçando fronteiras entre forma e conteúdo numa reivindicação dos espaços. Um movimento de emancipação traduzido por Rancière (2012, p.23) como “embaralhamento da fronteira entre os que agem e os que olham […]”. Arte que agita pensamentos e distorce ideias anunciadas. Que se querem tão certas. (Des)aparecimentos se agitam, re-existência que insiste, escorre viva, perfura chão. O que (des)aparece no sorriso do pescador das enchentes, no vídeo Ochente?

Oxe, respondemos.

Jacarés-Lucas da Feira-Otávio-Davi.

Enchentes, Ochente, pescadores, lagoas quase desaparecidas em Feira de Santana, para o surgimento de casas e comércios. Lagoa aparecida de Belo Monte, para o surgimento da produção de energia elétrica. Jacarés que escrevem. Davi decifra. Lucas da Feira reinventa-se nas linhas da HQ, perturba o consentimento de uma audiência/memória já existentes ao ser costurado no painel-muro. Elenise e Louise permitem-se, balbuciam por outros riscos (e correm outros riscos). Oxe, respondemos.

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Além da produção do painel pelos artistas grafiteiros Kbça, Coelho, Don Guto e Charles, exploramos ainda mais as possibilidades de riscos, costuras, fios contorcidos, exageros de cores, sensações, borrões que provocassem uma ausência do que esperar, do que explicar, do que significar na buscar pela ruptura com a política da representação. Outras artistas, como Louise Bastos, Milena Rodrigues e João Daniel, “Uma quebra do hábito de “fazer sentido”, de “ser humano” (grifos do autor, O’Sullivan, 2009, p.249). O autor, dessa vez, relaciona a gagueira da língua desde dentro da própria língua materna, uma das características da literatura menor com a pintura de Bacon para apresentar que esse balbuciar e essa gagueira provocariam um resingularização (no que se refere à uma reordenação dos elementos que provocam nossa singularização, nos termos de Guattari uma possibilidade de ressingularização (Guattari, 1995, p. 18). Um acontecimento-afectivo (O’Sullivan, 2009, p.249) a possibilitar que algo ocorra. Estar aberto ao impensável da singularidade da arte – o inumano – no sentido de entender, junto a Deleuze e Guattari (1992) que, para que a arte tenha uma mínima condição de existência seria criar sensações inumanas, “e como veremos, esta também é sua condição mínima para um ato de resistência estético” (ZEPKE, 2009, p. 180). Uma vontade que expressamos na apresentação do painel com o vídeo:

Uma inundação é anunciada na Feira: “ochente de notícias, manchetes, informações…”. Grafites, poemas, contos, desenhos, vídeos, tecidos, papéis, pixels são re-cortados, trans-portados, re-portados, trans-cortados por Lucas de Feira até o MIS, naquele mesmo primeiro andar. Aparecem as águas? Desaparecem os olhos d’água? Enchentes de sensações, angústias, certezas de um sertão que se acha tão certo em destruir… “Xo ver”, brada Lucas, quase duvidando deste delírio… Qual é a fonte? Questionam os pesquisadores! “A fonte do prato”, respondem os artistas… Aparecem os olhos d’água minando pelas ruas dessa Feira anunciada, uma cidade através do grafite, da poesia, dos desenhos que não estão propriamente nos muros, mas nos ‘rascunhos’ de ideias que estão sempre sendo re-novadas, re-cortadas, em uma re-existência ao desaparecimento… das águas?[16]

Imagens que racham o que se entende da cidade, provocações a extrapolar sentidos, proliferar sensações, (des)concertar o que parece tão certo. Riscos que propõem outros desenhos da cidade, traçados em suas arriscadas linhas. Riscar linhas? Possibilidades na/da cidade escritas pelo que escapa: águas e gentes e jacarés e lagoas e linhas e letras e gagueiras que resistem, insistem em aparecer, escorrer entre muros e asfaltos.

 

Bibliografia

BARROS, Manoel. Livro sobre nada. Rio de Janeiro: Record, 1996.

BRUM, Eliane. O pescador sem rio e sem letras. Disponível em: <http://brasil.elpais.com/brasil/2015/02/16/opinion/1424088764_226305.html>. Acesso em 04 de junho de 2015.

DELEUZE, Gilles. Diálogos. Trad. Eloisa Araújo Ribeiro, São Paulo: Escuta, 1998.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Felix. Kafka, por uma literatura menor. Trad. Júlio Castañon Guimarãres. Rio de Janeiro : Imago Editora, 1977.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Felix. O que é a filosofia? Trad. Bento Prado Jr.; Alberto Alonso Muñoz. Rio de Janeiro : Ed. 34, 1992.

DERRIDA, Jacques. Mémoires d`aveugle, L’autoportrait et autres ruines. Éditions de la réunion des musées nationaux, Paris: 1990.

Experts determine age of book ‘nobody can read’. Disponível em: < https://phys.org/news/2011-02-experts-age.html>. Acesso em: 04 de junho de 2015.

FELICIANI, Mário Rui. Quando o Carteiro Chegar. 1995. Disponível em: < http://www.mruifotos.com/quando.html>. Acesso em: 04 de junho de 2015.

KAFKA, Franz. O silêncio das sereias. Disponível em: < http://almanaque.folha.uol.com.br/kafka2.htm>. Acesso em: 04 de junho de 2015.

O’SULLIVAN, Simon. From Stuttering and Stammering to the Diagram: Deleuze, Bacon and Contemporary Art Practice. Deleuze Studies, Volume 3 Issue 2, Page 247-258, 2009.

RANCIÈRE, Jacques. O espectador emancipado. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.

ZEPKE, Stephen. Deleuze, Guattari and contemporary art. In HOLLAND, Eugene W.; SMITH, Daniel; STIVALE, Charles J. (Eds.) Gilles Deleuze: image and text. London : Continuum, 2009.

Vídeos

Ochente. Direção: Elenise Andrade. Produção: Louise Mara. Experimentação Visual, 3’08’’. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=3rhcpI2UGT4. Acesso em: 10 de janeiro de 2016.

Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=UAaRC1tjgvk

Disponível em http://www.acordacidade.com.br/noticias/148315/jacares-atraem-curiosos-na-lagoa-grande.html

O pescador sem rio e sem letras, de Eliane Brum. Fonte: <http://brasil.elpais.com/brasil/2015/02/16/opinion/1424088764_226305.html >. Acesso em 04 de junho de 2015.

 


[1]Professora titular do Departamento de Educação da Universidade Estadual de Feira de Santana. Professora do Mestrado em Educação do mesmo departamento. Email: elenise@uefs.br

[2]Bacharel em Comunicação Social, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual de Feira de Santana. Bolsista Fapesb. Email: louisemara@gmail.com

[3]Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=UAaRC1tjgvk

[4]Disponível em http://www.acordacidade.com.br/noticias/148315/jacares-atraem-curiosos-na-lagoa-grande.htm

[5]O pescador sem rio e sem letras, de Eliane Brum. Fonte: <http://brasil.elpais.com/brasil/2015/02/16/opinion/1424088764_226305.html >. Acesso em 04 de junho de 2015.

[6]Adjetivação proposta no artigo disponível em: <http://phys.org/news/2011-02-experts-age.html>

[7]Mais informações sobre o manuscrito em <http://brbl-dl.library.yale.edu/vufind/Record/3519597>, incluindo a possibilidade do material para download. Acesso em 04 de junho de 2015.

[8]Conto: O silêncio das sereias. Disponível em <http://www1.folha.uol.com.br/folha/almanaque/kafka2.htm>. Acesso em 04 de junho de 2015.

[9]Algumas fotos disponíveis em <http://www.mruifotos.com/quando.html>. Acesso em 04 de junho de 2015.

[10]Disponível em http://www.acordacidade.com.br/noticias/153972/jacare-aparece-na-porta-de-residencia-em-feira-de-santana.html

[11]Disponível em http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2016/12/28/chuva-em-manaus-causa-desabamentos-deixa-desabrigados-e-traz-jacares-a-rua.htm

[12]Mémoires d`aveugle. L’autoportrait et autres ruines, éditions de la réunion des musées nationaux, Paris: 1990, p 11, postado na timeline de Daniel Lins, facebook, pelo próprio Daniel Lins, em 28/05/15.

[13]O pescador sem rio e sem letras, de Eliane Brum. Fonte: <http://brasil.elpais.com/brasil/2015/02/16/opinion/1424088764_226305.html >. Acesso em 04 de junho de 2015.

[14]Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=3rhcpI2UGT4&feature=youtu.be

[15]O convite, presente no cartaz da exposição: “Após uma longa seca, com as chuvas de março, o MIS-Campinas foi inundado de notícias. Uma verdadeira enxurrada de manchetes, opiniões, informações… invadiu o museu. O fenômeno resulta de uma espécie de reação automática, de resposta natural, ao desaparecimento (da água, dos peixes, dos pássaros, da sensibilidade, da política…). Depois que as notícias vazaram surgiu “Aparições”, uma cidade de papel (papel jornal, revista, papel-tela-do-cinema, papel-fotogra­fia, papel-tela-do-computador, papel-pintura…), inventada por diversas ocupações que artistas, coletivos e pesquisadores criam ao enfrentar o que podem as imagens, palavras e sons diante da violência do desaparecimento desde dentro das lógicas dominantes arquivistas, que atravessam ciências, artes e comunicações. Ocupações aberrantes em busca de expressão das potências da gramática de criação, em que imagens-palavras e sons são expostas às forças de futuros abertos e recombinantes.” Disponível em https://www.fe.unicamp.br/servicos/eventos/2015/cartaz_aparicoes_expo_resumos.pdf

[16]Disponível em: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/?p=2591


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