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ClimaCom Cultura Científica - pesquisa, jornalismo e arte | ano 02 - volume 02


Cartas entre Areias do Imperador

Erica Speglich[1]

Elenise Andrade[2]

 

Piracicaba, 16 de abril de 2017.

Querida Nise!

Parei o feriado para lembrar do livro lido sem pretensão de escrita sobre ele. Até achava que iria encontrá-lo em alguma das estantes da família, eu e meu hábito de distribuir os livros que gosto às pessoas que gosto… mas não encontrei. Não encontrei também lembrança alguma sobre areias e sobre imperadores.

Em minha (reconhecidíssima por sua névoa) memória restaram o sal, o mar, a mãe que dança, o barco, o rio, um português e uma (ou algumas?) galinhas. E deslocamentos. Deslocamento de gente da beira mar para dentro do sertão seco, com uma saudade da água, do barco e de poder fugir para o mar e não para a terra seca.

Morando (como nós duas) em sertões secos (seja por localização, seja por excesso de cana de açúcar, seja por desvios de rios) , compreendo perfeitamente a vontade de água, a boca que mexe em busca da sensação úmida do ar.
Deslocamento de gente que vem (sem nunca chegar) do outro lado do mundo para habitar um espaço seco – de memória, de vida, de água. Especialmente quando se está sem querer estar e a querer voltar. Deslocamento de mãe que insiste em dançar, que repetidamente seca as águas até formar sal, na tentativa de voltar a ser mar.

De repente chegam também uns ingleses na névoa da memória. Arrastando multidões? Ou para arrastar multidões afora deixando os espaços vazios? As pessoas deslocadas?

E, afinal, as galinhas? Elas habitam o livro?

Beijos,

Érica

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Piracicaba, 19 de abril de 2017.

Nisoca!

Acho que já tem para lá de 20 anos que não recebia uma carta colorida!

Aqui em Piracicaba alcançamos uns 5 sóis no verão e uns 2 no inverno. O que dói no inverno é o deserto que se forma com a colheita da cana. Eu bem preferia uma mata fechada, ou que fosse um cerrado aberto (muito mais do que mar), mas por aqui só temos esse verde que de tão doce junta moscas. E clima é bem dependente da quantidade de cana de açúcar em volta. Bem mais do que dos sóis e, especialmente, bem mais do que do rio (aquele dos olhos de alguém que chora).

Tem um outro clima nesse livro, um de suspensão da respiração. Só dentro do rio é que se respira, naquela hora que se afundam os ouvidos e o mundo some, para ficar a correnteza, o fluxo, a água. Mergulhar para respirar.

E o avô… como eu pude esquecer do avô? Que foi para as minas e nunca mais voltou. Para alguns estava morto. Para outros estava em amores com um homem. Para a avó era sinônimo. Para a neta era sonho.

Beijos,

Érica

OBS: tinham umas galinhas que moravam com o português expatriado. Ou eram pombas?

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Recebido em: 1/01/2017

Aceito em: 1/03/2017

 


[1] Doutora em Educação e pesquisadora colaboradora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

[2] Doutora em Educação e professora da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs).