ANO 04 - N08 - "Cartas e Cataclismas" ISSN 2359-4705

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Andanças des(fo)cadas, (re)color-indo espaços e tempos outros


Lucas da Silva Santos [1]

 

Em meio à proposta deste dossiê em “cartas cataclismas”, e por meio desses cartões-postais que aqui se apresentaram, desfocados, no chão, iluminados, sem destino, pretendemos a partícula des… Buscar, através de fotografias em preto e branco, (re)colorir passos e relações político-sócio-ambientais com espaços que são vivenciados a partir do que uma política maior imprime, no sentido deleuziano desse conceito. O movimento proposto nesse diálogo, de re-colorir, juntamente com as fotografias desfocadas, tem o intuito de tentar não acompanhar os clichês fotográficos do que se conhece sobre a cidade. Então, esses passos construídos vão sendo (des)focalizados para outras visualidades, de uma cidade (des)percebida no dia-a-dia.

Exposto a tantos postais e na perspectiva do des para causar o enquadramento, as propostas aqui apresentadas para ser cartões-postais são produções dos alunos[2] do 7º ano do Colégio Estadual Professor Maria José de Lima Silveira, situado no bairro do São José, distrito de Maria Quitéria, Feira de Santana, Bahia. Junto aos alunos, inicialmente, para incentivar o movimento criativo, ocorreu uma breve apresentação do projeto com uma sequência de fotografias feitas por mim, ordenadas segundo a data. Fotografias que foram registradas em dois pontos do canteiro central da Avenida Getúlio Vargas, que, atualmente, está passando por um processo de modificação para a implantação do BRT[3], no cruzamento com a Rua Castro Alves, no centro de Feira de Santana/BA. As fotografias foram tiradas sempre do mesmo ponto e registradas duas sequências, totalizando trinta imagens: quinze no mesmo local, ponto 1, com o enquadramento sendo o prédio da Prefeitura, enquanto as outras quinze foram obtidas do outro lado do cruzamento, ponto 2, sentido contrário à Prefeitura [4].

Cada uma das fotografias dos grupos que são apresentadas nesse texto, expõe uma forma de analisar o que eles entendem por enquadramento. Pode-se ver fotografias em modo “retrato” ou “paisagem”, movimento talvez provocado pela ânsia da experimentação, é possível notar também a fuga do enquadramento, a presença de alguns objetos, pessoas, a utilização de um programa de edição (Bestime) pelo grupo 4 e, por fim, uma fotografia (des)focada (grupo 3), que vem para expressar a fuga de padrões e para “brincar” com a câmera.

Seguindo com o movimento criativo nota-se, com as fotografias produzidas pelos alunos, um pensar livre, que acaba provocando o movimento des, enquadrando os olhares, as câmeras, fugindo literalmente das regras pré-estabelecidas. Proposta baseada no filme Cortina de Fumaça[5], onde um dos principais personagens mantém uma câmera no mesmo lugar, tirando fotografias do mesmo ponto todos os dias, podendo-se perceber mudanças temporais (chuva, sol, nublado), passos (pessoas a andarilhar pelas ruas) e variações de dia (domingo, segunda…).

Proponho nesse texto dialogar com Hur (2012), que discute sobre uma temporalidade linear (objetiva) e segmentar, que trata particularmente de relembrar acontecimentos ou marcar algo para uma data/tempo futuro. Num senso cotidiano, de nossas percepções, o tempo linear estaria basicamente dividido em passado, presente e futuro, que estão entrelaçados, um em função do outro. Para afirmar, Hur (2012, p. 180) menciona que “[…] É a forma comum de pensar o tempo e que é transmitida na escola e na sociedade, é o tempo sob a égide de Cronos, o titã que devora seus filhos, o tempo contido exteriormente e que marca corpo, rotinas e hábitos das pessoas”.

Contrariando essa ideia de tempo objetivo, nos propusemos a dialogar com a ideia deleuziana, que traz o conceito de duração a partir de Bergson. Apostamos que, para essa pesquisa, tenha muita importância abordar sobre qual a concepção de tempo que se aproximaria de um período mais intensivo, que é aquele que pode ser presenciado/vivido, o tempo das emoções, das intensidades, devires, tempo que estaria desgrudado do cronologicamente correto, o tempo linear. Deleuze (1999) compreende esse tempo como pulos, acelerações, rupturas e diminuições de velocidade.

Essa duração, a partir da concepção deleuziana, é perceptível nas fotografias a partir do momento em que, de alguma forma, temos estados instantâneos de espaço guardados, com isso as fotografias produzidas são dadas junto ao movimento de justapor a um espaço que Deleuze (1999) define como “auxiliar”. Assim, é necessário que esse tempo seja dividido em partes, para que se torne um “tempo homogêneo, um tal misto”, que deve ser dividido em duas direções, onde uma é a duração, que se apresenta como o lado bom do “misto”, ao passo que o outro lado como um erro, a impureza, que distorce o significado do que seja espaço.

Espaço “auxiliar” que permitiu andarilhar pelas/nas fotografias aqui apresentadas, o mesmo espaço incitou a ideia que permeia essa análise, que está pautada em apresentar os estados instantâneos, ou seja, as fotografias dos alunos, na condição de enunciar uma nova expressão, indo contra os clichês fotográficos e, principalmente, sobre os cartões-postais estabelecidos, ou que só remetem ao centro da cidade. Assim a “impureza” vem no intuito de distorcer o que seria o espaço politicamente correto.

 

lucas fotografia grupo 1

Relacionando esses pontos com a proposta de tornar a praça do São José um novo cartão-postal, percebe-se uma mudança nos enquadramentos, que são instantaneamente o lado bom do misto. Novos enquadramentos com percepções, passos curtos, tempos (im)perceptíveis. Mudaram-se as possibilidades de entender que desenquadrar também pode ser um enquadramento. Enquadramento como uma nova reprodução da praça do São José, no sentido de (re)significação, a partir do momento em que a praça é fotografada pelas pessoas que vivenciam o espaço.

As fotografias a seguir, são as “experimentações criativas” e também fazem parte do trabalho realizado pelos alunos na praça do bairro. A turma foi dividida em quatro grupos, com o intuito de que todos participassem na realização das fotografias, seleção dos espaços a serem fotografados, bem como para ter outros olhares/percepções sobre o local.

Que tempo se relaciona a essas imagens? Quais memórias atra-VERSAM esses novos cartões-postais? Nessa perspectiva, um dos objetivos desta pesquisa é discutir a cidade e as imagens, mais especificamente o diálogo sobre a exclusão dos espaços marginalizados e o porquê do protagonismo apenas do centro da cidade no programa Google Earth [6], e as fotografias tem o propósito de fazer com que a praça do São José se torne um novo cartão-postal de Feira de Santana.

 

Experimentações criativas

A fotografia foi registrada, registro a permitir poetizar os olhares para experimentar (des)enquadrá-los. Na proposta do convite des, para compor o enquadramento, expressões da cidade em experimentação através das imagens, saindo da representação, potencializando a pluralidade do diálogo, conectado com a perspectiva de educação ambiental e fotografia em uma tensão que, nesses postais, os olhares adentram em territórios desconhecidos, propiciando aos alunos uma atuação (re)criativa a partir do momento em que experimentam realizar as fotografias e mostrar uma outra Praça do São José.

Com essa atuação (re)criativa, vale ressaltar que a fotografia acaba provocando encontros onde o que predomina são os olhares, a observação feita sobre o ambiente. Com isso é possível gerar a “brincadeira” com a câmera, a fotografia em modo “paisagem” ou no modo “retrato” (fotografia do grupo 1), mas que enquadramento é esse? Uma possível resposta seria um debate acerca das possibilidades de expressão e criação que a fotografia pode proporcionar aos alunos, ou seja, (re)criação de um tempo vivido, presenciado por eles, protagonistas na Praça do São José.

 

lucas fotografia grupo 2

Ainda no movimento de desenquadrar e com o intuito de possibilitar uma liberdade para outras Feiras, o desconhecido/esquecido, que não remete apenas ao centro ou a determinado monumento/cartão-postal/clichê, mas aqui, acolá, nas praças periféricas, que na maioria dos casos são despercebidas, estas que irão (re)compor os novos cartões-postais, que nos “convidam para um gesto de criação movido pela potência efêmera das palavras e das imagens da contemporaneidade” (WUNDER; ROMAGUERA, 2014, p. 44). Imagens repetidas, no mesmo local e hora, será que a praça modifica-se ao longo do tempo?

Respondendo à pergunta anterior e relacionando-a com o “gesto de criação” dos alunos, percebe-se que, com as fotografias, a praça se movimenta a todo instante: as nuvens que andarilham, as sombras, o dia nublado, a presença de algumas pessoas andando na praça, dos estudantes conversando com a professora. Esses gestos presentes nas fotografias propiciam o “gesto de criação” juntamente com o ato de vivenciar o ambiente, na perspectiva do tempo de Aion.

Esse tempo de Aion se faz presente nas fotografias, gerando uma potência das/nas imagens, possibilitando que os alunos possam andarilhar no espaço criativo, como uma fuga dos clichês fotográficos, dos mesmos enquadramentos, e a lente da câmera, assim como o olhar do fotógrafo, apresenta-se como uma magia, e esta “magia da lente está na sua capacidade de suspender o instante, de mostrar aquilo que está submerso e que necessita ser revelado socialmente” (WUNDER, 2009, p.4): uma nova Praça do São José que, com as fotografias, focaliza o descentralizado de Feira de Santana, com novos olhares, novas percepções.

Acompanhando essa postura, Wunder (2009) traz elementos significativos que tomo como ponto de partida para discutir a pesquisa no campo educacional, afirmando que a fotografia pode ser pensada e observada de várias formas e, no espaço escolar, não poderia ser diferente, vindo como “narrativas de histórias, afirmação de identidades e como uma forma de apresentar/expressar as representações sociais” (p. 3), porém a autora, assim como essa pesquisa, tem como principal objetivo/aposta, tratar sobre o ato de criação, que está estritamente relacionado com o tempo vivido.

Dessa forma, as fotografias aqui apresentadas podem ser pensadas como uma forma de apresentar o mundo sob os pensamentos e sensações de cada pessoa em seu mundo sócio-cultural, trazendo uma ideia de novas expressões ou até mesmo a inserção de novas discussões ambientais, políticas e principalmente sociais, que nesse projeto é a questão dos espaços marginalizados de Feira de Santana.

lucas fotografia grupo 3Ao deparar-se com as fotografias do grupo três, vale conversar com o trabalho desenvolvido por Guimarães e Preve (2002) que apresenta um potencial para discutirmos educação ambiental atrelada às relações entre imagem, educação e ambiente, permitindo-nos “andar” entre, sobre e com as imagens. Uma das propostas dos autores é a questão da colonização da imagem e o diálogo com elas, que, atrelada às fotografias dos alunos, provoca o olhar sobre uma Praça do São José que permanece desconhecida, “invisível”, um lado da praça que tem potencial para compor/ser um cartão-postal da cidade.

Deslocamento é o que pode ser mencionado sobre as fotografias, deslocamento que andarilha sobre o desconhecido da Feira de Santana, que vem para enfraquecer os cartões-postais clichês a partir de um movimento, um pensar em educação ambiental que influencie no des para provocar o enquadramento, uma nova visão sobre a cidade e principalmente no que diz respeito às relações socioambientais.

Com isso apostamos em outras formas de pensar o ambiente, bem como em nossas relações socioambientais, que sofrem influência principalmente dos clichês e das representações de determinado local que, neste caso, é a cidade de Feira de Santana. Partindo desse pressuposto, Guimarães e Preve (2002) trazem algumas perguntas, dentre as quais: “como seria possível uma mesma imagem incitar modos distintos de ver?” Uma possível resposta para esse questionamento seria que podemos pensar, como resultado dessa pesquisa, em práticas pedagógicas que incitem outros pensares, fugir do que seja apenas perceptível aos olhos ou sensações, uma educação ambiental que vise outros significados sobre o mundo, sobre as vivências.

Continuando com os autores quando afirmam que “talvez nossas práticas pedagógicas necessitem exercitar deslocamentos não apenas na imagem, mas nos nossos focos” (GUIMARÃES; PREVE, 2002). Dessa forma, pode-se observar as fotografias do grupo três e as dos demais grupos como um terreno que pode ser semeado, e as práticas pedagógicas se apresentam como um caminho que possibilita andarilhar por percursos marcados pelos clichês, na tentativa de remodelar esses lugares “esquecidos”, possibilitando a (re)criação de novos ambientes, novas trilhas que podem ser percorridas pelos alunos. Despercorrer…

lucas fotografia grupo 4

Despercorrendo sobre o conceito de natureza que semeamos, é válido investigar o trabalho feito por Pereira e Favero (2014), onde as autoras traçam um sentimento advindo das artes sobre a natureza e como este está presente na humanidade desde os primórdios, passando pela industrialização, tendo como consequência sua devastação. Posteriormente, acontece o que as autoras consideram uma “estetização do olhar” e o pensamento conservacionista, movimentos que influenciaram na relação entre artistas-natureza-arte-sociedade, visto que este olhar/pensamento tem relação direta com uma construção de relações com o ambiente.

Os artistas (alunos) com as fotografias e com seu ato criativo atra-VERSAM os clichês e o centro da cidade com novos cartões-postais, Praça do São José em Feira de Santana. O movimento des possibilitou o ir de encontro com as fotografias e o movimento de expressão que elas proporcionaram aos alunos, atuantes e (re)criativos.

 

 

Bibliografia

DELEUZE, Gilles, 1925-1995. Bergsonismo / Gilles Deleuze; tradução deLuiz B. L. Orlandi. São Paulo: Ed. 34, 1999

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Kafka: para uma literatura menor. Tradução Rafael Godinho. Ed. 0789, 2003.

GUIMARÃES, Leandro Belinaso; PREVE, Ana Maria Hoepers. Fotografias de deslocamentos no ambiente: fugas em uma prática educativa, IX ANPED SUL, 2012.

HUR, Domenico Uhng (2013). Memória e tempo em Deleuze: multiplicidade e produção. Athenea Digital, 13(2): 179-190.

PEREIRA, Juliana Cristina; FAVERO, Franciele. A experiência na paisagem: a vivência estética, o sublime e o menor, Textura Canoas n.30 p.107-123 jan./abr. 2014.

WUNDER, Alik; ROMAGUERA, A. Experimentações coletivas por entre poesias, fotografias e ventos-áfricas. Informática na Educação (Online), v. 17, p. 31-45, 2014.

WUNDER, Alik. Uma Educação Visual por entre Literatura, Fotografia e Filosofia. Políticas Educativas, v. 3, p. 65-78, 2009.

Recebido em: 15/12/2016

Aceito em: 13/03/2017


[1] Graduando em Ciências Biológicas na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

[2] Foram realizados três encontros com a turma, com o apoio da professora. Os encontros aconteceram nos dias 9 e 15 de agosto, quando nos dedicamos, respectivamente, à exibição do filme Cortina de Fumaça e do Google Earth. Dia 23 de agosto explicamos o trabalho com as fotografias e iniciamos a produção das primeiras fotografias.

[3] BRT – Bus Rapid Transit é um sistema de transporte de ônibus que proporciona mobilidade urbana rápida, confortável e com custo eficiente, através da provisão de infraestrutura segregada com prioridade de passagem, operação rápida e frequente e excelência em marketing e serviço ao usuário. Disponível em < http://www.feiradesantana.ba.gov.br/seplan/arq/Projeto_Sistema_BRT.pdf >Acesso em 28 de Março de 2016.

[4] Projeto de pesquisa “Novos ventos, cartões-postais Feiras de Santana”. UEFS, Edital PIBIC-AF/CNPq – Nº 002/2016.

[5] Comédia dramática dirigida por Wayne Wang, 1995. O filme se passa no Brooklin, Nova York, verão de 1990 e tem como personagens principais Auggie (Harvey Keitel) e Paul (William Hurt), pessoas diferentes que são ligadas pelo hábito peculiar de Auggie: registrar uma fotografia no mesmo lugar e hora, defronte a sua tabacaria, mantendo o mesmo enquadramento.

[6] Aplicativo de mapas gerido pelo Google apresenta-se em três dimensões, permitindo que o usuário possa ter uma percepção virtual sobre qualquer lugar do planeta a partir do modo Street View – andar por ruas, com imagens capturadas por satélites. Fonte: <http://www.techtudo.com.br/tudo-sobre/google-earth.html>. Acesso em 10 de Março de 2017.

Andanças des(fo)cadas, (re)color-indo espaços e tempos outros

 

 

RESUMO: Em meio à proposta do dossiê “Cartas e cataclismas”, e por meio de cartas postais – criadas numa perspectiva de educação ambiental – desfocadas, no chão, iluminadas, sem destino, busca-se, através de fotografias em preto e branco, (re)colorir passos e relações político-socioambientais nos espaços que são vivenciados a partir do que uma política maior imprime.

PALAVRAS-CHAVE: Fotografia. Educação ambiental. Filosofia da diferença.

 


 

Blurred and evanescent landscapes, recoloring spaces and other times

 

 

ABSTRACT: Considering the proposal of this ClimaCom’s dossier and by means of postal letters – created from an environmental education perspective – unfocused, on the ground, with no destination, it is sought, through photographs, (re) coloring the steps and the political-socio- environmental relations in spaces that are experienced from what a larger politics prints.

KEYWORDS: Image. Education. Philosophy.