ANO 03 - N07 - "Incerteza"ANO 04 - N08 - "Cartas e Cataclismas" ISSN 2359-4705

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Relatos sobre ecologias ruidosas dos infernos na carta de um licantropo a Satã


Rodrigo Barchi [1]

 

 

Falar no fim do mundo é falar na necessidade de imaginar, antes que um novo mundo em lugar deste nosso mundo presente, um novo povo: o povo que falta. Um povo que creia no mundo que ele deverá criar com o que de mundo nós deixamos a ele. (Eduardo Viveiros de Castro)

The darkness will replace day! Eyes with blood and heart will knock! Your appearance will be replaced by the wolf skin Symbol of freedom you will be embodied!!! (Ao som de Dehidrated…)

Nas mais belas noites de lua cheia, em um outono das selvas tropicais atlânticas…

 

 

Cara(o) Mestra(a) suprema(o) das trevas.

Senhor(a) das superfícies lúgubres e infernais.

Princesa/príncipe da luz da manhã.

Como você está?

Há muito tempo precisava lhe escrever.

Escrever para ti é como se fosse escrever para mim mesmo.

Talvez seja…

Por isso a velha problemática em saber o endereço do destinatário. Mas resolvo isso depois…

Naquela primeira carta, escrita há mais de 20 anos, a qual não quero tornar pública – cujo teor, portanto, ficará somente entre nós – estava entorpecido de loucura e ira, pois recusava a aceitar a condição monstruosa, mestiça e marginal à qual fui condenado. Peço até desculpas por acusar-te injustamente de tal situação. Sei que não foi intencional de sua parte, e que não há culpa, necessariamente, nas formas que tomamos em nossos processos constitutivos.

Mas eu acreditei por algum tempo, como você sabe muito bem, que caminhávamos literalmente, todos e todas, para um mesmo caminho, e que, de um modo ou outro, acabaríamos encontrando uma mesma solução para nos salvarmos daquilo que nos impuseram como pecado, como inferno das profundezas, do sofrimento eterno. Ou no mínimo, de um final, em nossa condição orgânica, dos mais tenebrosos e agourentos.

Aliás, o que mais sobra por aqui é a torcida por uma arrastada existência moribunda…

Sempre as mesmas falsas promessas baseadas nas malditas dicotomias e dialéticas retrógradas, e o diabo a quatro (desculpe o trocadilho…) que Platão inventou em busca das perfeições. O perfeito e o imperfeito, o verdadeiro e o falso, a ideia e o mundano. Como se essas distinções, em minha condição, ainda me fossem necessárias.

Na verdade, te acusei de ter me desviado de um caminho que me haviam sugerido como bom, e que aparentava ser amplamente a forma mais exata para encontrar uma eternidade que se mostra potencialmente sedutora, lúdica e idílica. Afinal de contas, ela é exatamente tudo aquilo que não temos. Aliás, de tudo aquilo que nos fizeram acreditar que nós não temos…

Te acusei de me fazer sofrer.

De me desviar da “verdade”.

E da minha inconformidade, de minha deformidade… ter me trans-formado…

Minha condição monstruosa, nos últimos dias, não vem causando as dores horríveis – mais no espírito que no corpo em si, e ainda agradeço não sofrer o que o caro Nietzsche sofreu – que vem e voltam constantemente, e minhas condições laborais, mentais e físicas me dão um entusiasmo na alma, exigindo que lhe relatasse algumas novidades. Alma que, apesar de condenada eternamente por minha mestiçagem ferina, vem caminhando feliz. Ela sabe que não está mais presa aos suplícios que tanto a fizeram sofrer enquanto temia o que as trevas poderiam lhe fazer.

Minha empolgação é esporádica, fluida e passageira. Ela alterna-se a momentos de extrema fúria, de máxima desilusão, e irrecuperável desesperança. No entanto, em nenhum desses momentos ela é atravessada pelo niilismo fugaz das contingências contemporâneas, o amor infértil dos humanos “puros” por suas invenções soníferas e fascistas das univocidades histéricas. Esse niilismo dos outros é o que justamente me impõe a alternância entre os momentos felizes e as situações de profundo pesar.

Quem estiver lendo essa carta – a qual resolvi tornar pública, espero que não lhe chateie – irá se perguntar os motivos pelos quais preciso lhe escrever. A superstição não nos diz que, assim como o demiurgo cristão, você não é capaz de saber tudo o que pensamos? Aliás, de nos conduzir para o outro lado, dominando nossas mentes e nossas ações, tirando de nossos corpos nossa “alma iluminada e perfeita” para impor espíritos malignos que nos fazem sofrer e causar dor aos outros?

No meu caso, a situação, de acordo com a superstição, a maldição é ainda maior, pois não sou mais que um mero “leão de chácara” dos territórios infernais, o qual defende a força das trevas ao levar o terror e a violência às pobres pessoas normais, cristãs, justas, de bem. Sou tido por aqui como uma das piores aberrações já criadas por sua força, já que minha condição entre humano e lobo faz de minha aparência, ao senso comum, monstruosa, terrível, apavorante. Mesmo sendo tão imponente e poderosa, e para alguns, magnificamente sedutora.

Desde que fui tocado por sua maldição, ao tomar contato com outros mestiços e mestiças, me vi encurralado sob uma condição absurdamente marginal. Marginal ao lobo, marginal ao humano. Estou em um plano no qual a ciência não pode me considerar nem um animal selvagem, nem como um humano. Para a religião, nunca deixarei de ser seu discípulo, herdeiro, lacaio e soldado. Se ao menos buscassem entender que nossa relação não é hierárquica e fascista, mas autônoma e solidária…

Sim, a ciência não pode me classificar. Pelo menos a ciência moderna, a qual Prigogine e Stengers (1997) consideram como responsável pelo desencantamento do mundo, não pode me “taxonomizar”, etiquetar. A não ser como anormalidade a ser corrigida, como deformação a ser moldada, sob o risco de ser confinado em uma jaula de segurança máxima para exibição pública, ou de me refugiar nos confins das cada vez mais escassas matas virgens.

Mas, pior do que a nefasta difamação da religião e da ciência (certas religiões e ciências), são as calúnias que a política institucionalizada hobbesiana constantemente faz do meu ser, e de meus parceiros mestiços. Nela, o lobo selvagem é um ser nefasto, preocupado única e exclusivamente com sua sobrevivência e suas presas, cujo objetivo é sempre a próxima carnificina. E o humano só pode ser humano se estiver protegido, assegurado, vigiado e controlado pela instituição estatal.

Mentiras, mentiras, e mais mentiras…

Difamam o lobo ao acusá-lo de ser um delinquente, um assassino, malévolo por natureza, carniceiro por prazer. O lobo atravessa a história da filosofia moderna e contemporânea sendo amplamente vilipendiado em sua imagem, em seus direitos, e em seu encanto. Os lobos, como sabe muito bem, Lúcifer, são de um esplendor sem igual, principalmente em suas práticas coletivas.

Ah, que sublime parentesco…

As alcateias, posicionadas de modo a proteger os mais velhos, que ditam o ritmo da caminhada do grupo ao andar no primeiro escalão, enquanto os mais jovens e fortes estão espalhados, de forma a impedir quaisquer perigos às fêmeas prenhas e aos filhotes. O sentido de grupo, de bando, de autonomia e proteção são muito mais inerentes aos aspectos coletivos e individuais do lobo, do que propriamente sua violência e qualquer forma de barbárie.

A difamação ao ser humano é ainda maior, pois acusam sua natureza de ser lupina, em uma imagem distorcida e falsa do que é ser o lobo. Humano como naturalmente mau, perverso, egoísta e barbárico. Imagem que condena, cada vez mais, a espécie humana à escravidão das burocracias estatais, das normalidades pseudo-inclusivas e da vigilância hierarquizante, classificatória e disciplinarizante, como Foucault (2001) tão bem elucidou.

O que sou, portanto, como licantropo? Uma soma das falsas bestialidades humanas e lupinas? Uma má potencialização daquilo tido como terror, medo e monstruoso? Sou acusado de violência em estado puro, e sequer capaz de me defender perante esses ditadores das adjetivações alheias, pois não querem me dar direito à palavra, ao som, ao diálogo. Estou fora dos dois campos, já diria Agamben (2002).

Mas estou submetido a uma violência que me impede de exercer uma condição bifronte, ambivalente e múltipla, em nome de uma uniformidade e de uma determinada paz, da qual me acusam de ser o principal inimigo.

Eu? Como assim?

De onde vem a ideia que me transformo somente em noite de lua cheia? Sim, claro, adoro e faço questão de ritualizá-la e cantar para ela, sem necessariamente dá-la um ar esotérico, transcendental ou místico. Pelo menos não o misticismo negativo dado pela cultura ocidental. Aliás, ahahah… Se eu fosse a violência pura que me acusam de ser, eu estaria cobrando propinas dos outros licantropos mais desavisados para dar significados proféticos fantasiosos sobre a condição lunar. O problema é que não há licantropos desavisados, como existem humanos, que pagam para serem dominados, enganados e roubados pelos profetas da verdade. Nós somos autônomos, e significamos a Lua como quisermos. Apenas nos recusamos a não cantar ou não dançar para ela quando ela se mostra imponente para nós.

Minha trans-formação é constante, diária, cotidiana. Há dias em que há maior intensidade, e a vibração parece tão potente que acredito que acabarei me perdendo de mim mesmo, e nunca mais recuperarei minha forma que achei que tivesse um dia. Aliás, conforme o tempo passa, pareço muito mais uma mistura de bode com lobo, do que propriamente um lobis-homem, já que a longa barba branca que cresce sob meu maxilar e a casca que se desenvolve em minhas patas devido às minhas constantes andanças me impõe essa aparência cada vez mais bizarra. Há dias em que pareço estagnado, e nem meus pelos parecem crescer ou se trocar. Se eu tivesse os córneos monstruosos das inúmeras representações que fazem de ti, a monstruosidade estaria perfeita. Lupis capra é nossa parceria infernal.

Só que há dias enfadonhos, tediosos, nos quais não consigo ser nem trans, nem formativo, pois cada vez mais me deixo enganar pela possibilidade de criar outros lobisomens, dentro de uma ordem instituída na qual não posso morder meus futuros licantropozinhos… Como que poderei trans-formá-los(las) sem a mordida, sem a dor, sem o pânico inicial causado pela mudança e pelo abandono do estado de conforto da socialização humana?

Caramba, Artaud e Deleuze, cada um ao seu modo, sugeriam o espanto e o susto (teatral, estético e filosófico) como as únicas formas capazes de propiciar a criação de pensamento e (contra)cultura, fazendo as pessoas saírem de sua letargia (e das verdades medonhas da unidade teísta), e aí me obrigam a trans-formar os humanos sem causar-lhes estragos e espantos?

Como você trans-forma sem impactar, sem dessubjetivar, sem desterritorializar, sem molestar as boas formas, a boa conduta, a fé pastoral e a utopia cristalizada do paraíso mórbido das frugalidades monoteístas? Tá, eu sei que há um processo mais longo, e que preciso estudar melhor as futuras “vítimas” trans-formáveis, as quais precisam aceitar ou não esta mudança. Também sei que só se mudam as coisas através dos pactos (os nossos, muito além do que Rousseau sugeriu), e que as pessoas precisam entregar suas almas às possibilidades de modificação.

Mas cara, a gente precisa agilizar, pois minha raiva está crescendo, e meus desejos de desconstrução estão rapidamente se tornando em sede destrutiva. Sangue pelo sangue, vingança pura e sem retorno. Ou seja, minha condição licantrópica está se esvaindo, e me torno cada vez mais “humano, demasiado humano” a cada dia que passa.

Não quero! Estou me sentindo cada vez mais morto em vida, e daqui a pouco a imagem falsa ao meu respeito – ou seja, do licantropo exclusivamente demente, descontrolado, pura desordem – pode ganhar corpo…

Além disso, estamos perdendo terreno, território, ambiente e espaços de luta. O número de lobisomens diminui cada vez mais, pois muitos estão sendo capturados e cooptados pela humanidade. Eles estão sendo facilmente dragáveis tanto pelo medo (sim, medo), quanto pela comodidade, quanto pelo abandono de nossos valores comuns e coletivos.

Não dá!

Principalmente agora que estamos a ponto de perder quase tudo.

E não me chame de dramático ou apocalíptico. Fui por muito tempo ponderado (mesmo sendo crítico) e a coisa só piora.

Vamos esperar a bomba atômica? Vamos ser derretidos aos poucos pela chuva ácida (eu ainda estimo meus pelos)? Cozidos, fritos, assados? Vamos permitir que nossas ecologias sociais e subjetivas sejam engolidas pelos fascismos contemporâneos, os quais utilizam a própria ecologia para destruí-la?

Que porcaria de ecologia é esse que esses indivíduos criaram? Essas porcarias de normas de boas condutas, até onde sei, são só boas condutas? Como tem coragem de falar que o ato fechar a torneira para escovar o dente pode ser considerado como prática ecológica? Aliás, as pérolas que soltam me doem a boca do estômago:

“Não gaste água no banho e na torneira! Você não tem direito de gastar a água privatizável dessa forma!”

“Recicle as latinhas! Mas não deixe de consumir esse tóxico e destruir seu organismo!”

“Não molhe a calçada! Morra de rinite, sinusite, bronquite, asma crônica e câncer de pulmão ao aspirar a poeira, mas não gaste a água do boi do agronegócio!”

“Salve a Amazônia! Mas nunca conteste seu carnivorismo necrófago, responsável direta pelo extermínio da floresta!”

“Não alimente os pombos! Eles trazem doença para nós! Nós não podemos morrer, eles sim!”

MATE-OS! MATE-OS! MATE-OS!

Depois nós que somos cruéis, malévolos, sombrios e obscuros…

Como se eu fosse capaz de exterminar setenta mil pessoas em um minuto com em Hiroshima, e mais em Nagazaki… Como se eu fosse o responsável pelo roubo, sequestro e extermínio de pessoas naquilo que chamaram de câmara de gás… E eu sei que você também não foi, pois não era seu nome que estava nos cinturões dos soldados nazistas, e muito menos foi você quem fez vista grossa para esses crimes.

Muito menos era a sua imagem que estava estampada no Kremlin durante os horrores dos arquipélagos gulags, as fomes nas planícies do extremo leste asiático, nas chacinas da Indochina.

A gente vai morrer. Você inclusive. Apesar de sua longa estadia em nossos corações, seu poder de contestar, dividir e desobedecer pode estar muito, mas muito próximo do fim. Há um cerco se fechando de modo muito brutal, e talvez o momento em que literalmente irão arrancar nossos pelos (meus pelos, ah meus pelos!) pode estar se aproximando. Nossa desobediência e indisciplina às ecologias oficialistas e policialescas irão nos custar caro, se não agirmos rápido… Você não quer mais um exílio forçado, quer?

O problema meu caro é que, diferente do outro, nesse provavelmente você não seja lembrado, pois talvez ninguém seja lembrado. Antes, você ainda exercia influência (como ainda exerce) sob os malditos projetos homogeneizantes e fascistas dos contingenciamentos em nome do pseudo nazareno, assombrando os desejos uniformes dos reacionários. Tudo bem que nem eles são capazes de manter o projeto, devido às mesquinharias tão comuns entre os mais ambiciosos. Mas o problema é que eles insistentemente estão a nos incomodar em nossos propósitos, e muitas vezes, estão promovendo grandes barbáries.

Aliás, muitas vezes não… sempre!

A histeria e o caos que estão sendo implantados, cada vez mais, em nome da ordem e do progresso (quem iria imaginar que justamente o conde Drácula nos trairia desse jeito… ahahaha), e rumo à uma pseudo utopia liberal – não libertária, como desejamos – estão nos levando cada vez mais à possibilidade de extinção.

E para defender seu projeto, há muito acusam nossa dissidência de simulacro, mentira, baderna, anarquia, indisciplina, desordem. Tudo bem que assumimos, e com gosto, alguns destes aspectos e nomes. Particularmente a anarquia e a indisciplina nos fazem muito gosto. Se nos jogam em uma condição marginal e menor, não temos que assumir mais nenhum compromisso ético ou político com os planos arbitrários produzidos pela fantasia dos Estados nacionais.

Aliás, o que é a ética para esses Estados senão uma moral impositiva de condutas, e a política, um exercício policial de imposição de normalidades?

Por falar em anarquia, não é possível deixar de citar o que Bakunin dizia ao seu respeito (ele te conhecia pessoalmente?… parecia próximo), quando sugeria o ato rebelde e revolucionário como uma ação de quem tem o diabo no corpo. É uma falha fundamental, mesmo nas palavras do grande anarquista, nessa metáfora de tomar o corpo e o espírito. Será que essas pessoas ainda não aprenderam que a lição é elas justamente fazerem ao contrário, ou seja, impedir que algo lhe tome posse? Talvez Proudhon tivesse lhe entendido melhor, sob a recusa do poder do outro…

E é um jogo interessante, pois quanto mais as pessoas acreditam que estão livres de você, mais elas têm suas vidas tomadas pelos profetas, e não conseguem mais sair do maldito eixo obediência-moralidade-normatividade. Se for sob mim, licantropo, na qual se impõe a maldição, não é por que me tornei pior, mas é por que me tornei execrável por não me submeter a esses ditames escabrosos.

E com se não bastasse, a acusação é que somos incapazes de nos organizarmos ou construirmos sociedades, culturas, economias e políticas melhores, pois somos amplamente caóticos e indisciplinados.

Se for para ser disciplinado e nunca mais conseguir possuir e governar a mim mesmo, devido a uma série robotizações nos meus mais estritos movimentos ter sido imposta nas instituições das loucuras, prefiro continuar escrevendo sentado na terra embaixo da mangueira, sentindo o cheiro do mato molhado, do que em uma escrivaninha mofada de sentimentos ressentidos em um quarto fechado de manicômios militares.

Além de nos fazer intensamente mais livres em relação aos crentes na ordem e medrosos da vida, nossa anarquia indisciplinada nos permite pensar em modos de vida, subsistência e convívio sem cairmos na sandice da competitividade, predação e extremada hierarquização do corpo, da vida e dos sentimentos.

De certo modo, apesar da condição maldita (para nós, lembrando, é positiva e potencialmente criativa) que nos é imposta em nosso constantes estado trans, nós somos herdeiros de uma postura que desde os cínicos e os cirenaicos (e de uma certa forma, os estoicos, apesar do desacordo entre Deleuze e Onfray [2]) se coloca perante o mundo como dissonante, divergente, dissenso. Não queremos, de nenhum modo, ser inclusos em nada… Somos exclusos, ao mesmo tempo por imposição e por escolha. Sempre n-1.

Aliás, quem melhor que Diógenes (o de Sínope) para esclarecer nossa condição canina… Viver como o cão, lutar como o cão, agradecer, como o cão…

Ora, assim como nós, condição metamorfoseada de cachorros selvagens, você, Lúcifer, por excelência, é o Cão…

Sim, novamente, os velhos nomes…

É por isso que insistimos tanto em nossa condição licantrópica, e associamos a nós, mesmo que de modo não totalizante e totalitário (senão não seríamos polimorfos, mas monocromáticos e uniformes, como querem as milhares de classificações feitas sobre grupos e movimentos tão disformes e múltiplos), as magníficas ações e sugestões de pensar dos próprios cínicos, dos anarquistas, dos utópicos, dos heterotópicos, da contracultura sessentista, dos zapatistas, dos black blocks, das utopias piratas da Idade Média, dos provos holandeses, das dezenas de assaltos à cultura sugeridos por Stewart Home (1999), dos bangers (os que não caíram para o fascismo, claro), dos punks (menos os de boutique), dos ecologistas.

Repito, não é possível generalizarmos tanta gente como licantrópica. Até por que é impossível tanta gente lobisomem ao mesmo tempo. Nossas noites de lua cheia são distintas, e só precisamos nos transformar quando somos afetados. Muitas vezes, essas luas cheias duram um dia… Às vezes, uma vida inteira. A questão é que assim como a lua provoca – nas lendas clássicas ao nosso respeito – um fervor na pele no qual precisamos nos despir inteiramente nesse processo (ahahah, uma boa história a nosso respeito está na película “Um lobisomem americano em Londres”. Clássico!), tentando aliviar o que não é possível se atenuar, mas mostrando todo o horror que nos é causado. E, principalmente, o quanto somos capazes de nos tornar tenebrosos, quando pensam que estamos aturdidos e terminais.

Jamais seremos terminais. Não estamos submissos à tão frágeis teleologias. Sempre estaremos na condição transicional, trans-formativa… Intermezzo.

Mas a questão é que ninguém melhor que o italiano Agamben (2002) tenha nos caracterizado, e que nós sejamos justamente aquilo que ele vai chamar de homo sacer, ou seja, o meio caminho entre o bios e o zoe, nem besta fera, nem o cidadão político da pólis. Aliás, e como poderia sugerir Rancière, cidadão político uma vírgula, já que todo consenso sobre a polis não é mais do que uma ação policial e policialesca que busca controlar os indivíduos sob um grande pacto normativo.

Nós somos os agentes políticos. Nós somos os agentes do dissenso. Nós não nos submetemos aos ditames fascistas das sociedades de controle contemporâneas. Quando abrimos a boca e grunhimos, ladramos e gritamos, temos um discurso entre nós, licantropos, satânicos, menores, marginais, periféricos, anárquicos e minoritariamente ecológicos, que é comum. Só não é comum a todas as pessoas, pois a grande maioria delas já está tão anestesiada e zumbificada por suas práticas policiais, que elas não são capazes de entender. Por isso o que falamos é ruído, barulho, chiado…

Se não querem entender, não é por nossa culpa. Nós estamos abertos à transformação, a hibridação (fértil, claro) e à mistura, e estamos propostos a intensificar esse processo. O problema é que o estado morto-vivo em que a maioria das pessoas submetidas à morfina consumista está buscando nos matar. E isso, caro diabo, não podemos deixar acontecer. E se o máximo que pudermos fazer for ruído, o faremos.

Ruído que fizeram Venom, Mercyful Fate, Hellhammer, Slayer, Satan, e até o Iron Maiden e o Black Sabbath (antes, claro, de terem se curvado ao mainstream, aos pedidos de desculpas por terem falado de ti, e de tentar desvencilhar-se de sua imagem… “coisa de jovens”), lá pelo comecinho dos anos 80. Tanto que a senhora Tipper Gore, esposa do “ecologista” vice-presidente, armou uma cruzada cristã contra os satanistas. O melhor de tudo era ver o Dee Snider, do Twisted Sister, com os seus quase dois metros de altura e longos cabelos loiros encaracolados, desafiando as boas senhoras e senhores defensores da família tradicional americana, nos tribunais estadunidenses…

Não, não é coisa só daqui…

Mas, mesmo entre aqueles que lhe negam hoje, ou mesmo as possibilidades de rebeldia, revolução, Eternal Devastation (como sugeria o álbum dos alemães do Destruction), é necessário fazermos jus à valentia daquelas pessoas. Deram a cara a bater. Expuseram sua imagem como o inimigo daquela sociedade putrefada pseudo organizada e feliz.

Assim como nos expuseram. De modo diferente que nos haviam exposto o cinema e as HQ’s, eles nos expuseram e nos postaram nas capas dos álbuns e das camisas da galera das trevas – metaleiros ao senso comum, headbangers para nós – como os ícones das sociedades normatizadas, da tradição cristã, do american way of life, da família nuclear, das instituições disciplinares, das sociedades de controle.

A ordem era evocar o apocalipse, a desgraça, o caos. Era acabar com a hipocrisia na qual uma determinada sociedade neoliberal e consumista poderia dar conta das agruras do mundo, quando, na verdade, era responsável pelo desastre humanitário instalado sobre as regiões mais pobres do planeta.

Não eram os bangers – assim como o punks, dos quais irei falar já, já – os responsáveis pelo caos. Não eram eles quem haviam que estavam causando o fim dos tempos, a loucura, o barulho, o ruído, o inferno sobre a terra. Sua (anti)música, ou música extrema, como contra/sub/anti cultura, estava somente reproduzindo, em acordes, em letras, em capas, em movimento cultural e político, e em um processo de ensino-aprendizagem muito específico, aquilo que as sociedades contemporâneas produziam em seu dia a dia.

Não reclame das imagens que são usadas para lhe representar. Se eu posso aguentar a imagem de um peludo bípede, o qual, apesar de imponente, ainda causa constrangimento, você pode aguentar os desenhos que mesclam o bode e o morcego… Ainda bem que abandonaram a cobra.

Muitas destas imagens, particularmente, me encantam bastante. Lembro-me de discos como Don’t Break the Oath, do Mercyful Fate, das capas infernais dos três primeiros discos do Slayer – Show no Mercy, Hell Awaits e Reign in Blood – assim como dos álbuns Pleasure to Kill e Terrible Certainty do Kreator, e a reprodução da pintura de Jean Delville, Les Trésors de Satan, na capa do álbum Blessed are the Sick, do Morbid Angel.

Aliás, que maravilha de álbum:

Forgive me not.

This knowledge makes me strong.

To resurrect the cities of the damned.

All the treasure of Sodom.

Now belong to me – celebrate.

Fallen angels take my hand. [3]

A partir dos anos 80, não era uma ação isolada de excêntricos – como Aleister Crowley ou Anton La Vey – que queriam ganhar seguidores, leitores e/ou ouvintes com a sua imagem. Foi todo um movimento que transformou a imagem que o cristianismo deu a ti em um estandarte de luta. Muito mais que uma posição de liderança contrária às imposições familiares, religiosas, laborais e consumistas. Ao estamparem os diabos da capa do Morbid Visions do Sepultura em suas camisas, a galera do metal não estava querendo dizer que te louvava, mas estava assumindo uma dissidência. Individual e coletiva.

Isso foi magnífico cara…

Particularmente, o rompimento foi tão estrondoso, e talvez até maior do que aquele que os hippies, os pacifistas e os ecologistas dos anos 60, pois se estes pregavam uma perspectiva de futuro sugerindo mudanças nas atitudes dos indivíduos, os bangers e os punks falavam unicamente:

“Acabou, agora é esperar o fim, pois a humanidade é estúpida demais. Eu não compartilho com isso, e não vou repetir suas ações estúpidas. Mas como vocês são maioria, eu quero ver suas chamuscantes mortes e extermínio de camarote! Só torço para o capeta realmente existir pois, se nos encontrarmos no inferno, eu quero ser o assecla das trevas e o responsável por seu castigo eterno!”

Lembro-me da proposta antiga, mas muito pertinente, da classificação de Marcos Reigota (1999), em um texto ainda dos anos 90, quando ele sugeria a distinção dos ecologistas entre radicais e catastróficos. Ao anunciar o fim do mundo, esses grupos sempre fizeram questão de estampar a proximidade da morte, do extermínio, do final das coisas. No entanto, é impossível se manter ou catastrofista ou radical. A condição é nômade e fluída, e sempre pairamos sob as duas posições.

Se não houvesse o posicionamento, a criação de radicalidades (anti-musicais), a produção de sentidos não “assimilacionistas” e/ou “normativistas”, o constante aviso (e pedagogias, por que não) sob as ameaças que nos rondam, os alertas sobre os responsáveis pelo holocausto (sempre o capital e o Estado, além dos microfascismos), talvez esses conjuntos pudessem ser acusados de catastrofistas passivos, coniventes com a barbárie.

Mas não!!! Há a ação, há o combate…

Por isso gosto tanto das bandas anarquistas. Por isso sou constantemente chamado de punk cabeludo. Especialmente os conjuntos grindcore. Eles urram. Fazem um barulho dos infernos (literalmente, ahahah), vociferam contra os machismos, os racismos, as misoginias, homofobias, xenofobias, fascismos, nazismos. Desde os anos 80, bandas como o Napalm Death (quer melhor grito que “On the brink of extinction”), Carcass e seu splattergore vegetariano, como sugere Mudrian (2016) e Agathocles (no underground extremo, gravando centenas de pequenos álbuns em apoio às causas animal, ambiental, social, junto com outros conjuntos), estão berrando contra o holocausto nuclear, climático e barbárico contra os animais (BARCHI,2016).

São ecologias outras, extremas, ruidosas, infernais, licantrópicas, que se recusam a se submeter ao jugo do bom mocismo de pseudo ambientalismos contemporâneos, desejosos por uma junção harmoniosa entre as preocupações verdes e o capitalismo, que não entendem a disparidade descomunal existente entre essas duas perspectivas. Não são capazes de compreender o quanto a ampliação irrestrita do capitalismo, mesmo com suas maquiagens verdes, é a responsável pela aniquilação das possibilidades de vida no planeta.

No entanto, apesar do tom alarmista presente em minha fala nesta carta, e também nos discursos catastróficos das bandas metal e das bandas core, é preciso esclarecer que as possibilidades de combate à barbárie contra nossas condições de vida não podem, de modo algum, se confundirem com um messianismo pastoral salvador de almas. Sabemos bem o quanto essa noção é semelhante às perspectivas maniqueístas que combatemos, e o quanto estas verdades proféticas são nocivas por sua força coercitiva e esmagadora das diferenças.

Talvez nos acusem de combater o horror com o horror, em uma analogia muito semelhante àquela proposta por grupos terroristas menores, que combatem o terrorismo de Estado com as mesmas armas e estratégias violentas e barbáricas. É uma outra difamação, já que o único horror que talvez causemos é justamente de ser o espelho invertido das sociedades contemporâneas, que não assumem o fato no qual todos os humanos são mestiços: em sua estrutura física, em sua cultura, em sua língua, em suas práticas cotidianas. O que foi, aos poucos, sendo destruído pela implantação dos sonhos/pesadelos homogeneizantes fascistóides e policialescos dos projetos ufanistas liberais.

Nosso terror é mais do gato vingativo das histórias de Edgar Allan Poe, que aterroriza o fascista, o assassino, o cruel, levando-o à demência e ao arrependimento forçado sob o susto das vozes na parede, do que o terrorismo de grupos ligados às minorias étnicas e culturais em Oriente Médio, Europa e no continente latino-americano dos anos 80. É o terror do Caapora, que impede maiores atrocidades aos animais da floresta, mesmo que para isso alguns traumas precisem ser promovidos.

Terror e horror os quais, ao nosso modo, são capazes de produzir processos formativos e trans-formativos a partir das poderosas pedagogias do Inferno (CORAZZA, 2002), que não se ajoelham, não se rendem, dividem, rebatem, contestam, trazem o caos à “Verdade”. Que sejamos todos simulacros

São estabelecidas farsas unificadoras em sociedades amplamente múltiplas, disformes (no sentido positivo), diversas e heterogêneas. E essa grave imposição, ao destruir as diferenças, também destrói as diferentes ecologias de cada uma dessas multiplicidades, ocasionando os equívocos que, cada vez mais, tentam resolver problemáticas tão graves quanto da péssima condição climática das cidades, dos campos, da vida cotidiana, com uma mera adequação das questões ambientais ao capitalismo contemporâneo, cujo nome se convencionou como desenvolvimento sustentável. O qual, longe de resolver e/ou discutir as questões que levaram à nossa desastrosa situação ambiental, parece somente amenizar os impactos da tragédia, diminuindo o desconforto apocalíptico.

Enfim… Acredito que tenha prolongado demais a minha carta. É que eram tantas coisas pra escrever, tanto tempo sem notícias minhas a você, que quis contar tudo de uma vez só, e abrir-me sobre as inquietações sobre esse mundo, mais caótico, violento, tórrido. Não que não fosse tudo isso antes, e anos anteriores tivessem sido melhores. Mas a minha maior angústia é parecer que as novas gerações não aprenderam com a história, com a filosofia, com a geopolítica/geografia, e muito menos o beabá político. O avanço das direitas nos dá a impressão que estamos próximos do macarthismo dos anos 50, e da histeria militarizada brazuca dos anos 60.

O Iron Maiden, há trinta e cinco anos, nos avisava sobre o relógio do apocalipse. Será que estamos novamente a dois minutos da meia noite? Voltamos no tempo, senão cronologicamente, mas ecologicamente?

Aguardo seu retorno, meu caro Lúcifer. Gosto desse nome, pois me traz boas recordações dos momentos de clareamento da mente, apesar das trevas, perante os outros, serem uma imagem muito mais latente, e não darem o devido crédito aquilo ao que realmente parece.

Com amor, cumplicidade e parceria!

Viva as trevas! Só delas nasce a luz!

Bibliografia

AGAMBEN, Giorgio. Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua I. Tradução de

Henrique Burigo. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2002.

ARTAUD, Antonin. O Teatro e seu Duplo. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

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Recebido em: 04/01/2017

Aceito em: 13/03/2017


[1] Doutor em Educação pela Unicamp, Mestre em Educação pela UNISO, Especialista em Educação Ambiental pela EESC-USP, licenciado em Geografia pela UNISO. Professor-Coordenador do curso de Geografia da UNISO.

[2] Enquanto Deleuze (2006) sugeria que a potencial inversão/perversão da filosofia estava presente na filosofia dos filósofos cínicos e dos estoicos, Onfray (2008) ataca o perfil conservadores dos últimos, enaltecendo a ética e o filosofar com o corpo de Epicuro.

[3] Trecho de Fall From Grace, do disco Blessed Are The Sick, lançado em 1991.

Relatos sobre ecologias ruidosas dos infernos na carta de um licantropo a Satã

 

 

RESUMO: Esta carta-ensaio é um manifesto escrito por um licantropo a Satã, independentemente de ser a mesma entidade ou não. Ou seja, pode ser uma carta escrita para si mesmo, visto que o diabo e o licantropo podem ser manifestações distintas de um mesmo sujeito ou para o outro responsável pela maldição que recaiu sobre a besta lupina. Nela, o licantropo critica a perspectiva filosófico-política ocidental, refém ainda das interpretações hobbesianas sobre as relações humanas, e sugere não mais o lobo e/ou o próprio lobisomem como o predador e promotor da barbárie humana, mas como o militante que reage e combate a destruição promovida pelo Estado e pelo capital. Por fim, o licantropo evoca as perspectivas libertárias dos pensadores e movimentos sociais do século XIX e XX como alternativas radicais para enfrentar os holocaustos ecológicos promovidos pela ação predatória dos humanos contra as paisagens e os outros seres do planeta. O texto dá ênfase aos discursos ecologistas de bandas de música extrema.

PALAVRAS-CHAVE: Licantropo. Satã. Holocausto. Ecologia. Música extrema.


Reports on noisy ecology of hells in the lycanthrope’s letter to Satan

 

 

ABSTRACT: This letter is a statement written by a lycanthrope to Satan regardless they have the same entity or not. However, it can be a letter written to him as the devil and the lycanthrope can be different expressions of the same subject or to the other responsible for the curse that lies on the lupine beast. In this curse the licantropo criticizes the Western political, philosophical view that is still dependent on the Hobbesian interpretation about the human relationships and suggests that the werewolf is the predator and not the wolf and fosters the human barbarity and acts as the militant that reacts and fights the destruction caused by the Government and capital. Finally, the lycanthrope raises the libertarian views from the thinkers and social movements from XIX and XX as radical alternatives to tackle the ecological holocaust promoted by human predatory action against landscapes and other planet beings. The text emphasizes the environmental speeches from extreme music bands.

KEYWORDS: Lycanthrope. Satan. Holocaust. Ecology. Extreme music.