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ClimaCom Cultura Científica - pesquisa, jornalismo e arte | ano 02 - volume 02


Mínimo… Acesso

Andreia Marin [1]

Paulo Manaf [2]
 

 

 

 

Figura 1 Artigo 3 Minimo Acesso - TEM LEGENDA

Figura 1. Paulo Manaf. Memory. Grafite, acrílico e látex sobre papel em tela, 2011. 40x60cm

 

 

Querido Paul,

Não foi simples me desvencilhar… As forças vinham em redemoinho e me enclausuravam no fluxo que levava para o portal.

Me desesperei, não é preciso que explique. Pode prever pela clara incompatibilidade entre minha estranha forma e abusiva dimensão e aquela delicadeza do mínimo que prometia um outro mundo. Quis, obviamente, me afastar do desconfortante “comparecimento ao meu próprio desencontro”, mas tal mania, definida pelo poeta das Ignorãças, me fez focar mais uma vez o tão atraente desconhecido.

Supus: era um mundo silencioso, não parecia haver dúvidas… Mas era também fluido… Não… A palavra é mais para “gelatinoso”… Do lado de lá do ínfimo portal o mundo parecia não ter solidez, nem cores enclausuradas, de forma que no lugar de arco-íris se formavam transitoriamente aquarelas multicores em constante (de)composição. Eu achei, por alguns segundos, que poderia desintegrar e voltar a ser coisa, ser bicho, ser árvore, ser só esferas moles a se movimentarem sem rumo, sem estorvo gravitacional.

O fluxo me levou para um pouco mais perto e eu, gigante, só pude dar como saída pensante da difícil situação, uma tentativa de âncora, fincando meus pés disformes logo abaixo da pequena plataforma que sustentava a delicada estrutura celulósica do portal. Temi minha típica inabilidade com as coisas mínimas de forma que tentei permanecer o mais estática possível, já que uma respiração um pouco menos contida poderia demolir seu misterioso mundo.

Assim perdida em pura concentração, senti escorrer sobre os dedos dos meus pés um líquido morno. Tentei enxergar curvando-me cuidadosamente, mas só pude perceber o acinzentado de uma goma que escorria líquida do espaço de trás do portal e ia se cristalizando sobre meus dedos. Um comichão. Pareceu queimar e… Tornaram-se menores junto, logo, com todo meu pé. E o viscoso líquido subiu multiplicando os efeitos. O desequilíbrio de quem encolhe pelos pés… Era o contágio… Do mínimo.

Era também uma ansiedade incontrolável de ir deixando apagarem-se todas as bestas qualidades humanas. Toda a consciência a elas apegada subtraindo-se, já nesse momento, da insignificância cefálica que substituiu meu velho crânio, assemelhada às esferas disformes. Preocupações, em instantes, suplantadas pela diabólica sensação de potência… A paradoxal potência de um mínimo que, agora, passa com entusiasmo infantil pelo delicado portal… São visíveis agora suas detalhadas curvas postas em adornos que pairam sobre meu corpo muito leve.

E foi assim que ganhei acesso ao seu mundo povoado de seres híbridos, pedras móveis e cores dançantes. No início, pareceu-me um micro-caos assustador. Mas os sons provenientes de todas as pequenas partes e combinados numa desinfonia, inesperadamente, agradável, me acalmaram. Vez ou outra, tudo se multiplica ou transforma. Inesperadamente, tudo para e as cores brincam de irem-se juntando em compartilhamento, dando espaço para a plenitude branca… E logo reiniciam seu balé.

Fui assim, aprendendo com as danças, que jamais pude dimensionar em dias, horas ou qualquer outra contenção temporal, e escorregando cada vez mais para o nada de mim. É daqui que te escrevo essa carta. Aproveito para fazê-lo nesses instantes em que a desinfonia cede ao silêncio, agora, nunca perturbador.

Ah, sim. Antes que esqueça de mencionar, talvez não volte. As vezes que tentei, abri a porta secundária que gentilmente você colocou no seu brilhante mundo e fui descendo os degraus da escada, única matéria firme que você fez questão de providenciar para evitar desastres desnecessários. Mas ocorre que, ao descer, vou voltando ao tamanho normal, começando pela região cefálica. Por mais de um motivo, acabei desistindo das tentativas: primeiro, porque o desequilíbrio da grande cabeça sobre os mínimos membros inferiores poderia resultar um fracasso e um acidente inevitável na descida da escada; segundo, e mais importante, porque, ao descer, fui me sentindo cada vez mais matéria densa, pesada e sem movimentos, o que sinceramente não podia mais me agradar; terceiro, porque a saudade das coisas disformes e móveis, dispersas em insignificâncias ou camufladas na matéria branca, embaladas pelas desinfonias e balés das cores, já parecia insuportável no terceiro degrau…

E assim vou ficando… Talvez desse mínimo, somente ao nada ou à transmutação… Não é possível saber ainda. Obrigada por tudo, querido inventor. Quando puder, venha me visitar, já que as cartas provavelmente se esvairão junto aos resquícios linguageiros.

Afetuoso abraço.

 

 

Figura 2 Artigo 3 Minimo Acesso

Figura 2. Paulo Manaf. Matéria Branca II. Latex sobre papel em tela, 2011. 16x30cm

 

 

Querida Andréia,

Pequeno prólogo

Vai chover agora, e vai chover bastante. Como todo filho de Iansã, sinto a estranha carga antecipatória que subverte os elementos sempre que uma tempestade se aproxima: a mãe rosada manifesta sua presença aos filhos que, a ela, humildemente saúdam. É imenso o firmamento nestas horas. Depois da chuva, entre parentes e amigos, sabiás-do-campo ocupam pontos privilegiados do bairro para ver o entardecer. Ouvem, quietos, o espetáculo das cores crepusculares – um hábito exemplar da espécie, que Fernando Pessoa compartilhava.

Urubus fendem o firmamento como agulhas no vinil. Silenciosamente. Ouvem, quietos, o vento. Ouvem seus próprios pensamentos. Pensam em memórias antigas e – ao ler tua carta decidi contar a você estas histórias – pensam em eventos futuros e em cataclismos que alguns deles previram. Lembro-me de Saní. Você não conheceu esta figuraça. Era um Urubu de meia-idade, descendente em linha direta de Roco, aquele que, a tradição nos conta, conheceu a índia Boureña.

Pequeno capítulo I – Os Apitãs

Isto foi há muitas gerações, na época em que havia cães só nos pampas. Segundo a crença, Roco ficava pousado no galho mais alto da árvore das almas, quase escondido; Boureña acomodava-se bem mais para baixo do morro, ao pé de um barranco, o mais perto que conseguia chegar; ela passava assim horas em silêncio, aguardando, aguardando, até que ele, reticente e comedido, começasse a lhe ensinar as práticas mágicas da presciência, as veredas do prognóstico, a arte da profecia, os mistérios do pressentimento, os meios para obtenção de presságios e o ofício da premonição, seus enigmas e seus riscos. Muito pouco revelava o Apitã, comparado aos anseios da índia sobre esta matéria. Ao final, a ave aguardava pacientemente. Boureña, moderada na mesma medida, contava então um pouco de seu tesouro mais confidencial, aquele ao qual o catartídeo tanta atenção dispensava: as narrativas da transmutação, o segredo de como ela, mulher, alterava suas qualidades humanas, desvencilhando-se de sua própria matéria – densa, pesada e sem movimento – para ser um mínimo e, fluída assim, atravessar os portais e viver momentaneamente entre as coisas disformes e móveis. Roco ouvia tudo, compenetrado. Ao final do encontro, sem mais um único pronunciamento, ele saltava do galho e deslizada gravemente para o escuro cavado na mata, para onde olhos humanos não ousam mirar. Boureña, exausta e faminta, iniciava então seu moroso caminho de volta à aldeia. Como sabemos hoje, os dois voltariam a se encontrar toda vez que o Sol desviasse sua atenção para além da constelação da Anta.

Pequeno capítulo II – Roco

O mais lendário de todos os Urubus, Roco era também um dos mais esquivos. Poucos Xamãs de aldeias distantes eram capazes de ouvir seus pensamentos, no máximo fragmentos difíceis de interpretar. Apenas a Boureña era permitida a aproximação, a única que realmente ouvia seus pensamentos e a quem ele estava fatalmente conectado.

Roco costumava voar à tarde para lugares muito reservados, de onde assistia ao pôr do sol, sozinho e quieto. Só havia o vento. Pensava profundamente nas suas memórias. Eram muitas, muitas, muitas. Será que nós, humanos, temos tantas memórias assim? Voar é espetacular, mas voar com suas próprias memórias é uma epifania. Eu, para mim mesmo, apelidei a memória de “a dádiva cruel”: tão especial e tão difícil de lidar.

Roco quedava-se ali, absolutamente presente no tempo presente. Um instante, ele próprio um portal por onde suas memórias fluíam para o futuro e coisas que ainda estavam por acontecer vertiam para o passado. Uma fusão, um ciclo da natureza, uma mandala que se completa, o círculo sagrado, o Sol que se põe diante dos olhos de Roco. A responsabilidade pesa sobre suas asas negras. O que restará deste Cerrado imenso? As trevas chegam do Mar do Leste, furiosas. “Ele voltará, a Luz do mundo voltará”, assim diz a profecia mais antiga que as próprias aves. Voar é preciso, e assim Roco se eleva, majestoso, para desaparecer na escuridão profunda do firmamento.

Com os anos, Roco, tenaz e disciplinado, alcançou domínio sobre a arte do mínimo, apesar da afetada parcimônia de Boureña para revelar seus conhecimentos privados e das lacunas propositais no seu professorado. Ainda assim ele era um Apitã refinado o bastante para evitar lhe dirigir diretamente qualquer pergunta. Paciência, minha amiga, é um predicado quase sinônimo de Urubu, sabia? Haveria de obter respostas, por bem ou por mal, conforme previu.

Pequeno capítulo III – O portal presente

A primeira vez que ouvi os pensamentos de Saní foi logo que me mudei para cá. Hoje não ouço mais. Espero que ainda esteja vivo ou que, pelo menos, não tenha sofrido destino semelhante ao de sua irmã, que morreu ainda muito jovem, apedrejada por um bando de moleques ao fazer um pouso de emergência num campinho de pelada. Isto aconteceu bem antes. Dizem que, ao receber a notícia, Saní voou, transtornado, em direção ao Sol, pedindo – gritando – aos prantos para que o astro lhe queimasse as asas, e com elas toda a dor embaraçada em suas penas. Todos se condoeram. Há quem afirme que até humanos mais sensitivos perceberam o fato na forma de “uma repentina sensação ruim que amargou o dia”. Não me recordo, Andréia, do nome da irmã de Saní. Que vergonha. Mas são muitos Urubus e todos com nomes impronunciáveis. Os que eu aqui cito são humanizações muito grosseiras. Que vergonha. Mas uma coisa eu te digo: nada se compara ao constrangimento de estar perto de um deles e não saber voar. Saní era educado e não ficava se exibindo. Pelo menos não a todo o momento.

Laudanus era o indivíduo mais velho da comunidade onde Saní vivia. Detinha os saberes mais completos da presciência. Era poderoso o bastante para escolher o que queria prever. Quem escutava os pensamentos dele há muitos anos era uma senhora chata e autoritária que presidia uma instituição de caridade. Ela era capaz de ouvir os pensamentos de Laudanus assim como Boureña aos de Roco ou como eu aos de Saní. E como tantos outros pares misteriosamente conectados por aí. Mas, de maneira pouco comum nestes casos, Laudanus permitiu que ela o conhecesse pessoalmente. Assim decidiu ele após prever o suicídio do filho dela. Não haveria recuperação naquela família humana. Já os predicados de Saní na arte da adivinhação eram bem ruinzinhos para um Urubu daquela idade. Mas sua erudição era gigantesca. Ainda assim conseguiu prever que seria banido por Laudanus, este que não pertencia à linhagem de Roco.

Vi Saní pessoalmente uma única vez – pelo menos acredito que tenha sido ele mesmo. Estava dirigindo e avistei um grupo de catartídeos pousados sobre uma grande árvore no topo de um morro. Senti um frio na barriga, um pressentimento de que ele estaria lá. Brequei o carro, saí e corri para a cerca na beira da estrada deserta. Todos me ignoraram, exceto um, pousado bem mais longe, fitando-me por detrás de uns galhos secos. Então, todos ficaram em silêncio olhando para mim por alguns momentos e, de súbito, saíram voando e foram embora. O último a partir foi ele. No céu, bem alto, ainda fez uma volta, como um aceno. Em seguida, batendo forte as asas imensas, subiu ao firmamento e fluiu com velocidade até sumir no horizonte. Fiquei parado, mirando. Só o som do vento e o cheiro quente de um Cerrado tão antigo quanto o Mar. O presente, a memória, o futuro, o portal.

Pequeno epílogo

É muito difícil para mim, Andréia, separar o literário do plástico. A era do dualismo está terminando. Dia e noite, mar e firmamento, pessoa humana e pessoa Urubu, memória e invenção, realidade vivida no concreto e realidade vivida no sonho, passado e futuro. Mais relâmpagos: vai chover de novo. Estes temporais cada vez mais assustadores! Tenho saudades de Saní, tenho saudades de você. Vou te visitar, sim, e contarei mais histórias sobre ele, sobre Roco, Boureña e os Apitãs do Cerrado. Ah sim, e contarei também sobre os cães dos pampas e sua longa jornada ao Planalto Central; e sobre como, no século retrasado, uma fêmea, descendente destes cães, morreu ao proteger sua dona contra a violência do marido numa fazenda perdida no meio do Cerrado, e como voltou para manter guarda sobre as gerações que se seguiram. Tenho muita coisa para te contar. Depois, olharemos juntos, quietos, o céu poente, como se pássaros fôssemos. Haverá ainda Tempo?

Afetuoso abraço.

 

 

Recebido em: 14/12/2016

Aceito em: 13/03/2017


[1]Graduada em Biologia (USP) e Filosofia (UFPR), Doutora em Ecologia (UFSCar). É docente/pesquisadora da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM). E-mail: aamarinea@gmail.com

[2]Graduado em Biologia (USP), Doutor em Psicologia (Neurociências e Comportamento) (USP). É biólogo do Zoológico Municipal de Mogi-Mirim. E-mail: paulomanaf@gmail.com