ANO 03 - N06 - "Territórios" ISSN 2359-4705

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Qual ciência visar?*


Stelio Marras[2]

 

 

 

 

A despeito de meu interesse e curiosidade, não sou especialista em exposições e museus de artes e nem de ciências, e nem mesmo tenho reflexões anteriores especificamente sobre difusão científica. Aqui, a tentativa de colaborar para esse tema firma-se em minha especialidade como antropólogo que se volta para os estudos sobre ciência e tecnologia, sobre modernidade científica e política – já que uma não se explica sem a outra, ciência e política sempre indo juntas e seu arranjo constituindo a própria modernidade. Insistirei sobre essas relações entre ciência e política para poder sustentar um ponto de vista sobre alguns dos problemas atuais da difusão científica.

Para então tentar prestar alguma colaboração ao tema a partir dessa minha ótica de estudos, achei por bem começar esta comunicação citando um trecho do livro Cogitamus – seis cartas sobre as humanidades científicas, do pensador francês contemporâneo Bruno Latour (autor central desses novos estudos de ciência, tecnologia e modernidade). Trata-se de trecho que justamente comenta o problema da divulgação científica:

“A solução mediana, clássica, razoável, usual (e agora já deteriorada) consiste em confiar a especialistas o papel de mediadores entre os laboratórios e a multidão. Infelizmente, muitos desses especialistas se parecem um pouco com os porteiros dos conventos que, em seu interior, devem respeitar a clausura e permanecer mudos como tumbas e, no exterior, devem possuir grande sociabilidade e ser tagarelas como as maritacas. Mas, como os porteiros, esses especialistas são almas divididas, quase sempre infelizes. Com efeito, não há nada menos científico que um especialista obrigado a ser o intermediário entre inumeráveis pareceres divergentes e a reduzir um front de pesquisas multiformes a alguns dados que sejam compreensíveis para quem está do outro lado do muro: para ser especialista, teve que abandonar tudo o que faz a gloriosa incerteza da pesquisa” (Latour: 2016, 156-7).

Quero logo me concentrar nesse drama do mediador especialista: ele entre os cientistas e o público, ele encarregado da não raro inglória tarefa de trazer à vista do público as ciências feitas nesses “recintos sagrados” dos laboratórios (expressão esta de Marie Curie, e que bem converge aqui com a imagem latouriana do convento). Mas verdadeiro drama porque, ao que bem parece, esse especialista (como o jornalista de ciências ou como o próprio curador-idealizador de uma exposição de ciências) deve saber fazer uma espécie de mediação traidora: tem que, de alguma forma e inevitavelmente, trair um e outro lado do muro do laboratório. É seu drama e é seu desafio cada vez mais premente esse de bem representar (isto é, re-apresentar, traduzindo e explicitando as mediações nunca sem efeitos dessa tradução) as vicissitudes, as dificuldades, as incertezas inerentes à atividade científica e sem as quais (e esse ponto é capital aqui) todo e qualquer fato científico não se explica senão de modo muito pobre e infiel, em todo caso desinteressante e não raramente autoritário. A pergunta que então se coloca é: como enfim ritualizarmos a veneração da atividade científica, tão ao gosto de nossas sociedades modernas, e de que se incumbem as exposições de tantos de nossos museus de ciência, sem com isso prestarmos uma tola e cada vez mais ineficaz idolatria à Ciência (isto é, a esta unificação de uma atividade tão diversa), aos cientistas e aos fatos tornados frios e duros quando apresentados desligados das condições sensíveis que os ensejam, que os permitem vir a ser? O ponto que eu gostaria de reverberar aqui é então esse: como representar mais fielmente o rico e encantador trabalho das ciências?

Ou perguntar, noutras palavras: qual ciência pôr à vista? Ainda aquela dos resultados e dos consensos, dos fatos encerrados em opacas e inacessíveis caixas-pretas[3]? Ou, ao contrário, mostrar os fatos (mesmo os candidatos a tal) uma vez enredados em suas mediações e condições controversas, plenas de incertezas e fragilidades, seja ainda no interior dos laboratórios ou já fora deles? Seguiremos divulgando as certezas frias como se elas não fossem fruto das incertezas quentes que qualquer boa etnografia, qualquer boa pesquisa de campo em laboratórios pode captar, como a propósito tantos autores contemporâneos têm mostrado?[4] Essas são algumas das perguntas que me parecem hoje incontornáveis se queremos atualizar a reflexão sobre esse problema da divulgação das ciências, problema que não pode ser posto senão de modo precisamente situado – e situado pelos problemas contemporâneos que inevitavelmente temos que considerar. Do contrário, tombamos numa abstração sobre ciência, divulgação e público – arriscando propor soluções gerais que, como tais, resultam a um só tempo infiéis ao real e ineficazes do ponto de vista das políticas científicas voltadas à divulgação.

Dizendo ainda de outro modo: qual divulgação para qual ciência? Mas qual divulgação para qual público? E qual ciência para qual público? Senão ainda: qual ciência para qual problema público? Se levarmos realmente a sério esse gênero de perguntas, então parece claro que os caminhos a tomar para se rever as relações entre ciência, divulgação, público e política num dado lugar – por exemplo, na Alemanha – serão pouco coincidentes com os caminhos a tomar em outro lugar – por exemplo, no Brasil. São públicos e territórios diferentes, são modos de comunicação diferentes ou com diferentes mediações, e são mesmo diferentes, em muitos aspectos, as ênfases, os achados e os interesses científicos conforme o chão onde essas e aquelas ciências frutificam. Melhor então logo afastarmos a tendência de se padronizar ou universalizar mundo afora tentativas e soluções para esse problema, como se a passagem entre diferentes territórios não produzissem efeitos sensíveis e decisivos. Afastarmos, portanto, aquelas facilidades irrealistas que se traduzem em assertivas que tão normalmente ouvimos por aí, como por exemplo: lá se faz assim, então aqui devemos fazer assim também. Mas recusar esse tipo de passagem direta (que não raramente expressa um pensamento colonizado mal dissimulado) não pode significar de modo algum abrir mão de compartilhar experiências díspares e mesmo testá-las e se reapropriar delas em diferentes solos. Mas são testes e experiências, e não aplicações diretas.

Hoje os desafios das ciências (e do mundo nelas enredado) são muito distintos em relação, por exemplo, aos do século XIX, século que inaugura e glorifica as famosas Exposições Universais, e cujo afã de modo geral (e que aliás se estende aos dias de hoje, embora com menos confiança) era aquele de popularizar as ciências, levá-las ao alcance de todos, vulgarizar suas maravilhas, difundi-las junto ao grande público – júbilo de uma certa noção de razão. Mas propor vulgarizar junto ao vulgo é algo hoje um tanto pejorativo. Ademais, já temos desenvolvido, creio, algum pudor que nos faça desconfiar um pouco desse termo “vulgarização” e “vulgo”. Por isso, aliás, já hoje vamos nos acostumando a nos valer de termos como difusão científica. Mas não por isso, em tempo, ainda deixamos de nos valer correntemente do termo divulgação, que segue supondo o vulgo como objeto da difusão científica. Ora, como lembram as filósofas e historiadoras das ciências Bensaude-Vincent & Stengers (2003: p. 403), no verbete “Vulgarização”, o vulgo é tomado como “a multidão indistinta, anônima, antes que povo soberano que vota” (traduções minhas). O vulgo é aí referido então como uma população não cultivada em oposição aos cientistas, eruditos, esclarecidos, sábios. O vulgo define-se então pela falta, e por isso objeto dos investimentos consorciados entre as ciências e o Estado (senão o Mercado, também aí incluído) destinados a traduzir as ciências para essa população.

Sim, mas ainda que a palavra vulgarização tenha hoje assumido uma aura, vamos dizer, politicamente incorreta, e venha amiúde sendo substituída pelo termo divulgação (termo que contudo mantém o vocábulo “vulgo”, vale insistir), ou ainda difusão (talvez um pouco melhor porque não faz referência direta ao vulgo), mesmo assim, convenhamos, segue-se essa mesma dinâmica do mais para o menos, da abundância de conhecimento para a falta. Segue, vamos dizer, o sentido civilizatório da educação e da ciência junto à população: o imperativo de instruí-la, divulgando especialmente os fatos das ciências naturais e tecnológicas, e cada vez mais frequentemente os das tecnociências. Entendo que esse acento em expor os achados das ditas ciências duras remete à cisão entre o domínio do natural e o domínio do cultural, divisão esta que instaura a modernidade. Para os modernos contemporâneos, nós, o suposto é que as ciências da cultura (ciências do espírito, como as sociais ou humanas, as ciências ditas moles) estariam mais ou menos condenadas a expressar (sempre com o fantasma do exotismo aí espreitando) a multiplicidade de arranjos (pejorativamente denominados de crenças e valores do folk – rapidamente assimilado a folclore, aí em sua negatividade, tal um “conhecimento tradicional”, menor ou impreciso, em todo caso poluído pelas mediações ditas culturais). E isso porque a cultura é aí tomada como múltipla: é o multiculturalismo de que tanto falamos hoje. Mas, para os modernos, a natureza é uma só: é a mononatureza que as ciências, e só elas, teriam o condão de revelar integral e cabalmente. Daí que privilegiar a exposição de resultados científicos e técnicos revestidos de certeza e consenso parece justamente reiterar essa imagem modernista da natureza como una, única, e cujos segredos sempiternos estão apenas encobertos pelo véu da ignorância, da inépcia, senão do charlatanismo, mas que serão (eis sempre a promessa) desvelados pela verdadeira ciência de uma vez por todas.

Contudo, hoje essa imagem da mononatureza vai se tornando cada vez mais insustentável, pouco crível mesmo. Emerge a exigência de termos que considerar, cada vez mais, outros modos, tais os não ocidentais, de compor a realidade, isto é, outros modos de compor arranjos de humanos e não-humanos, arranjos que permaneceram e ainda permanecem do lado de fora das ciências (e sob a alcunha de cultural, etno-científico etc.). Considerar outros modos de conhecimento e práticas, como os antropólogos têm mostrado repetidamente, revela a multiplicidade da natureza, multiplicidade de naturezas-culturas, de modos de conhecer e compor o real (também ele múltiplo, mas não por isso menos objetivo, senão bem ao contrário). Essa imagem científica da mononatureza se desfaz em multiplicidade (já vários autores falam em multinatureza) no interior mesmo dos domos científicos, como nos laboratórios – trabalho esse mais recente dos antropólogos, e especialmente de uma antropologia da ciência e da tecnologia que se debruça em etnografia em laboratórios de ciências. Ou ainda dos chamados Science Studies, que hoje agregam pesquisadores de grande proeminência no pensamento contemporâneo em uma legião heterogênea de filósofos, antropólogos, historiadores, sociólogos que se voltam à prática das ciências, à ciência em ação, para me valer aqui do título de um importante livro de Latour (2000). São esses estudos altamente férteis e que vêm causando importantes impactos nas várias áreas de conhecimento porque fogem tanto do tradicional elogio fácil às ciências quanto da não menos tradicional e não menos fácil crítica sociológica ou epistemológica feita do lado de fora das práticas científicas, críticas essas que portanto não consideram o que ocorre no interior dos recintos sagrados dos laboratórios, nas bancadas junto aos mais diversos seres e entes de toda ordem (físicos, biológicos, técnicos) com que lidam os pesquisadores e seus mais variados instrumentos (todos ali sob provação). Críticas enfim que apenas acabam repondo uma imagem cada vez mais equivocada e irreal da ciência como neutra, bem como da política e da cultura como poluídas ou maculadas de interesses e paixões.

Mas se essa separação oficial entre ciência e política – a “Grande Divisão”, como aponta Latour (1991) – teve e ainda tem efeitos práticos da maior importância, ela (assim tomada sem mais, isto é, desconectada daquilo que ela permite, que é uma mistura indefinida e em escala de seres) vai se tornando hoje claramente insustentável. Então temos que perguntar: como podemos examinar as ciências uma vez enredadas com as sociedades, as naturezas, as políticas e os mundos diversos (enredamentos de onde elas nunca saíram e sem os quais elas nunca puderam ser realista e pragmaticamente explicadas), mas sem que essa tomada das ciências em rede implique nos desfazermos das ciências? Como pensar as ciências segundo modos de composição sem que isso se degenere em descomposturas e imposturas? Ou dizer: como abrir as ciências sem com isso abrir mão delas? É claro que é urgente a renovação crítica em relação às ciências (como as tendências e os autores que aqui menciono têm apontado). E certamente que essa nova crítica vai ressoar nos museus de ciência e nas atividades de difusão científica; são reviravoltas que devem aí também se infiltrar e produzir sensíveis renovações. Aliás, uma tentativa muito interessante que toca diretamente ao problema da representação é a exposição Iconoclash, na Alemanha, em 2002, cuja curadoria foi feita por uma equipe multidisciplinar, tendo Latour entre eles[5].

Ainda voltarei a essa exigência contemporânea e urgente por abertura das ciências. Mas devo antes reverberar aqui uma notícia em tom meio alarmante da Agência Fapesp, mostrando os resultados de uma pesquisa sobre percepção pública da ciência no Brasil e na Argentina, divulgada em 2015 em uma sessão sobre o assunto no evento denominado Fapesp Week Buenos Aires. As medições dessa pesquisa acabam se acompanhando do desespero dos cientistas, dos especialistas em divulgação, dos governos, das universidades. Então, por exemplo, diz Marcelo Knobel, professor do Instituto de Física da Unicamp e um dos coordenadores desse evento em Buenos Aires:

“Nossos esforços de comunicação, com o intuito de mostrar à sociedade em geral os resultados de pesquisas financiadas com recursos públicos e fomentar o interesse das futuras gerações pela ciência estão claramente falhando”[6].

Não conheço as perguntas feitas aos entrevistados e nem a metodologia dessa pesquisa. Desconfio que se trata de survey que não prevê bem captar o engajamento das ciências e das tecnologias no mais íntimo e cotidiano de nossas vidas – de smart phones a diagnósticos e terapêuticas das medicinas acadêmicas, apenas para mencionar dispositivos de ciência e tecnologia a que vastas populações se ligam diariamente. De todo modo, não quero me ater a isso, senão apenas notar que essa declaração do professor Knobel embute talvez uma importante chave para compreendermos parte desse complexo problema – e chave com a qual iniciei este artigo. Ele se refere ao fracasso das tentativas de se fazer chegar “os resultados de pesquisas” à população. Quer dizer, esta parece então a ciência que se pretende pôr à vista da população: a dos resultados científicos. E o problema subsequente: como traduzir para o vulgo esses resultados?

Talvez o problema (e os desafios que ele põe) resida em grande medida justamente nesse afã de divulgar resultados, isto é, de informar a população. É uma hipótese, sim, mas que talvez se traduza, noutras palavras, no problema-desafio comunicacional não bem das mensagens a serem veiculadas (digamos, a mediação responsável por informar a população a respeito dos resultados científicos dessas pesquisas de financiamento público), mas sim na natureza mesma dessa comunicação, na via de mão única em que ela se dá. E aqui encontro ensejo para voltar ao já mencionado verbete “Vulgarização” de Stengers e Bensaude-Vincent. Com efeito, dizem as autoras: “a vulgarização implica que a ciência é única, ainda que fragmentada em especialidades” (2003: p. 405). E continuam: “A supremacia do termo vulgarização traduz então a derrota de toda alternativa à ciência oficial, acadêmica” (Idem: p. 405).

“Daí se segue que a vulgarização é concebida como comunicação de sentido único, da elite douta rumo à massa do público, tornada receptora passiva de um saber que não lhe concerne, mas que deve a todo custo absorver, já que a falta de ‘cultura científica’ é uma catástrofe ritualmente denunciada” (Idem: p. 405-6).

Aliás, e tão a propósito, não é de surpreender o acento quase catastrófico, como acabamos de ver, com que a agência Fapesp (e ela aqui apenas como exemplo) divulga os fracassos de comunicação junto ao vulgo. Mas convenhamos: se as ciências se ressentem do fato de o povo pouco se interessar por elas, não é verdade que, por sua vez, as ciências, de modo geral (embora não em muitos casos particulares), pouco se interessam pelo povo? Note-se que não é caso de duvidar da vontade (por melhor que seja) de tantos cientistas e instituições em divulgar seus feitos ou da intenção de levar bem-estar e facilidades à população. O ponto, me parece, é que isso hoje é pouco e, em todo caso, como as pesquisas indicam, ineficaz. O desafio que mais e mais se afirma, ainda que minoritário no âmbito oficial acadêmico e político, diz respeito a ingressarmos num trânsito verdadeiro, íntegro, desarmado, simetricamente colaborativo entre o científico e não-científico, de tal modo que essa demarcação (científico e não-científico) não mais se erga “em nome da ciência”[7], proibindo esses trânsitos. Desafio então de promover o alargamento da razão – aqui para lembrar a promessa antropológica de Marcel Mauss (2003), enunciada no início do século XX, em plena expansão da cultura civilizacional tecnocientífica industrial de massa e ao mesmo tempo em plena institucionalização da antropologia como disciplina científica ensinada nas escolas superiores oficiais.

Minha modesta expertise leva a pensar no desafio hoje de como fazer entrar o não-científico no científico. Como não desqualificar de antemão o não-científico? Estamos diante de novas provações tanto para as ciências como para a nossa matriz civilizacional moderna, esta que consigo arrasta e compromete outras civilizações, outros mundos, o próprio mundo[8]. As ciências saberão realmente aprender com os conhecimentos minoritários (por exemplo, de camponeses e indígenas)? E para além (ou aquém) disso: elas saberão lidar com as alternativas minoritárias que se multiplicam no próprio interior das ciências? O ponto então reside nesse desafio: as ciências conseguirão se abrir sem com isso se desfazerem? Saberão expor publicamente suas dúvidas, incertezas, riscos, controvérsias? Cientistas-diplomatas: eis uma figura de que precisamos urgentemente – mas isso exige rever os cânones da própria formação, da especialização dos noviços e noviças que a cada ano entram nas escolas e academias de ciências. Aliás, o problema de interessar o público geral se replica em interessar esse público específico, os jovens que devem ser atraídos para a carreira científica. Essa é mesmo uma outra ponta do que parece integrar um mesmo complexo problemático: o claro desinteresse de boa parte da juventude atual em ingressar nas ciências acadêmicas oficiais[9].

Para tentar avançar, seguirei lançando hipóteses com certa provocação. Então perguntar: as ciências saberão compartilhar questões e não apenas respostas, resultados? Os fóruns das políticas científicas serão capazes de se abrir para elencos mais vastos? Poderemos sonhar o sonho de compartilhar experimentações? “Sonhar outros sonhos”: eis como Stengers (2013: p. 125) resume nossos desafios e nossas esperanças possíveis. E aqui vale insistir: que não se entenda que abrir publicamente as ciências, expor suas dúvidas, incertezas, disputas, controvérsias, signifique diminuí-las ou desprestigiá-las em qualquer sentido. Ao contrário, compõe o rol das principais exigências, dos principais desafios hoje, compreender que expor fraquezas e fragilidades das ciências faz precisamente a fortaleza delas – sempre fez. Nós sabemos que isso não é bem o que o cientista ou a instituição produtora de ciência costuma confessar publicamente (dado que esse modelo de divulgação voltado a mostrar resultados é comprometido com uma noção conjugada de ciência, de natureza e de ação política – noção que supõe que nossa ação política deve ser orientada pelos achados inequívocos das ciências, mas achados já depurados de suas condições de existência, já esfriados em caixas-pretas quase insondáveis).

Se é assim, então outras relações entre as ciências e a política têm que ser inventadas e praticadas. Os problemas atuais do mundo já não vão nos deixando opção senão tentar fazer ciência e política (uma cosmopolítica, na expressão de Stengers) a partir de suas controvérsias, incertezas, fragilidades. Mas é precisamente isso que pode conferir dignidade às ciências hoje (e, por extensão, à política), e num momento mesmo em que novas desconfianças recaem sobre elas – as ciências e a política. Saberemos, nessa mesma reviravolta, não dissimular em nossas exposições e museus de ciências, bem como no jornalismo voltado à difusão científica, essas sutis e frágeis montagens das ciências, o matagal de suas controvérsias e disputas não raramente intestinas?

No referido livro recente de Stengers (2013: 107), essa filósofa da ciência graduada em química, aluna do Nobel de química Ilya Prigogine[10], observa que “(…) a confiança de uma proposição científica é uma qualidade rara e precária, estreitamente dependente do ambiente purificado e controlado em que vivem os colegas competentes, colegas cuja competência não existe senão relativamente a esse ambiente”. Quer dizer, se as ciências convertem essas fragilidades em robustez no interior de seus recintos sagrados, o trabalho de divulgação científica não poderia atuar de modo similar?

O problema de interessar o público convida a refletirmos (como fazem Stengers, Latour, Michel Callon) sobre a própria noção de interesse. Esses autores lembram que, já na etimologia, interesse significa estar-entre. Mas, notemos, para estar-entre é preciso lançar-se a esse movimento de saída de si – o que implica transformação, desestabilização de certezas próprias – no mesmo ato desenvolvendo atenção para outros modos de conhecer, outros modos de compor o real. Ora, hoje as ciências só podem se enriquecer, se refinar com isso – e não o contrário. Para obter adesão é preciso afetar, e para afetar é preciso tornar ativo – e não passivo – o sujeito ao qual a divulgação se endereça. Mas para verdadeiramente reconhecer atividade (criação, especulação) junto ao público, é preciso que, de certa maneira, esse público não seja justamente tomado como público, como alvo onde bombardear informações. Espero que esteja clara essa hipótese de que a própria noção de informação tenha aí que ser radicalmente revista.

Dizendo agora em outras palavras, o esforço de fazer chegar as ciências à população corresponde ao esforço de fazer chegar a população às ciências num movimento de mútua afetação, de transformações recíprocas, visando colaborações simétricas sem medo de engrossar o caldo das controvérsias ou enfrentar novos conflitos. E isso como a mais científica das posturas. O estado da arte das melhores reflexões sobre ciências que conheço hoje indicam suficientemente que essa abertura das ciências já não será uma opção, já não dependerá mesmo de boa vontade ou tolerância dos cientistas e governantes. Por exemplo, os conhecimentos ditos não-científicos despontam hoje, e cada vez mais, simplesmente como decisivos para se fazer frente a problemas ambientais, ecológicos, de segurança alimentar, de modelos alternativos de vida, de troca com o cosmos, com a natureza, com o mundo, enfim, problemas urgentes da atualidade. Mas claro que uma tal abertura provoca uma desaceleração generalizada na produção científica – o que põe, por correspondência, a exigência de também se desacelerar a divulgação das ciências. Divulgar resultados científicos é aderir (não raro irrefletidamente) à captura das “ciências rápidas” – para mencionar aqui essa instigante expressão de Stengers (2013). Mas ir mais devagar, ir mais atento às respostas que as ações científicas provocam no mundo não é desvalorizar, desprestigiar ou desmerecer as ciências – mas exatamente o contrário, porque elas são bem mais interessantes, apaixonantes e vivas do que apresentá-las sob a face fria de fatos descontextualizados de suas usinas de produção.

Precisamos finalmente ingressar no século XXI e estabelecer um recuo em relação àquelas já antigas esperanças e promessas das ciências e das tecnologias tomadas como panaceia e glorificadas nas Exposições Universais para o regozijo da autoimagem da civilização ocidental e moderna. Mas, claro, isso não se fará com menos ciência, senão com mais, e mais interessantes, capazes justamente de interessar (estar-entre) o laboratório e o público; enfim, ciências sensíveis a respostas e alternativas em regimes entre-respondentes (para aqui me valer de outra fulgurante expressão de Stengers; regimes de co-aprendizagem, de saber-entre, saber-com, antes que saber-sobre). Não se trata, devo afirmar isso categoricamente, de recusar as ciências – mas sim de recusar a Ciência com C maiúsculo e no singular, que se firma num céu transcendental e desse modo tende a cair autoritariamente sobre as nossas cabeças – a nos informar, a nos calar. Num momento em que o céu mesmo ameaça desabar sobre nossas cabeças com o aquecimento global e toda sorte de derivas a partir das mudanças climáticas, serão as ciências (no minúsculo e no plural) que irão enfrentar as inconsequências da Ciência no maiúsculo e no singular, e enfim poderem prestar sua colaboração decisiva na mitigação dos graves problemas que estão diante de nós hoje. Justamente, são as ciências (ainda que as minoritárias) as que nos dão diagnósticos de que a atmosfera está esquentando, que os transgênicos em escala industrial estão provocando, como desde a revolução verde na agricultura mundial, isso que se chama de estreitamento ou erosão genética, de que precisamos modificar sensivelmente os hábitos de produção e de consumo na sociedade industrial de massa, de que precisamos encontrar matrizes sustentáveis de energia, etc. Ou seja, são as próprias ciências, das humanas às naturais e exatas, que mostram a realidade em rede, a exigência atual de se desenvolver uma atenção para as consequências (uma “arte das consequências”, nessa outra bela expressão de Stengers, e por onde inevitavelmente as ciências deverão se refinar, se reformar). E com elas, claro, o modo de expor, de divulgá-las. Desafios para os mediadores entre laboratório e público, cujo trabalho de tradução tem muito mais a ver com complicar do que facilitar a exposição, a divulgação, de modo que o papel dessas figuras mediadoras deve ser revisto e dignificado, porque não é nada fácil tornar inteligível e interessante algo complicado. Digo: o complicado é o co-implicado, sendo o desafio mostrar essas co-implicações em rede estabelecidas pelas ações científicas, sem se valer nem da condescendência que toma a atividade científica como inocente (já que protegida pelo âmbito do recinto sagrado criado pela demarcação a priori entre o que conta e o que não conta na produção do conhecimento) e, ao mesmo tempo, sem também se valer da crítica não menos fácil e estável que descansa no denuncismo à ciência, denúncias feitas do lado de fora delas.

Minha esperança como antropólogo é que aí mesmo desponte uma chance de que nossos museus de ciência a cada vez se perguntem a si mesmos se o museu servirá à ciência ou ao conhecimento. Porque se ele se entender como do conhecimento, ele então poderá abrir-se a comparações com outros modos de conhecimento (sem enclausurá-los na etiqueta do étnico, cultural ou folclórico); poderá então expor as consequências tão frequente e ricamente ambíguas das ciências; poderá se valer das mais diversas apropriações das ciências pelo público que nunca foi passivo. Como um novo laboratório, o museu ou o trabalho de exposição das ciências poderá enfim dar seguimento às provações, tão aliás ao gosto das próprias ciências, e pondo as próprias ciências, uma vez fora dos laboratórios, sob provação. As ciências só poderão sair daí mais robustas e finalmente capazes de interessar aos não-cientistas porque irão justamente considerar as apropriações e as experiências da população em relação a elas.

A hora então é de repensar, com a devida urgência, lemas como aquele agonístico constante no brasão da USP (e mesmo em outros da heráldica universitária mundial), segundo o qual “A Ciência Vencerá” (“SCIENTIA VINCES”) – a ciência aí em maiúsculo e no singular, note-se. Não discuto a pertinência ou importância desse lema à sua época. Mas agora o leque de problemas com que temos que nos haver nos obriga (ou deveria nos obrigar) a perguntar: quem ou o que a ciência vencerá? Quem ou o que deve mesmo ser hoje vencido pela ciência? Difícil se esquivar da percepção de que o dragão a ser vencido põe seus ovos no interior mesmo das ciências – e não, ou não apenas, do lado de fora delas. Mas de dentro e de fora das ciências, a exigência hoje é a de considerar (urgentemente, insisto) vias heterodoxas e minoritárias. Outras que simplesmente a dos resultados e do sucesso restrito ao campo disciplinar dessa ou daquela ciência. Exigência, hoje talvez mais do que nunca, de re-entrar no vespeiro das relações entre ciência e política, mas fora da chave da denúncia e da neutralidade. Exigência, enfim, de as ciências considerarem centralmente as consequências de suas atividades, elas agora inevitavelmente tomadas em rede, e por isso tendo que rever (e de fato vêm sendo pressionadas para isso) sua posição de neutralidade, de não-ingerência em tudo o que seria não-científico. Isto porque essa posição agora se mostra muito mais danosa do que normalmente supomos. Posição que protege as ciências e a produção de fatos – fatos cujo destino, uma vez fora dos laboratórios, deixa de ser preocupação para os cientistas, eles que então se eximem dessas considerações para que justamente avancem, progridam em sua ciência. Por exemplo, nós celebramos a manipulação genética e os avanços da biologia molecular. Mas e as consequências dos alimentos transgênicos em termos de erosão genética e cultural na agricultura e na segurança alimentar nacional? Estas são “grandes questões” – no dizer de Stengers (2013) – que as ciências não estavam acostumadas a pôr para si mesmas porque esse desinteresse fundante dos cientistas a tudo que escape do campo científico produziu, produz a velocidade que as ciências alcançaram. Mas e agora que os campos não podem mais se fechar sobre si mesmos? E agora, mais do que nunca, que as ciências são chamadas a prestar contas das consequências de seus produtos, descobertas, invenções, inovações, técnicas? Parece claro que as ciências estão hoje sob nova provação. E, com elas, sua divulgação.

 

Referências

DANOWSKI, D. e VIVEIROS de CASTRO, E. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Desterro [Florianópolis], Cultura e Barbárie/Instituto Socioambiental, 2014.

LATOUR, B. Nous n’avons jamais été modernes. Essai d’anthropologie symétrique. Paris, La Découverte, 1991.

LATOUR, B. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. São Paulo, Editora UNESP, 2000.

LATOUR, B. “O que é iconoclash? Ou, há um mundo além das guerras de imagem?” Horizontes antropológicos, Porto Alegre: vol.14, n.29, Jan./Junho, 2008.

LATOUR, B. Cogitamus – seis cartas sobre as humanidades científicas. São Paulo, Editora 34, 2016.

MAUSS, M. Sociologia e antropologia. São Paulo: Cosac & Naify, 2003 [1950].

PRIGOGINE, I et STENGERS, I. La nouvelle alliance. Métamorphoses de la Science. Paris, Gallimard, 1979.

STENGERS, I. A Invenção das ciências modernas. São Paulo, Editora 34, 2002.

STENGERS, I. Une autre science est possible! Manifeste pour un ralentissement des sciences. Paris, La Découverte, 2013.

STENGERS, I; BENSAUDE-VINCENT, B. 100 mots pour commencer à penser les sciences. Paris, Les Empêucheurs de penser en rond/Le Seuil, 2003.

 

Sites consultados:

Em 14/4/2015: http://agencia.fapesp.br/conhecimento_da_sociedade_sobre_ciencia_na_america_latina_e_dramatico/20985/

 

Recebido em: 1/06/2016

Aceito em: 1/06/2016

 


*Formulado para uma apresentação oral na mesa “A mediação e o protagonismo do público” do “I Seminário Internacional de Políticas Universitárias de Difusão Científica – Ciência à vista!”, este texto sofreu posteriores modificações, ainda que ligeiras, para a presente publicação. Eliminei o tom algo informal da confecção original e acrescentei certas indicações formais, tais as bibliográficas. Agradeço o convite da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão da USP e aos diálogos profícuos com os colegas que também se apresentaram no mesmo evento, bem como com o público participante.

[2] Professor de antropologia, Instituto de Estudos Brasileiros, Universidade de São Paulo.

[3] Sobre a noção de “caixa-preta” nas tecnociências, conferir a acepção de Latour (2000).

[4] O leitor pode se aproximar rapidamente dessa já vasta produção contemporânea dos chamados Science Studies com uma busca simples em bibliotecas físicas ou pela internet. Para uma breve e interessada apresentação desses novos estudos, ver por exemplo Stengers (2002), especialmente a primeira parte do livro.

[5] Uma reflexão do autor a partir dessa exposição na Alemanha pode ser conhecida em Latour (2008).

[6] Cf.http://agencia.fapesp.br/conhecimento_da_sociedade_sobre_ciencia_na_america_latina_e_dramatico/20985/

[7] Sobre o dispositivo do “em nome da ciência”, ver Stengers (2002).

[8] A esse respeito, ver, por exemplo, Danowski e Viveiros de Castro (2014).

[9] Sobre esse assunto em específico, ver Stengers (2013). No mesmo sentido, ver Latour (2016).

[10] Prigogine e Stengers (1979), aliás, escreveram um livro excepcional que reconfigura as relações entre ciência, filosofia, política e cultura. Considero tratar-se de um trabalho incontornável para os propósitos contemporâneos e urgentes voltados ao trânsito entre disciplinas e à renovação (metamorfose) do conhecimento científico.

 

Qual ciência visar?

 

RESUMO: Como uma perspectiva renovada da antropologia pode contribuir para o tema da difusão científica? Como reconhecer a ciência na política e a política na ciência? Como representar mais fielmente o rico e encantador trabalho das ciências? Qual ciência, qual divulgação, qual público? Como contornar tanto o realismo naturalista quanto o sociologismo construtivista? Como situar o desafio de se estabelecer vasos comunicantes entre universidade e sociedade? Como fazer entrar o não científico no científico para o bem e o arejamento das próprias ciências? Como tornar potente a fragilidade e fazer da hesitação um êxito?

PALAVRAS-CHAVE: Antropologia e difusão científica; universidade e vulgarização; fragilidade e hesitação.


Which science to get see?

 

ABSTRACT: How a renewed perspective of anthropology can contribute to the theme of scientific dissemination? How to recognize science in politics and vice versa? How to more accurately represent the rich and enchanting work of science? What science, which disclosure, what public? How to deviate both from the naturalistic realism as the constructivist sociology? How to place the challenge of establishing open relations between the university and society? how to bring the non-scientific to the scientific field for good and ventilation of sciences themselves? How to turn powerful the weakness and hesitation?

KEYWORDS: Anthropology and scientific dissemination; university and make public; weakness and hesitation.