ANO 03 - N06 - "Territórios" ISSN 2359-4705

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Para que o céu não caia

Título: Para que o céu não caia


Resumo: O mito do fim do mundo, relatado pelo xamã Yanomami Davi Kopenawa, diz que, rompida a harmonia da vida no universo, o céu – que no idioma Yanomami é entendido por “aquilo que está acima de nós” – desaba sobre todos os que estão abaixo, e não apenas sobre os povos das florestas. Diante de tantas catástrofes e barbáries que todos os dias nos assombram e emudecem, neste contexto de drásticas mudanças climáticas que escurecem o futuro, o que nos resta a fazer? Como imaginar formas de continuar e agir? O que cada um de nós pode fazer para, a seu modo, segurar o céu?

Não há tempo a perder antes que tudo desabe. O céu já está caindo e aqui estamos nós a viver sob ele. Vamos juntar nossas forças mais íntimas para manter este céu. Cada um à sua maneira. Na Maré, nós dançamos no ritmo de máquinas e carros, balas, gritos, helicópteros, sirenes; nós dançamos sob um calor escaldante, nós dançamos com chuva e tempestade, nós dançamos como uma oferta e como um tributo, para não desaparecer, para durar e para apodrecer, para mover o ar e para se expandir, para sonhar e para visitar lugares sombrios, para virar vagalume, para sermos fracos e para resistir. Nós dançamos para encontrar um jeito de sobreviver neste mundo virado de cabeça para baixo.

Vivemos momentos assustadores, tristes e inquietantes. Fazer uma nova criação requer uma inclinação para a esperança, em especial aqui na Maré. Nesse lugar onde os direitos civis dos moradores são desrespeitados, onde a policia invade residências e mata como se ali não houvesse cidadãos.

A impossibilidade de soluções permanentes exige de nós a disposição de estar sempre a procura de novas composições de forças, tanto nas nossas criações artísticas quanto nas ações práticas no cotidiano. É assim que testamos possibilidades de articular a arte com diferentes aspectos da vida, buscando novos modos de existir e de partilhar experiências e saberes.

Para seguir, dançamos. É a nossa tentativa, nossa colaboração para segurar o céu. Dançar para segurar o céu. É o que podemos fazer. Para que o céu não caia…, dançamos. É preciso constantemente inventar possibilidades num processo sempre inacabado, assim como as casas na favela, em que sempre se está construindo mais um andar, mais uma laje…

Assim dançamos… Espantados, então dançamos…


Autor: Lia Rodrigues

Lia Rodrigues Companhia de Danças

Centro de Artes da Maré, comunidade da Nova Holanda, Complexo da Maré, Rio de Janeiro.


Para que o céu não caia | Brasil, 2016

FICHA TÉCNICA

Criação e direção: Lia Rodrigues

Assistente de direção e criação: Amália Lima

Dançado e criado em estreita colaboração com: Leonardo Nunes, Gabriele Nascimento, Francisco Thiago Cavalcanti, Clara Castro, Clara Cavalcante, Dora Selva, Felipe Vian, Glaciel Farias, Luana Bezerra, Thiago de Souza, com a participação de Francisca Pinto

Dramaturgia: Silvia Soter

Colaboração artística e imagens: Sammi Landweer

Criação de Luz: Nicolas Boudier

Produção/Consultoria de projetos: Claudia Oliveira

Programação visual: Monica Soffiati

Secretária: Glória Laureano

Professores: Amalia Lima e Sylvia Alcantara

Produção/Difusão internacional: Thérèse Barbanel / Les Artscéniques

Residência de criação: HELLERAU-European Center for the Arts Dresden, Alemanha

Coprodução: Festival d’Automne à Paris; Centquatre, Paris; Montpellier Dance Festival – França; HELLERAU-European Center for the Arts Dresden; Kampnagel, Hamburgo; Hau, Berlim; Musenturm, Frankfurt; Tanzhaus, Düsseldorf – Alemanha.

Fotografia: Sammi Landweer

Em parceria com o Centro de Artes da Maré e Redes da Maré