ISSN 2359-4705

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Entrevista com Eduardo Assad

Nesta entrevista, Eduardo Assad, engenheiro agrícola e pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), narra a emergência do tema das mudanças climáticas no âmbito da agricultura no Brasil, descrevendo a constituição de uma complexa rede.

Por: Carolina Cantarino, Janaina Quitério e Oscar Guarin

 

Relação entre agricultura, ciência e mudanças climáticas no Brasil

A experiência começou em 1988, quando participamos do primeiro seminário sobre mudanças climáticas no Brasil, na Universidade de São Paulo (USP). Na época, expus um trabalho  que apresentava incertezas sobre mudanças climáticas. A pesquisa mostrava duas situações: se houvesse resfriamento ou se houvesse aquecimento global. Mas era ainda muito superficial. Naquele momento, esfriar era muito pior do que aquecer. Se esquentasse, haveria alguns problemas de redução de produtividade, mas não tínhamos  muita noção do que era isso. Cheguei a escrever um texto, que não foi publicado, no qual dizia que não havia mudança do clima. Eu trabalhava muito com chuva naquela época: peguei séries históricas de 50 anos ou mais de dados diários e percebi, naquelas séries, que em alguns pontos de grande desmatamento no Brasil, a chuva não estava mudando. Isso era 1988. Um colega da USP chegou para  mim, então, e disse: “Você está errado. Está olhando a chuva. A chuva tem uma dispersão e uma incerteza muito grande. A gente não consegue, nos modelos que temos hoje, falar nada sobre a chuva. Olha a temperatura! Dá uma olhada na temperatura!”. Voltei para o laboratório de biofísica ambiental da Embrapa Cerrados e, com a ajuda de alguns colegas, analisamos as temperaturas. Tomamos um susto! Começamos a ver que a temperatura estava subindo, e numa taxa muito alta. Num período de 100 anos, ela tinha subido o equivalente a um período de 100 mil anos: 0,2; 0,3 graus centígrados  por década.

Imagem produzida durante a oficina Cenários especulativos: fazendo do território uma mesa de trabalho - Como fazer passar o Cosmos por um mapa. Rasgar quebra-cabeças impossíveis, realizada com alunos do mestrado em Divulgação Científica e Cultural (Labjor-IEL, Unicamp) em abril de 2016.

Imagem produzida durante a oficina Cenários especulativos: fazendo do território uma mesa de trabalho – Como fazer passar o Cosmos por um mapa. Rasgar quebra-cabeças impossíveis, realizada com alunos do mestrado em Divulgação Científica e Cultural (Labjor-IEL, Unicamp) em abril de 2016.

E a temperatura mínima também estava subindo muito rápido. Aí começam a surgir alguns problemas. Por exemplo, o milho precisa de dia quente e noite fria. Se a noite é quente, o milho não vai produzir tanto. E a temperatura mínima estava subindo, mais do que a máxima. Começamos a perceber que os invernos estavam ficando mais quentes. Como? Inverno mais quente? Recentemente nevou em cem municípios do Brasil! Sim, evento extremo, em que se tem um período muito frio, mas por muito pouco tempo. Passamos, então, a estudar os eventos extremos e a trabalhar com vários modelos. Nós não tínhamos modelos brasileiros naquela época: eles vinham do IPCC, mas ainda eram modelos que tinham uma incerteza grande, trabalhavam com resolução espacial de 100 quilômetros, essa resolução espacial não dava muita firmeza para nossas afirmações. Mas eles já apontavam para o aumento de temperatura, que variava de 1,3 e 1,4 graus até 5,8 graus centigrados, no ano 2100.

Desde aquela época a Embrapa é responsável pela coordenação técnica do zoneamento agrícola de risco climático. Esse zoneamento indica para o setor financeiro o quê plantar, como plantar e quando plantar, baseado em risco climático, que envolve chuva, temperatura, evapotranspiração etc. Pegamos, então, o café para estudar, trabalhando com essas temperaturas limites de 1,3 e 5,8 oC. “O que vai acontecer com o café?”, perguntávamos. O que chamou a atenção é que não havia muitas mudanças nas variedades que estavam sendo cultivadas. E que, com as simulações  dos modelos, a temperatura ia subir muito, a máxima ia subir muito, o que iria provocar o abortamento de flor, com redução na produtividade, e aumento das áreas de risco. Então, a situação ficou bem complicada: publicamos esse trabalho em 2004, dizendo que o café iria “subir o morro”, em função das temperaturas elevadas, para buscar temperaturas mais baixas e evitar o abortamento de flores. Foi uma discussão acirrada, o pessoal do mercado externo, principalmente, queria saber se existia alguma ameaça. Eu disse que sim, a ameaça existe se nós não fizermos nada. E mantivemos nossa posição. O trabalho foi publicado na revista Pesquisa Agropecuária Brasileira em 2004. O setor da cafeicultura seguiu preocupado, muito cético, buscando encontrar erros na pesquisa. Em relação à ciência, no contexto da discussão científica, você tinha, então, duas posições: aquela em que se confrontam hipóteses a partir de experimentos e a das simulações. Nesse momento, um defende um tipo de modelo, outro defende outra situação. Os geólogos, por exemplo, diziam que não havia aquecimento global porque eram todos eventos naturais. Sim, os eventos naturais continuam acontecendo, porém há um peso do homem nesse fenômeno. E os modelos mostravam que havia uma conexão maior. Para explicar o que estava acontecendo, era preciso juntar os eventos naturais com o antropismo, e isso foi feito em 2007, quando o IPCC lança o relatório dizendo que é inequívoca a ação do homem no aquecimento global.

Isso promoveu uma grande confusão. Retomando a história do café, continuamos insistindo e simulando, para mostrar que o problema era grave. E mostrando com fatos. Por exemplo, São Paulo, entre 1990 e 2008, perdeu 250 mil hectares de café. Deixou de ter café, passou a ter seringueiro. Custo de produção! Custo de produção, mas também perda de produtividade, por conta do sistema que era utilizado, e do aquecimento. Alguma coisa estava acontecendo para esses abortamentos. Em 2008 fomos à Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), e a palestra de abertura foi o trabalho que fizemos, com o apoio da Embaixada Britânica, intitulado “A nova geografia da produção agrícola brasileira”. O que isso significa? Que em função dessas simulações com o aumento da temperatura, algumas culturas iriam mudar de posição geográfica. O café seria uma delas, iria mais para o Sul, subiria a montanha, continuaria concentrado aqui em São Paulo, na Mogiana, e no sul de Minas, mas ele poderia voltar a ser produzido, e pode voltar a ser produzido no Paraná, Santa Catarina e até no Rio Grande do Sul.

A cana-de-açúcar tenderia a descer. Ela está subindo lá para Goiás e Mato Grosso, mas, no momento em que esquenta, abrem-se opções para a cana também no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A mandioca tende a se deslocar do Nordeste, indo parte para a Amazônia e para o Cerrado, porque o déficit hídrico no Nordeste será muito acentuado. E a soja tende a restringir a sua área de produção, por conta do aumento de temperatura e déficit hídrico.No caso da soja, o efeito do aumento da temperatura, provoca aumento na evapotranspiração e consequentemente aumento no deficit hídrico, principal causa das perdas de produtividade. Então,  mantidas as condições dos matérias genéticos atuais  (isso era 2008), considerando a situação de hoje, e projetando a temperatura para o futuro, estamos prevendo para o Brasil: perda de produção, perda de produtividade e prejuízo próximo a 5 ou 6 bilhões por ano. Desde 2009 estamos alertando os ministérios, “atenção, essas perdas estão acontecendo, nessas regiões”, que eram exatamente as regiões que nós havíamos mapeado.

Para mim, o congresso da Abag foi o congresso da virada. Ele começou com um lema: “Agricultura e Sustentabilidade”. E depois das discussões ocorridas no congresso  falando de mudanças climáticas, de mudança de estratégia, eles mudaram para “Agricultura é Sustentabilidade”. É discurso, mas começou-se a incorporar a preocupação do aquecimento global. E daí para frente foram mais de 300 palestras feitas no Brasil. Os grupos que estavam pesquisando aquecimento global e agricultura aumentaram. Temos a Universidade de Viçosa, a USP/Esalq e várias unidades da Embrapa trabalhando nisso. O aumento do grupo serviu de impulso para mudarmos um pouco o enfoque. E qual era o enfoque? “A temperatura está subindo,  e a causa principal é o aumento das emissões dos gases de efeito estufa. O Inventário Nacional de Emissões de Gases de Efeito Estufa dizia que a agricultura era a responsável por 25-30% das emissões no Brasil, o que dava em torno de 600 milhões de toneladas de CO2 equivalente, e os principais gases da agricultura eram metano, o dióxido de carbono e óxido nitroso. Aí vem a pergunta: quanto? E onde? Começamos, então, a fazer pesquisas para aprimorar esses números, que são o que chamamos de fatores de emissão.

Nesse ínterim, em 2008, a Embrapa criou uma plataforma de mudanças climáticas, que começou a trabalhar tanto nos modelos de simulação, organização das informações, espacialização das vulnerabilidades, quais eram as emissões de gases de efeito estufa nos diversos sistemas de produção diversificados – carne, grão, florestas –, e a estimular outros grupos a trabalhar com sistemas de produção, para ver se reduzíamos esses gases de efeito estufa. Surgiu primeiro a plataforma. Pouco depois o Brasil vai para a COP 15, em Copenhague, e assume o compromisso de redução de emissões. Conseguimos, então, incorporar um componente agrícola importante, que faria as reduções das emissões, que é a chamada agricultura ABC – agricultura de baixa emissão de carbono. A agricultura não estava na pauta de Copenhague! Ela só tomava pancada. Eram discursos contra o churrasco, algumas ONGs dizendo que o boi era o vilão das emissões, etc. Aí nós começamos a discutir como esse cálculo era feito: segundo critérios europeus e americanos.Somente considerado a emissão por fermentação entérida do boi… Tudo bem: ele emite, e nós já tínhamos resultados no Brasil, ele emite 55 quilos de metano por unidade animal por ano, valor médio.

Imagem produzida durante a oficina Cenários especulativos: fazendo do território uma mesa de trabalho - Como fazer passar o Cosmos por um mapa. Rasgar quebra-cabeças impossíveis, realizada com alunos do mestrado em Divulgação Científica e Cultural (Labjor-IEL, Unicamp) em abril de 2016.

Imagem produzida durante a oficina Cenários especulativos: fazendo do território uma mesa de trabalho – Como fazer passar o Cosmos por um mapa. Rasgar quebra-cabeças impossíveis, realizada com alunos do mestrado em Divulgação Científica e Cultural (Labjor-IEL, Unicamp) em abril de 2016.

Mas, quando o boi é posto no pasto, a coisa muda. Porque o pasto bem manejado sequestra carbono. O pasto bom sequestra. Então, quando você transforma o metano em CO2  equivalente, e o sequestro do carbono no solo em CO2 equivalente, você tem que medir isso em forma de balanço, e não de emissão pura. O resultado, então, seria: pecuária em bons pastos, você tem balanço positivo. Pecuária em pastos degradados o balanço é negativo. Assim o balanço de carbono no pasto bom é positivo. Nós estamos neutralizando carbono, na forma de COequivalente… Essas foram as estimativas que foram indicadas na agricultura ABC, ou seja, que uma boa prática agrícola, permitindo a melhora da produtividade na pecuária, aumentaria o sequestro de carbono. Mas isso foi no apagar das luzes de Copenhague. De volta ao Brasil, em 2010, a agricultura ABC torna-se um plano de governo, e a partir dali, eu me lembro, foi em 31 de março, o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, assina o Programa ABC. Para nós, foi uma vitória: o ministro da Agricultura assina o programa de mitigação de gases de efeito estufa fundamentado nos conceitos do aquecimento global. Em 2010, aconteceram duas coisas importantes: uma foi a criação da Agricultura ABC, para mim a mais importante de todas. E a segunda é que fomos chamados para um congresso internacional de café sobre o impacto do aquecimento global no café brasileiro (o trabalho que fizemos em 2004). Foi na Guatemala, eu me lembro disso claramente. Eu vou e apresento o trabalho. Quando acabo de apresentá-lo, o pessoal do Centro Internacional de Agricultura Tropical (Ciat), na Colômbia, publica um trabalho idêntico ao nosso, mostrando os mesmos impactos na Nicarágua, Colômbia e Guatemala: o café vai ter que subir o morro, o café está enfrentando problemas com aumento de temperatura… Ou seja, dez anos depois, todas as teses que havíamos defendido no Brasil estavam sendo confirmadas em outros países.

Com o discurso científico mostrando que tinha aquecimento, os modelos foram melhorados, as simulações foram sendo apresentadas, as discussões aumentaram absurdamente, o tema foi incorporado na nossa linguagem e na linguagem do agricultor. O início foi dificílimo. Mais ou menos no final dos anos 2000, o discurso científico foi incorporado em política pública e, a partir daí, mesmo com todas as críticas que foram feitas, essas políticas públicas foram atingindo os agricultores. E o que a gente conseguiu fazer em 2011, 2012, com a criação da Rede Clima, foi reunir um grupo de 15 instituições de pesquisa que tinham essa preocupação na sua pauta. E a Embrapa, internamente, sai de uma plataforma de pesquisa em mudança climática e passa a criar um portfólio de pesquisas em mudanças climáticas. Hoje há uma série de pesquisas nessa linha. Também se criou outro portfólio de pesquisa em integração lavoura-pecuária-floresta, o que foi muito bom, porque associou as boas práticas agrícolas ao problema do aquecimento global: o que fazer com que a preocupação com relação ao aquecimento global na agricultura seja minimizada, desde que essas práticas sejam adotadas. Nós estamos conseguindo mudar as estratégias de produção do pequeno agricultor, incorporando tecnologias, métodos bons. O processo é  lento, mas estamos conseguindo.

 

Modelagem e agricultura, possibilidades de medidas e cálculos

Todos os modelos que foram desenvolvidos até agora – relacionados à vulnerabilidade, ao aquecimento global – estavam baseados nos modelos mais simplificados do zoneamento agrícola de risco climático. Nós trabalhávamos com risco climático. O que é isso? Você tem uma planta, por exemplo, a soja, ela tem quatro fases (germinação, crescimento vegetativo, enchimento de grão e maturação). Onde não pode faltar água? No enchimento de grão. Então, criavam-se sistemas para modelagem estatística, em que era calculada a deficiência hídrica na época do enchimento de grão e feita essa simulação: pegava-se 30 anos de dados, “vou plantar soja nesses 30 anos, vou plantar soja no dia primeiro, preciso saber se vai faltar água daqui sessenta dias”. Aí, eram gerados números, e a partir deles se calculava a probabilidade de faltar água nesses sessenta dias. Vai faltar água? Então, se não preenche as condições de risco, muda-se as datas…

Nós dividimos o ano em 36 períodos de 10 dias e fizemos essas simulações para 30 anos para essas culturas, considerando três tipos de solos e vários ciclos de cultura, para poder identificar qual a melhor data de plantio disponível, de modo a poder garantir, no mínimo, 80% da produção. Isso jamais foi feito pensando em aquecimento global. Com o tempo, vimos que uma das variáveis que entram  no zoneamento agrícola é a evapotranspiração, que depende da temperatura. Então, como vamos incorporar o aquecimento global nisso? Nos  dados de entrada dos modelos. Vamos então refazer esse zoneamento, incorporando o aquecimento global e fazendo o zoneamento até 2100 usando as temperaturas do modelo. Fazia-se exatamente a mesma coisa, só que, em lugar de usar o valor atual, usavam-se os valores futuros com todas as incertezas, e aí você ia vendo se as áreas de baixo risco aumentavam ou diminuíam, e com isso é possível começar a ver quais são as áreas vulneráveis. Essa foi a primeira hipótese.

Os dados climáticos foram um dos problemas que enfrentamos. Temos uma dificuldade muito grande em relação a dados climáticos no Brasil, mas já estamos trabalhando hoje com cerca de três mil estações pluviométricas que permitem fazer isso. Segundo: esses modelos são muito simplificados. Hoje, o que se está fazendo é melhorar esses modelos, trabalhando com modelos mais complexos, nos quais você começa a operar um pouco com risco, probabilidade ou ocorrência de geada, probabilidade ou ocorrência de deficiência hídrica, de máximos de temperatura, aumento de CO2. Os modelos mais complexos incorporam variações de temperatura, variações de CO2,, variações de nitrogênio. Trabalha-se com esse tipo de situação, e aí entra cultivar, duração do ciclo cultivar, recomendação para esse cultivar, para qual região – é tudo regionalizado. Essas recomendações são feitas por município. Tipo de solo é uma variável  importante e, aos poucos, está melhorando, seja por meio de modelos pedológicos, seja por meio de cartografia digital.

Nós estamos saindo de modelos muito simplificados – e isso começou em 1996 –, e indo para modelos mais complexos. Mas não podem ser muito complexos, porque não se consegue transformar modelos complexos em política pública. Você faz um excelente paper, mas não consegue transformar em política pública. Sempre se procura um equilíbrio entre o que você está fazendo e o que vai ser pedido. E o esforço que está sendo feito é o de reduzir a incerteza – que está quase toda baseada na qualidade dos dados meteorológicos e dados de solos. Esses são os principais problemas que temos hoje no Brasil. Essas simulações são todas feitas em computador, mas a maioria é apoiada em informações de campo. Em experimentos de campo, os pesquisadores continuamente fazem esse tipo de melhoria, informando a duração do ciclo, o consumo de água, a produtividade, e isso tudo vai sendo incorporado aos modelos todos os anos. Hoje, no Brasil,  é feito o zoneamento para mais ou menos 44 culturas, para todos os municípios do país. Neste caso o modelo tem como saída o risco da produção. Outro modelo é aquele do aquecimento global. Aí já é bem mais complexo. São utilizados modelos fisiológicos, modelos mecanísticos, verifica-se como uma determinada planta reage em termos de produtividade final. Também nesse caso nós temos uma vantagem, uma situação, que, por enquanto, pode ser vantajosa em relação a outros países desenvolvidos. O Brasil, em relação a algumas culturas, está ainda num nível tão baixo de produtividade onde o aumento pode ser feito com o manejo correto das culturas. Por exemplo, o milho. Estamos hoje com produtividade média nacional de 4 toneladas e meio de milho por hectare. Há pouco tempo, eram duas toneladas. Podemos chegar a 10. Antes de o aquecimento global começar a impactar fortemente na perda de produtividade do milho, nós ainda temos um ganho muito grande com tecnologia. Os outros países não, eles já atingiram esse patamar de tecnologia. Eles estão preocupados com CO2 , com temperatura e com água. Em relação à perda da produtividade, eles já chegaram num patamar de produtividade elevado, não têm mais como subir. Nós, não, ainda temos que reduzir o gap de produtividade que existe hoje. Por isso é que, a cada ano que passa, com a incorporação de tecnologias de produção que já existem, nós estamos atingindo cada vez mais safras maiores, de 150, 200 milhões de toneladas – tudo isso é um gap tecnológico que existia e que, aos poucos, está sendo incorporado nessa produção.

Resumindo, há, então, dois níveis de complexidade. Um que é para orientar política pública, que está incorporando novos dados e reduzindo a incerteza desses dados, e o outro que é laboratorial, modelos complexos, mecanísticos, nos quais você incorpora uma série de informações sobre a planta, 50, 60 variáveis, para ver qual o impacto que o CO2 , a temperatura, a água, vão ter na produtividade final.

Imagem produzida durante a oficina Cenários especulativos: fazendo do território uma mesa de trabalho - Como fazer passar o Cosmos por um mapa. Rasgar quebra-cabeças impossíveis, realizada com alunos do mestrado em Divulgação Científica e Cultural (Labjor-IEL, Unicamp) em abril de 2016.

Imagem produzida durante a oficina Cenários especulativos: fazendo do território uma mesa de trabalho – Como fazer passar o Cosmos por um mapa. Rasgar quebra-cabeças impossíveis, realizada com alunos do mestrado em Divulgação Científica e Cultural (Labjor-IEL, Unicamp) em abril de 2016.

Manejo e sistemas de produção

Esse é o grande potencial que o Brasil tem na mão. É impressionante. Estamos terminando um trabalho junto com o pessoal da Fundação Getúlio Vargas (FGV) no qual identificamos mais de 40 sistemas de produção em que se pode incorporar a integração lavoura-pecuária e lavoura-pecuária-floresta. Isso significa que se tem um estoque, um potencial tecnológico para qualquer canto do Brasil, e a gente separa isso por bioma, onde você vai ter, em uma determinada  propriedade, produção o ano inteiro. O agricultor vai poder produzir fibra, grão, carne. Proteína animal, proteína vegetal e fibra, madeira. Nós temos diversos sistemas, testados em diversas situações do Brasil, pouca coisa no Nordeste, muita Amazônia e na franja com a Amazônia/Cerrado, muitos sistemas no Cerrado, algum no Pantanal e muita coisa no Sul do Brasil.

Esses sistemas de produção são aqueles que, primeiro, reduzem o impacto da deficiência hídrica, porque se faz a integração lavoura-pecuária, planta-se em cima do pasto, e o pasto segura a água. Como as plantas crescem mais rápido, então, mantem-se a umidade do solo. Colheu a soja, o resíduo da adubação da soja ou do milho permite que o pasto cresça mais rápido. Essa é apenas uma forma de fazer, há várias outras. Recentemente, fizemos uma conta: se você pegar os diversos patamares de produtividade que o Brasil tem hoje, jogar num horizonte de 50 anos e fizer um esforço de aumentar, a cada dez anos, um degrau nesse patamar de produtividade, em 2050, 2060, vamos ter uma produção de 340 milhões de toneladas de grãos. No ritmo em que a coisa está indo, acho que será antes. Mas é só com adubação. Por outro lado, tentamos trabalhar com a redução da adubação nitrogenada, para ver se emite menos nitrogênio.

Você vai, então, para o pasto. Há 170 milhões de hectares de pasto no Brasil, último número levantado pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Desse total, pelo menos 48 milhões são pastos degradados, que precisam ser recuperados. Aí entra a Agricultura ABC. A gente só recupera isso com bons sistemas e bons manejos desse pasto. Ao recuperá-lo, podemos propor, então, o uso do sistema lavoura-pecuária. Cada hectare, se você fizer lavoura-pecuária, tem uma produtividade potencial no pasto de 3 toneladas de grãos por hectare. Então nestes 48 milhões de hectares, é possível produzir  mais 144 milhões de toneladas de grãos. A soma final seria de 484 milhões de toneladas de grãos. Existe ainda a possibilidade de transformar todos os pastos em sistemas integrados. Neste caso, a produção seria ainda maior. Desse modo, poderíamos ultrapassar a demanda mundial de alimento para a segurança alimentar, que são 600 milhões de toneladas no ano 2050.

O Brasil é o único país do mundo que tem condições para fazer isso, e sem derrubar um hectare: desmatamento zero. Legal ou ilegal. Mas qual é o problema? Por que não atingimos os 600 milhões? Transferência de tecnologia. O conhecimento não chega ao campo. E aí tem que chegar com várias condições: isso aqui é bom, aí vem a conversa econômica. É bom, mas eu ganho quanto? Se não tiver um retorno para o produtor, ele não vai nem mexer. Custa caro, vai dar trabalho, não tem mão de obra, não vai mexer com isso. Então é preciso mostrar que custa caro no curto prazo, mas no médio e longo prazo vai dar retorno, e que se ele se capacitar, consegue fazer. O nosso problema, hoje, chama-se, basicamente, transferência de tecnologia.

 

Inovações tecnológicas, relações com a produção, relação com a Terra

A crítica que se faz hoje é que esse modelo que estamos usando – que é um modelo da revolução verde – está esgotado. Temos solução para tudo? Quase tudo. Não é só adubar e produzir. E o pequeno produtor, como ele faz? Quem vai ensinar ele a adubar? Ele faz análise de solo? Como essa coisa é feita? Ele quer adubar? Esse modelo, que foi o grande modelo da revolução verde, que transformou a agricultura brasileira, está esgotado por algumas razões importantes. Primeiro, esse modelo é energicamente negativo, do ponto de vista do balanço de energia, ele consome mais energia do que produz. Ele não agrega valor, exporta grão, depende das flutuações do mercado externo. Estamos produzindo algumas culturas no Brasil como a gente fazia no ciclo do café, no ciclo da cana, da borracha, período do século XVIII.

O problema, nessa discussão do aquecimento global, é que o aumento da temperatura vai ser o impacto mais democrático do mundo, porque vai atingir todo mundo. E os que têm menor condição serão os mais atingidos. E isso serve para o Brasil também. É preciso saber como vamos fazer com 1 milhão e 800 mil propriedades de pequenos agricultores no Brasil que vão ser atingidos. Que tipo de tecnologia vamos adotar? São, no total, 4 milhões de propriedades, incorporando aí os assentamentos. Essas propriedades é que serão inundadas, que vão perder a produção toda; nelas é que um vendaval levanta as pequenas estufas de produção de hortaliças nas regiões circunvizinhas das cidades, e em vários casos a seca é avassaladora. Quais estratégias nós estamos adotando hoje para isso? Por isso foi criado, na Rede Clima, um componente de relações humanas, que está começando a nos passar essas inquietações e a apresentar soluções no médio prazo. Temos tudo para superar essas questões. Gente, tecnologia, vontade e competência. Faltam mais políticas e governança.