ANO 03 - N06 - "Territórios" ISSN 2359-4705

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Cenários especulativos: fazendo do território uma mesa de trabalho (Oficina 1)

Título: Cenários especulativos: fazendo do território uma mesa de trabalho (Oficina 1)


Longe de ser algo estável, o território emerge como um plano variável, onde o ethos do homem se refaz a cada encontro, a cada conexão e posta em comunicação efetiva com o mundo. Entendemos o território como um campo experimental de qualidades metaestáveis e profundamente moduláveis, onde o hábito é uma passagem de baixa aderência e o problema se instaura na criação de modos de habitar sempre outros. Habitamos o território nomádica e intempestivamente, o que faz da possibilidade de uma nova terra um germinar constante e ilimitado no singular da matéria que pisamos a cada passo. Diante de uma percepção de hábito que julga, contrapõem-se novos modos de habitar o território, novos modos de habitar o papel, a escrita, a expressão. Dispor-se em mesas de trabalho onde cenários especulativos como territórios por vir possam ganhar existência.


1. Oficina: Novos modos de habitar o papel. A potência do traço.

Se há algo que nos podem ensinar É isto um homem?, de Primo Levi, e A dor, de Marguerite Duras, é que diante do estupor de um acontecimento que leva nossas vidas a um estado de catástrofe, só nos resta ser dignos dele, fazendo de nossa expressão um fervilhar de vida antes que a testemunha de uma sobrevivência. Para o escritor, o acontecimento que o força a escrever não é mais do que uma restrição afirmativa de como ele, com seus procedimentos, pode criar interferências de traços-grafos no papel. O acontecimento – para Levi e Duras, o Holocausto – é um limite que impõe a criação de novos modos de relação (entre nós e a vida, entre nós e o papel/escrita). O acontecimento que hoje nos violenta é o que Isabelle Stengers chama de Intrusão de Gaia. Vivemos em tempos de catástrofes, mas somos dignos do tempo que temos que viver? É assim que queremos levar o pensamento em relação a um certo fazer com as mãos a um estado catastrófico, para que entre traços de lógicas aberrantes possamos inventar novos modos de habitar o papel, novos modos de “desenhar” e estar juntos na presença de Gaia, pois sua intrusão não só se manifesta no clima, mas também na extinção dos processos criativos.

Oficinas ministradas como parte da disciplina de pós-graduação “Literatura, Cultura e Sociedade” (Labjor/IFCH/Unicamp)

Ementa: A disciplina abordará problematizações que se fazem nas interfaces entre literatura, comunicação, antropologia, arte e filosofia, para pensar as potencialidades da escrita e tensionar as oposições entre real-ficção, verdadeiro-falso, objetividade-subjetividade, pesquisa-escrita etc. Exploraremos autores que tratam a literatura como campo de experimentação do humano e da vida, como potência de cura, como política de minoridade. Autores que se propõem a pensar “com” a literatura e não “como” a literatura, o que implica inventar um modo de pensar que não está dado, em pensar a literatura mesma pelas novas forças que ela é capaz de mobilizar, reunir, compor. Neste semestre, a disciplina abordará a crise de pensamento e de modos de existência que vem sendo diagnosticada em diversos campos do conhecimento: “niilismo” e “esgotamento” (PELBART, 2013), “crise da natureza” (LATOUR, 2013), “aceleracionismo” e “extinção do humano” (DANOWSKY; VIVEIROS DE CASTRO, 2014), “redução à impotência” e “intrusão de Gaia” (STENGERS, 2003, 2014, 2015). Investiremos em disjunções e contaminações entre literatura, comunicação, antropologia, arte e filosofia que deem a pensar o acontecimento da escrita (com imagens, palavras e sons), trabalhando com conceitos como cosmopolítica, mundo comum, outrem, devir e fabulação.

 


Concepção, organização e fotografias: Susana Dias, Fernanda Pestana e Sebastian Wiedemann

Desenhos: Caue Nunes, Carolina Scartezini, Jaqueline Galvis, Larissa Ferreira, Marina Cunha, Paula Montanari, Paula Batista, Ricarda Canozo, Renato Oliveira, Renata Santana, Roberta Scartezini, Rodrigo da Costa, Rodrigo Marcondes, Sebastian Wiedemann, Tássia Aguiar, Tatiana Plens, Vivian Pontin.

Data: 06/04 no Labjor-Unicamp

 

Projetos: Mudanças climáticas em experimentos interativos: comunicação e cultura científica (CNPq No. 458257/2013-3); Sub-projeto “Sub-rede Divulgação científica” da Rede Brasileira de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Globais (convênio FINEP/ Rede CLIMA 01.13.0353-00).

 

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