ISSN 2359-4705

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Semiárido da Luz do Conhecimento!

Por Paulo Nobre

Ph.D. Pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Coordenador Geral da Rede Brasileira de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais – Rede CLIMA. Ministério da Ciência, Tecnologia e Informação (MCTI)

 

“A Seca, que traz a fome e a morte! O Sol, que traz a luz e a vida!”

 

Na porção semiárida da Região Nordeste, que abriga 22+ milhões de pessoas em 980.000 Km2 (IBGE, 2010) são características marcantes: os recursos hídricos escassos e a abundante energia radiante do sol. E das interligações entre água escassa, solo raso e sol abundante surge seu bioma perfeitamente adaptado da Caatinga.

A lógica da água como insumo basilar para o desenvolvimento da Região Nordeste norteou investimentos Federais ao longo de décadas. E não obstante tenha contribuído para a melhoria de sua infraestrutura hídrica, se mostrou insuficiente para promover a riqueza de sua população. Reféns de práticas agrícolas exóticas e programas de distribuição de renda, a população de baixa renda permaneceu sujeita às consequências adversas da seca. Não obstante suas riquezas naturais abundantes, a Região Nordeste continua a registrar um bolsão histórico de pobreza e inequidade social.

Este ensaio apresenta elementos de um novo paradigma econômico-social, que procura nos elementos do clima local suas vantagens comparativas a outras regiões do país e do planeta. O elemento mais abundante no clima semiárido do Nordeste é sua insolação. Aproveitada para integrar o parque gerador de energia elétrica fotovoltaica distribuída no país, traz a possibilidade de tornar a Região próspera. Tal possibilidade se materializa pela conjunção de desenvolvimentos tecnológicos recentes para conversão fotovoltaica, que tornaram os custos de sua instalação extremamente competitivos relativo a outras tecnologias, associada à infraestrutura de geração e distribuição da hidroeletricidade no território nacional.

O novo paradigma, aqui denominado “Semiárido da Luz do Conhecimento” é alicerçado em três elementos endógenos e abundantes na Região: a luz solar, o bioma Caatinga, seu povo.

A Geração distribuída de energia elétrica fotovoltaica em pequenas propriedades rurais, sobre áreas em avançado processo de desertificação representa uma forma perene de geração de renda própria, para uma faixa da população historicamente excluída.  Um hectare de plantio de milho no semiárido produz uma riqueza, num ano de chuvas regulares, que representa uma centésima parte da riqueza gerada pela energia elétrica fotovoltaica com tecnologia atual (i.e. eficiência de 10%). Além disto, a utilização dos painéis como área coletora de água de chuva, armazenada em cisternas, apresenta um fator adicional de resiliência ao clima semiárido, favorecendo a fixação do homem no campo. No mais,  a implantação de um parque distribuído de microgeração de painéis fotovoltaicos em todo o semiárido do Nordeste (não somente, mas também nas demais Regiões do país), alavanca uma cadeia produtiva de grande envergadura, desde o financiamento de pesquisa em física do estado sólido em centros de pesquisa e universitários nacional, até serviços de montagem e manutenção de painéis, além de sua própria eventual fabricação no Nordeste. Em adição aos fatores benéficos em escala de nação que esta cadeia produtiva acarreta, a geração massiva de energia fotovoltaica distribuída contribuiria com o esforço de mitigação da emissão de gases de efeito estufa, colocando o Brasil no mapa do mundo com uma matriz energética 100% limpa.

O Replantio da Caatinga é complementar ao esforço de geração fotovoltaica distribuída, na medida em que aumenta a resiliência climática contribuindo para a regularização do ciclo hidrológico, preservação da umidade, do solo e da biodiversidade. Com trabalho remunerado através do Programa Replantando Caatinga, representa uma fonte complementar de renda ao trabalhador rural.

O Ensino para o “cidadão do mundo” representa no longo prazo a mais potente alavanca para a transformação social, particularmente na presente era da informação, onde a distância entre o mercado consumidor e ofertante de serviços é medida em megabits por segundo, sendo inversamente proporcional à largura de banda das vias expressas de telecomunicações, a internet. Adicionalmente, as condições ambientais severas a que está sujeita a população no Nordeste semiárido, podem representar uma vantagem comparativa para os jovens do Nordeste no mercado mundial interconectado pela internet, ao contarem com o ensino de línguas, inclusão digital e eletrotécnica, assim como técnicas agrícolas avançadas, adaptadas ao clima; com apoio financeiro do Programa Bolsa Estudante Cidadão do Mundo.

Os elementos elencados neste ensaio representam uma provocação conceitual ao paradigma da seca e da fome, desafiado neste repente da luz e da vida. O clima semiárido do Nordeste pode representar um diferencial definitivo para a promoção do desenvolvimento regional e inclusão social, pela adequação das atividades econômicas locais com suas potencialidades naturais.

Os conceitos aqui apresentados são frutos da vivência do autor na pesquisa sobre o clima do Nordeste, suportados por resultados de pesquisa em curso da Rede CLIMA, criada pelo Governo Federal com o objetivo de gerar a base científica do conhecimento sobre as mudanças climáticas para apoiar a criação de políticas públicas no Brasil.

Per si, o conhecimento científico e tecnológico são insuficientes para modificar o destino do homem. No entanto, aliado às instituições em sua implementação como políticas públicas possibilita alterar nossa percepção da “realidade”, gerando no presente condições para a materialização de um outro futuro, que ousamos sonhar. E ao representar uma conquista de cada pessoa, se pereniza através das gerações.

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