ISSN 2359-4705

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Dois mil e onze foi um ano ruim

Título: Dois mil e onze foi um ano ruim


Autor: Pedro Luis Marcondes


Resumo:

Poemas escritos em 2011 sugerem agora, em 2015, uma possibilidade de reflexão: “2011 foi um ano ruim…”. O intuito é elaborar conflitos de uma ideia retrógrada persistente: ausência.

Pedro Marcondes, bacharel em produção audiovisual (ingresso em 2007) pela Faculdade de Imagem e Som pertencente ao – Departamento de Artes e Comunicação (DAC), da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar). Trabalhos musicais de sua autoria: https://soundcloud.com/pedro-luis-marcondes.

 

(Audio 1)

 

Primeira parte:

 

I

O semeador saiu para semear

aquele que tiver ouvidos, que ouça

o coração deste povo tornou-se duro, e duros também os seus ouvidos

insipido e sem sabor

se queres minha tunica largo-lhe também a capa

a chuva cai sobre todos

por que andais ansiosos?

E por que vês o argueiro no olho do teu irmão, e não reparas na trave que está no teu olho?

 

II

No sereno e molhado

Das primeiras gotas fez-se o limo

tornando-me insipido

E das últimas fez-se o mofo

tirando-me os gostos

E quando sequei, já cansado, perguntei:

Porque ando ansioso,

indefinido como uma infinita noite silenciosa,

Se a chuva cai sobre todos?

E eu, a culpar a torrente, descobri

Que em mim se chovia

nada crescia

tudo tão duro e seco

que quando a chuva veio,

o solo partiu,

engolido por mim mesmo

Encoberto pela areia

Esperei alguém semear

E por muito tempo não arremessaram nada

Na aridez o solo amargou

Inconformado de ter plantando em muitos coisas boas em outros tempos

E não ter agora reconhecimento

Envenenava então o que estava adjacente

Ainda que não quisesse era o que lhe cabia

Sendo dito por alguns ser almadiçoado o terreno

Cansado.


 

(Audio 2)

 

Parte 2:

 

Lao Tsé na montanha
Caminha serenamente com um sorriso peculiar

Lao Tsé na montanha
Junto ao seu bufalo
Ele beija o bufalo e conta seu segredo
e para admirando o céu
agarrado na estrela
montado nela invade a aldeia
aponta o sujeito feio de barba por fazer
“você!!
Como desconfio!
Desconfio de todos vós
Desconfio deveras da vossa pérfida beleza
Pareço-me com o amante que desconfia do sorriso meigo demais.
Como o ciumento repele a sua amada, terno até na sua dureza,
assim eu o repilo!
Para longe de mim!”

(Trecho de Assim Falou Zaratustra – F. Nietzsche)

 

Assécla magro,
primata doente,
vertente estúpida de uma genealogia mal sucedida,
antes os lemures tivessem reinado!,
praga inconstante e potencialmente cruel
criativa no narcisismo, bela no desequilibrio,
o hálito de meu bufalo é mais digno que a unha do dedo
mindinho de seu pé direito!

 

Trovador de infortúnios, a mais vibora dos ofidios é uma aprendiz
burra diante de uma criança “engraçadinha”
Todas essas almas defumadas,
corrompidas,
consumidas,
aborrecidas,
azedadas,
só ouvem sibilar as tempestades,
e gostam de chover sozinhas, sozinhas,
e depois secarem ao sol sozinhas, sozinhas,
para quando se cansarem cutucarem o vizinho
exporem seu sacrificio,
venderem seu sorriso,
darem a si um preço e um belo penteado,
entediados com a burrice de uma noite que não amanhece,
epiléticos e alienados,
crentes de toda liberdade

Cansado.


 

(Audio 3) 

 

Parte 3:

 

I

Manhã, o olhar desorientado,
A cabeça baixa, a cabeça baixa
Olhando os pequenos pés, os pequenos pés,
firmamente o firmamento, firmamente o firmamento,
despertando ao abrir dos olhos
Chove tão perto e o tempo todo do
lado de dentro, e de tanto inunda-se de soro,

E lá fora tão quente, nas maçãs do rosto
avermelhadas de alguém que passa,

Chove tão perto e o tempo todo do
lado de dentro, e de tanto inunda-se de soro,

Bebe a agua do chuveiro, perdido em um macro
diário de ensaboar o corpo só pelo meio

Esquece de limpar a face
e se olhar no espelho
e pentear os cabelos
e os olhos tão entretidos com o piso e o chão
com o piso e o chão
com o piso e o chão

 

II

Não se pode esconder aqui
Se não tem escolha a unica escolha
é se estender e assistir
Por vezes na inocência
o cordial expor para não ser exposto
Com o tempo a muitos a incoerência vem
De achar tudo um tanto justificavel
E tornar-se um hábito ajoelhar os outros
com o sorriso no rosto
a lingua afiada
a malicia agraciada, quase digna de aplauso
uma piada-pilula de satisfação pela
ausência de chão do outro

 

III

Posso estar enganado ao dizer
Que pelo fim da tarde o sol projeta
apenas sombras no chão
E que com certa poesia
vemos a igualdade sem precisar de rostos
pernas, ombros,
sem traços característicos,
especificos,
unicos,
belos ou feios,
brancos,
vermelhos,
amarelos,
negros,
distintos de valores,
simétricos ou não,
apenas sombras no chão

derrotado no banheiro nunca.


 

(Audio 4) 

 

Parte 4:

 

Dois mil e quinze tem sido um ano bom.