ISSN 2359-4705

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Entrevista Carlos Mondragón – Antropólogo

Divulgar é criar arquipélagos audiovisuais. Colocar próximas comunidades de palavras, imagens e sons bastante distintas. Fazer com que vivam juntas e se afetem mutuamente

Por: Equipe ClimaCom

Como pensar e viver de maneira efetivamente insular em um contexto de crise ambiental, que também é econômica e política? O antropólogo Carlos Mondragón extrai esta questão dos modos como vivem e pensam os povos indígenas das ilhas do Pacífico Ocidental e problematiza a insuficiência do conhecimento e pensamento estatais e institucionalizados – que também marcam os movimentos sociais –, e que nada mais fazem do que recolocar fronteiras rígidas e intensificar isolamentos e separações. Viver e pensar de modo efetivamente ilhado é, no entanto, relacionar-se, inventar proximidades e interconexões potentes entre seres e coisas do mundo, entre formas de organização, conhecimentos e pensamentos. Leia a transcrição da entrevista e assista ao vídeo, que propôs uma experimentação afetada pelas questões que Mondragón apresenta.

Divulgar é criar arquipélagos audiovisuais. Colocar próximas comunidades de palavras, imagens e sons bastante distintas. Fazer com que vivam juntas e se afetem mutuamente. Neste vídeo buscamos relacionar uma entrevista realizada com Mondragón, uma performance teatral executada pelo Coletivo Onírico de Teatro em Campinas-SP, as fotografias de Natasha Mota e a trilha sonora feita pelo músico João Arruda. Um intenso querer o encontro entre ciências e artes como um convite a experimentar a divulgação científica como criação de relações. Relações, entretanto, de naturezas diferentes. Relações moventes, abertas, estranhas, indígenas. Relações que nos expõem a percepções distintas do humano. Não há mais como guardar-nos numa sintaxe pré-definida e numa gramática audiovisual dominante. Chove. Chove em nós. Chovemos nós. (http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/?p=2022)

 

 

Gaia não pode se reduzir a uma metáfora mítica e moralmente positiva

Os povos com os quais eu trabalho pertencem a uma região do Pacífico Ocidental muito, muito grande. Entretanto, são quase invisíveis nos mapas internacionais. Porque – como são ilhas – estão distantes dos grandes centros, não são familiares às grandes cidades, aos continentes europeu e americano. Os pensamos como lugares muito marginais. São sociedades marítimas e, muitas delas, vivem em ilhas pequenas ou em mundos insulares, mesmo que sejam grandes ilhas. São lugares onde as pessoas precisaram aprender a viver em meios ambientes muito demandantes. São meios ambientes que demandam formas constantes de interação e adaptação humana. Isto é importante porque, ao falar de conhecimento indígena neste contexto – “o que pode o conhecimento indígena contribuir com a discussão atual, em relação ao conceito de Gaia, em um contexto de crise ambiental?” –, a sua contribuição é oferecer uma solução ao problema de pensar de maneira insular, de maneira realmente insular, de uma maneira realmente ilhada. Como se as coisas se reduzissem a fronteiras e problemas de guardar-nos, em lugar de relacionar-nos, durante um contexto de crise ambiental, que também é econômica e política.

Quando falamos de uma perspectiva de Gaia vou recuperar um sentido deste termo, o sentido não de uma totalidade, mas de um conjunto de relações e de nexos de relações. Eu sou mais da opinião de que o conceito Gaia que necessitamos tem que ser necessariamente secular, tem que ser contemporâneo, não pode ser simplesmente uma metáfora de uma Gaia mítica sagrada. Isso enquanto um conceito acadêmico, intelectual, que eu posso manejar. Tampouco creio que os povos que geram conhecimento indígena – os índios, as comunidades marginais… – estejam manejando uma forma de vida necessariamente mais sagrada ou moralmente mais positiva. Simplesmente é outra maneira de relacionar-se com o mundo, se entendemos o pensamento como um conceito secular e os indígenas, as populações não estatais, como gente que vive em um mundo também secular, porém muito mais conectado com seu meio. Não apenas o meio ambiente, mas o meio circundante, o mundo físico, um mundo que não está propriamente separado do humano. Nós pensamos em um humano necessariamente separado do natural. Porque seguimos pensando em termos de que nosso trabalho transforma a natureza, não pensamos que as coisas estão mais interconectadas do que isso. Em muitas dessas populações indígenas, de onde sai o conhecimento indígena, que eu estudo, não existem essas separações tão fortes. Podem existir diferentes graus de separação do natural e do humano, porém é muito mais fácil pensar em interconexões, entre o humano e outras espécies, outros seres.

 

“Um clima bom para tomar outros banhos”, performance realizada pelo Coletivo Onírico, durante o evento Afetos Nascentes, na cidade de Campinas, em novembro de 2014. Confira o ensaio completo na seção de arte.

“Um clima bom para tomar outros banhos”, performance realizada pelo Coletivo Onírico, durante o evento Afetos Nascentes, na cidade de Campinas, em novembro de 2014. Confira o ensaio completo na seção de arte.

A urgência de formas não estatais de organização e pensamento

O problema que temos hoje é que estamos vivendo dentro de formas de pensamento muito rígidas, onde seguimos funcionando com modelos de pensamento institucionais, estatais, internacionais, níveis burocráticos… que tiveram diferentes usos e geraram certos resultados nos últimos duzentos anos, mas que já são insuficientes para atender a situação do mundo hoje. Não que sejam desnecessários, porém não são suficientes. O que o conhecimento indígena pode contribuir com as conexões entre ciência, meios públicos e envolvimento da sociedade é, precisamente, oferecer-nos uma visão mais flexível, mais múltipla, de formas de ação. Às vezes vemos isso nos movimentos sociais. Às vezes eles nos oferecem aspectos de diferentes maneiras de tratar o problema. Mas, infelizmente, quando o movimento social fica sozinho em uma resposta radical contra as instituições, tampouco oferece muitas alternativas. O conhecimento indígena não cresce e não posiciona as instituições. O conhecimento indígena estava aí antes e segue estando. É um exemplo muito interessante de outras formas de organização humana que seguem sendo exitosas para quem as praticam e, nesse sentido, nos oferecem exemplos positivos de como podemos, talvez, começar a pensar mais flexivelmente.

Mudanças climáticas: o desafio de viver em um mundo dinâmico

Quando pensamos em mudanças climáticas, pensamos em uma expressão de alerta, de perigo, porque implica mudança. Mudança de quê? Mudanças em nosso meio ambiente. Trata-se de uma expressão muito reveladora, muito sintomática de como pensamos nosso meio ambiente. Pensamos que o meio ambiente é, necessariamente, estático. Pensamos que a natureza está, mais ou menos, em um estado de equilíbrio. Mas, na realidade, a natureza não está em equilíbrio. Nunca está em equilíbrio. A natureza é dinâmica, assim é. E nós, como humanos, sempre fomos parte dessa natureza dinâmica. Porém esquecemos, devido à nossa forma de vida atual, por nossa forma de vida cosmopolita, urbanizada, com cadeias de produção e consumo muito especiais que nos distanciam do trabalho com as coisas do meio ambiente.

 

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Pensamos que a natureza tem que ser constante porque, senão, ameaça nossas criações que são nossas cidades, nossas cadeias de produção, nosso mundo de consumo e entretenimento, que cada vez está mais distante. Os povos que estão nessas ilhas estão vivendo em um meio físico de constante transformação. Para eles “mudanças climáticas” é um conceito estrangeiro, porque chega e os coloca também em alerta: “Bem, o homem branco está nos dizendo que as mudanças climáticas são algo perigoso e que isso está acontecendo conosco”. E sim, a ironia é que estas ilhas são as primeiras a sofrer problemas de subida do nível do mar, que se eleva à medida que derrete o gelo dos polos. Problemas com a acidificação do mar, de chuvas mais extremas, secas mais extremas. Porém não são condições que sejam novas para essas comunidades.

Essas comunidades vivem num meio ambiente que, constantemente, os fizeram adaptar-se e aprender a viver com mudanças climáticas. Isso não é banalizar as mudanças climáticas atuais. A escala e, sobretudo, a rapidez do aquecimento global hoje é preocupante e é problemática. Porém, o que nos ensinam essas comunidades insulares é que é possível viver em um mundo dinâmico, com formas mais orgânicas, mas imaginativas, mais flexíveis, horizontais de relacionar comunidades e pessoas. Isso não quer dizer que não possa existir o Estado como uma forma de organização e pensamento. Quer dizer que temos que começar a pensar em formas não estatais de organização e pensamento. E o conhecimento indígena sai desse tipo de contexto social. Ao mesmo tempo em que é preciso mudar as ações humanas que causam o aquecimento global,  porque são negativas para todo o planeta, o saldo é negativo, embora nem tudo seja negativo, nem tudo seja catastrófico. Estas comunidades ilhadas também nos oferecem exemplos de que a vida no planeta sempre foi sujeita a violências geofísicas, biológicas, com as quais estamos desacostumados agora, mas que nunca foi estranho, nunca foi distante da vida humana. Tem mais valor hoje a experiência, quando dizemos que o conhecimento indígena não é algo místico e esotérico. São experiências, são práticas de vida, neste tipo de meio ambiente, ilhado.

 

Ficha Técnica

Entrevistado
Carlos Mondragón

Performance
“Um clima bom para tomar outros banhos”
Coletivo Onírico de Teatro
Henrique Dutra
Lis Nasser
Maria Clara Teixeira
Ana Paula Piunti

Entrevista
Daniela Klebis
Tainá de Luccas

Textos
Susana Dias

Transcrição e tradução
Susana Dias

Direção e Roteiro do Vídeo
Susana Dias
Cristiane Delfina

Captação entrevista
Tainá de Luccas

Fotos
Natasha Mota

Captação performance
Cristiane Delfina

Montagem
Cristiane Delfina

Trilha Sonora
João Arruda

Agradecimentos
Sebastian Wiedemann