ISSN 2359-4705

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As aves-sapiens do mangue

Título: As aves-sapiens do mangue


Autora: Nil Sena

Graduanda em pedagogia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-Campinas), teatróloga e folclorista, PLP- Conselheira Fiscal da Associação de Educadores(as) Sociais do Estado de SP (AEESSP)

Alumeia sol nascente, sol dos meus irmãos do morro, teu clarão é meu socorro. Foi Deus quem me deu uma estrela que alumeia o meu maracá!

As aves-aapiens dos mangues, as asas quíntuplas dos homens, procuram na lama dos mangues moluscos e crustáceos que aliviam a fome. A fome, insaciável lâmina, consome dos homens os sonhos, mas depois do temporal, nasce outro carnaval, as aves-sapiens sorriem, sorriem e dançam, dançam um maracatú! Fazemos arte na lama, fazemos amor na lama, sobrevivemos da lama, todos viemos da lama, mas não bebemos a lama, quero os meus filhos deitados em cama, chega de dormir na lama, chega de existir na lama, chega de viver na lama. Chega!

 

Dentro do meu maracá tem um sol que dá clarão

para alumiar o povo da cidade e do sertão

seja o povo de Goiás, São Paulo ou do Maranhão

alumeia o morro inteiro pois tão grande é teu clarão

Alumeia sol nascente, teu clarão é meu socorro

Alumeia irmão sol, todos meus irmãos do morro

todos meus irmãos do morro, todos meus irmãos…do morro!

Em São Luís é assim, há sempre um encanto, uma magia, um canto, uma poesia, mas entre tanta cultura há lamentos que me torturam, pois foi lá onde vi pseudo-rastafaris, portadores de dreads que nunca conheceram Jah. Rastafaris que tomam cachaça, comem carne vermelha com farinha, dão porradas nas neguinhas e à noite vão para as radiolas de reggae, esperar às turistas pra dançar agarradinho. Também vi cantadores com suas vozes potentes e suas bocas ausentes de dentes, fazerem versos de amor e beleza para políticos sem nenhum valor. E esta poesia feia me lembrou Solano Trindade:

Há poetas que só fazem versos de amor, há poetas herméticos e concretistas enquanto se fabrica bombas atômicas, enquanto se prepara exércitos para a guerra, enquanto a fome castiga e mata os povos e depois eles farão versos de pavor de remorso, e não escaparão ao castigo, porque o terror da guerra e a fome os atingirão também.

Foi lá onde vi meninas que se prostituíam sem sequer saber o que faziam. Aos gringos se vendiam ao som de bumba-meu-boi e cacuriá e eu, uma poetiza anônima indignada, escrevia:

Fez-se triste o que era lúdico e a poesia feia se cria, a prostituta sorria, antes não tivesse coração, não sofreria, não sonharia, não sorriria, não pensaria, não gozaria! Antes tivesse vida fácil. Fácil é ver o invisível diante da dor que não doía, é suportar a dor de uma barriga vazia, ganhar o pão abrindo as pernas e calar-se quando te chamam vadia, fácil é dizer eu te amo, quando o amor nem principia, é beijar a boca daquele que tu repudia, fácil é fingir que já gozou, com a vagina seca e fria!

(trechos da performance teatral As aves-sapiens do mangue)