ANO 06 - N14 - "Fabulações Miceliais" ISSN 2359-4705

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Coletes amarelos, ZADs e Antropoceno: os pontos de vista de Latour e Vaneigem sobre as controvérsias francesas de 2018


 Evandro de Martini[1]

Introdução

A partir de novembro de 2018, todos os sábados na França têm sido dias de manifestações dos coletes amarelos. Inicialmente mobilizados contra um aumento nos combustíveis, centenas de milhares de manifestantes em todas as regiões do país ocupam as ruas, estradas e rotatórias, com um uniforme que é item de segurança obrigatório em veículos franceses, amarelo fluorescente para tornar o motorista mais visível em caso de acidente.

Várias imagens dos protestos dos coletes amarelos rodaram o mundo, incluindo cenas de violência, com vitrines de lojas quebradas, seguidas por forte repressão policial. Segundo o jornalista e documentarista David Dufresne, que compila os relatos de violência policial, desde o começo do movimento dos coletes amarelos até o dia 26/01/2019 houve uma morte, 152 feridos na cabeça, 17 pessoas que perderam um olho e quatro mãos arrancadas (GILETS, 2019).

Uma outra série de imagens que chama a atenção inclui uma bandeira da França, próxima ao Arco do Triunfo em Paris, com três números escritos sobre cada uma das três cores: 1789 sobre o azul, 1968 sobre o branco, 2018 sobre o vermelho. Uma simples pesquisa por “1789 1968 2018” no buscador de imagens do Google redireciona para várias fotografias dessa bandeira que aponta para uma continuidade histórica entre dois eventos de ruptura na França, que influenciaram grande parte do mundo, e a crise atual. No calor dos acontecimentos, sem dúvida é difícil ter certezas sobre as causas e consequências dos “coletes amarelos”, mas os questionamentos são muitos, como explicou o jornal mexicano Jornada em dezembro de 2018:

Trata-se de uma versão atualizada da tomada da Bastilha de 1789, em uma nova arrancada revolucionária? De uma rebelião à maneira do movimento de 1968? De um ajuste de contas popular com uma classe política arrogante e um grupo de privilegiados? […] Ou, como o governo gostaria, trata-se simplesmente de um daqueles choques da população em busca de algumas medidas que melhorem sua situação econômica e social? Em qualquer caso, não se pode negar que a crise é grave e não parece se acalmar. (FUENTES, 2018, tradução nossa).

Sem qualquer pretensão de responder às questões mais imediatas, como por exemplo se os coletes amarelos “são de esquerda ou de direita”, ou por quanto tempo vai durar o movimento iniciado por eles, buscaremos aqui resumir e comparar o ponto de vista de dois importantes pensadores europeus sobre as controvérsias sociais que movimentaram a França no ano de 2018. O escritor e filósofo Raoul Vaneigem, que foi um dos principais influenciadores do movimento de 1968, mantém até hoje seus pontos de vista libertários, sua crítica à sociedade de consumo e a desconfiança em relação a qualquer iniciativa dos empresários ou do Estado. Por outro lado, o sociólogo Bruno Latour, um dos principais teóricos do chamado Antropoceno e considerado o autor de ciências sociais francês vivo mais citado no mundo (BOLLON, 2019), acredita que o Estado pode e deve aprender com os movimentos sociais inovadores. Apesar das diferenças, Vaneigem e Latour fazem avaliações semelhantes sobre a importância das contestações dos coletes amarelos. Ambos também chamam atenção para o aspecto inovador da Zona a defender (ZAD) estabelecida em Notre Dame des Landes, no oeste da França, que impediu em 2018 a construção de um aeroporto que causaria grandes impactos socioambientais. E, finalmente, ambos lamentam a resposta do governo francês aos coletes amarelos e à ZAD, com forte repressão policial e pouca abertura ao diálogo.

Não custa repetir: as incertezas são muitas. Para Latour (2019a), a desorientação do período atual é grave e as pessoas têm dificuldade em explicitar seus interesses porque se encontram entre dois projetos de civilização incompatíveis. Na mesma linha, Vaneigem descreve os tempos atuais como um período crítico em que a menor contestação particular se articula com um conjunto de reivindicações globais. Para ele, novas formas de sociedade dão seus primeiros passos neste momento de impasse do antigo modelo civilizacional, ou seja, “tudo é possível” (VANEIGEM, 2019a).

Algumas hipóteses, contudo, podem ser descartadas por quem pretende entender a situação para além das explicações simplistas. Em primeiro lugar, os casos de racismo e antissemitismo que parte da mídia francesa associou aos coletes amarelos são evidências anedóticas que não representam a totalidade do movimento, segundo a economista Julia Cagé (2019). Para ela, certamente há racistas, antissemitas, homofóbicos, misóginos no meio dos coletes amarelos, como em todos os lugares, e essas violências precisam ser denunciadas, mas não de forma a deslegitimar todo o movimento, que é plural (Cagé, 2019).

Segunda hipótese: o governo Macron teria iniciado uma eficiente transição do país em resposta aos desafios das mudanças climáticas, transição que alguns manifestantes reacionários contestam. Maxime Combes, economista que defende a urgência de “saímos da idade dos fósseis” (COMBES, 2015), ou seja, a necessidade da transição para uma economia de baixo carbono, explicita as contradições entre o discurso e a prática do governo francês, ao reduzir impostos para milionários enquanto aumenta a tributação dos combustíveis, que pesam mais sobre famílias distantes dos centros urbanos. Combes considera o governo Macron prisioneiro de uma ideologia que impede a atuação sobre as causas estruturais da dependência excessiva dos combustíveis fósseis.

O discurso pretende ser simples e acessível: é aumentando os preços dos combustíveis que os consumidores modificarão seu comportamento, [mas como] podemos justificar uma política de aumento dos preços dos combustíveis para as famílias quando as empresas – em particular no transporte aéreo e marítimo – estão isentas destes aumentos? […]

Ao defender uma política fiscal ineficaz e anti-redistributiva, e recusando-se a acompanhar a tributação ambiental de um plano de transição para reduzir os gastos de mobilidade e de aquecimento das famílias, Emmanuel Macron e seu governo estão arruinando o consentimento dos franceses ao pagamento de impostos. (COMBES, 2018, tradução nossa).

Combes (2018) chama atenção para outras contradições: parece absurdo que o mesmo governo Macron, que utiliza o discurso da “transição ecológica” quando convém, apoie ao mesmo tempo a construção de novas rodovias e incentive o fechamento de linhas e estações de trem em cidades pequenas.

Cagé considera que os coletes amarelos são sintoma de uma crise não apenas do poder de compra dos franceses, mas também de uma crise da democracia: amplos setores da população, que não tinham voz, “queimam pneus para enfim serem vistos – em particular pelos jornalistas e políticos” (CAGÉ, 2019, tradução nossa). Para ela, a redistribuição do poder – de compra e político – é uma urgência social, política e democrática.

Raoul Vaneigem, a estratégia do desespero e os territórios liberados

O escritor belga Raoul Vaneigem viveu grande parte de sua vida na França e tem escrito sobre vários tipos de pensamento antiautoritário, incluindo as heresias medievais, a poesia de Lautréamont e dos surrealistas. De 1961 a 1970 foi, junto com Guy Debord, um dos principais nomes da Internacional Situacionista, grupo de vanguarda que buscava ultrapassar todos os tipos de espetáculo, de alienação e condenava as formas de arte ou ideologias separadas da vida quotidiana. Seu livro A arte de viver para as novas gerações, de 1967, foi uma das grandes influências do movimento de ocupações de maio de 1968 em Paris, junto com A Sociedade do Espetáculo, de Debord, também de 1967. Vaneigem foi o autor de alguns dos slogans que ocuparam as ruas de Paris, como “viver sem tempo morto e gozar sem entraves”. Assim como a maioria dos estudantes e operários, ele criticava ao mesmo tempo as ideologias dominantes de esquerda e de direita: “Qualquer apelo à produtividade é, sob as condições desejadas pelo capitalismo e pela economia soviética, um apelo à escravidão” (VANEIGEM, 2002 [1967], p.61). Criticava, assim como Debord, o espetáculo, característica do capitalismo do século XX: “Da criatividade, a autoridade só pode e só quer conhecer as diversas formas recuperáveis pelo espetáculo. Mas aquilo que as pessoas fazem oficialmente não é nada ao lado daquilo que elas fazem às escondidas” (VANEIGEM, 2002 [1967], p.201).

Após as mortes de Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Guy Debord, Henri Lefebvre e outros pensadores que influenciaram a geração de 1968, Vaneigem aparece hoje como uma espécie de decano do pensamento antiautoritário e anti-institucional de maio de 1968, e é nessa condição que nos interessam suas ideias sobre a França de 2018. Com seu estilo irônico de escrita, Vaneigem descreve assim o contexto francês que deu origem aos protestos dos coletes amarelos, relacionando-os também com a ZAD de Notre Dame des Landes:

[…] como as pessoas conseguem suportar as restrições orçamentárias que afetam a saúde, a agricultura não-industrial, o ensino, a supressão de linhas de trem, a destruição de paisagens em benefício de complexos imobiliários e comerciais? E a petroquímica e a poluição industrial que ameaça a sobrevivência do planeta e suas populações?

A isso tudo Palotin Primeiro responde com uma medida ecológica. Ele taxa o combustível comprado pela população. Isso, dispensá-lo de tocar nos benefícios da Total[2] e semelhantes.

Ele já havia mostrado sua preocupação com o meio ambiente ao enviar 2.500 militares para destruírem, em Notre Dame des Landes, hortas coletivas, currais, construções sustentáveis e a experiência de uma nova sociedade. (VANEIGEM, 2018a, tradução nossa).

Palotin, nome francês com origem na peça de teatro Ubu Rei, de Alfred Jarry, designa um personagem subalterno. Vaneigem se refere sarcasticamente a Macron como um rei, enquanto vários jornalistas lhe deram o apelido de Júpiter, devido a atitudes e frases do presidente que apontam para um governo personalista, como por exemplo: “Eu assumo as escolhas que são feitas, e eu odeio o exercício de explicar os motivos de uma decisão” (DUVAL-STALLA, CRÉPU, 2018, tradução nossa).

A zona a defender (ZAD, em francês zone à défendre) de Notre Dame des Landes teve início em 2009 e tornou-se conhecida na mídia francesa em 2012, quando uma tentativa de evacuação pela polícia fracassou após dezenas de milhares de pessoas se deslocarem ao local para apoiar a luta dos zadistas (CAMILLE, 2013). Barricadas, tratores, casas e cabanas improvisadas conseguiram vencer as “forças da ordem”, inspirando a multiplicação de outras ZADs pela França. Notre Dame des Landes tornou-se um símbolo de defesa de um território contra “grandes projetos inúteis” (LE HIR et al., 2015, tradução nossa), associada à preservação da biodiversidade local, com a organização de hortos comunitários, encontros locais e internacionais como Camp Action Climate, Anti-G8 Camp e Reclaim the Fields (CAMILLE, 2013). Em 2018, poucos meses após sua maior vitória – o abandono, pelo governo francês, dos planos de construção do aeroporto – a ZAD foi completamente evacuada com considerável uso de violência policial.

Em seu livro mais recente, com o título auto-explicativo Contribuição à emergência de territórios liberados da dominação estatal e mercadológica – em francês Contribution à l’émergence de territoires libérés de l’emprise étatique et marchande – Vaneigem (2018b) continua desconfiado de qualquer instância governamental, e deposita suas esperanças na auto-organização de coletivos locais como as ZADs, entre outros. Para ele a predominância do capitalismo especulativo e financeiro gerou o que ele chama “o apocaliptismo e o hedonismo dos últimos dias” (VANEIGEM, 2018b, p.29, tradução nossa). O Estado de bem-estar social das últimas décadas foi “a última mentira de um capitalismo que ainda fingia melhorar a vida dos homens e mulheres” (VANEIGEM, 2018b, p.34, tradução nossa), mas hoje esse “navio dos loucos se enche de água por todos os lados” (VANEIGEM, 2018b, p.34, tradução nossa), de forma que o antigo lema “primeiro a obrigação, depois a diversão” não tem mais valor.

Ao empreender a desvitalização da terra e de seus habitantes, o capitalismo não dissimula mais seu programa de empobrecimento acelerado. Ele não tem escrúpulos em abordar os consumidores endividados declarando cinicamente: “Aproveitem hoje, porque amanhã será pior !!!” (VANEIGEM, 2018b, p.30, tradução nossa).

Vaneigem, contudo, se distancia das “estratégias do desespero que desarmam e desencorajam desde o começo as tentativas de emancipação” (VANEIGEM, 2018b, p.75, tradução nossa) e do pensamento econômico que “iguala o fim do velho mundo a um apocalíptico fim do mundo” (VANEIGEM, 2018b, p.76, tradução nossa). Para ele, a constatação das “condições deploráveis que nos dominam” tem como objetivo um “convite a ir além, para preparar o caminho para um mundo radicalmente novo” (VANEIGEM, 2018b, p.75, tradução nossa). Este caminho, para Vaneigem, tem sido apontado por algumas coletividades ao redor do mundo: nas regiões do México controladas pelos zapatistas, no Rojava – também conhecido como Curdistão Sírio, zona autônoma desde o início da guerra da Síria, onde se estabeleceu o diálogo entre diferentes etnias, a igualdade das mulheres perante a lei e a busca da sustentabilidade – e nas zonas a defender (ZADs) francesas, dentre as quais se destaca Notre Dame des Landes. Todos esses casos, ele ressalta, estão imersos em dúvidas, mas as incertezas sobre o futuro desses movimentos não diminuem “o efeito das ressonâncias espalhadas […] pela determinação de algumas pessoas de construir uma sociedade em novas bases” (VANEIGEM, 2018b, p.140).

Para ele, a violência de manifestantes que quebram vitrines ou fazem qualquer outro tipo de destruição representa a dissipação de uma energia que seria melhor utilizada na ocupação de zonas onde possa nascer uma nova sociedade (VANEIGEM, 2018b, p.110). A construção de um mundo novo e a resolução de jamais renunciar a ele – como fizeram os zadistas em Notre Dame des Landes – desmontarão o velho mundo com mais eficiência do que os conflitos violentos (VANEIGEM, 2018b, p.111). As vitórias parciais dos zadistas, que conseguiram em 2018 a suspensão dos planos de construção do aeroporto do Grand Ouest, para Vaneigem (2019a, tradução nossa) são “mais importantes do que as botas militares e estatais que vêm esmagá-los”.

Trata-se, portanto, de um pensador extremamente crítico ao paradigma econômico atual, mas que não perde a esperança. Para ele, ao mesmo tempo em que o planeta e a vida são ameaçados pela desertificação, soam também os gritos de uma revolta que esteve contida por muito tempo. Ao comemorar os 25 anos do movimento zapatista no México que, segundo o seu ponto de vista, gerou ecos muito além do pequeno território hoje controlado pelos zapatistas, Vaneigem compara essa “erupção social” com a França atual:

[A] consciência humana não morre nunca, ela se encolhe, vegeta, cai episodicamente em letargia, mas há sempre um momento em que ela desperta e recupera o tempo perdido.

[…] Mesmo se o movimento dos coletes amarelos cair nas trilhas do passado, na confusão, perder o rumo, isso não mudará o fato de que ele demonstrou uma radicalidade chamada a renascer e a se desenvolver. (VANEIGEM, 2019b, p.1, tradução nossa)

Vaneigem também se mostra fiel aos ideais de 1968 ao ver com bons olhos, no movimento dos “coletes amarelos”, a ausência de líderes ou interlocutores privilegiados com o Estado. Ele acredita que a ausência de chefes confunde os donos do poder: “por onde agarrar esta nebulosa em movimento?” (VANEIGEM, 2018a, tradução nossa). Para ele, as instâncias estatais gostariam de tratar a cólera do movimento como cega, mas a realidade é diferente:

Não se trata de uma classe, mas de um movimento heterogêneo, uma nebulosa onde politizados de todas as cores se misturam com aqueles que baniram a política de suas preocupações. O caráter global da raiva impede que os tradicionais representantes do povo recuperem e manipulem o rebanho. Porque aqui não há, como de costume, um rebanho que segue seu açougueiro. Há indivíduos que refletem sobre as condições cada vez mais precárias de sua existência cotidiana. Há uma inteligência dos seres e uma recusa à sorte indigna que cabe a eles. A lucidez tenta se encontrar apalpando, abrindo seu caminho no meio das incertezas (VANEIGEM, 2019a, p.16, tradução nossa).

Enquanto em 1968 muitos autores falavam sobre a “consciência proletária”, em meados de 2018, pouco antes do movimento dos coletes amarelos, Vaneigem (2018b) comentava sobre como nas últimas décadas a “colonização consumista” atacou a consciência de classe: “Vimos se enfraquecer, ou até mesmo desaparecer, a combatividade que o movimento operário havia aguçado ao confrontar um capitalismo que ainda não havia abandonado o setor produtivo em benefício do setor de consumo” (VANEIGEM, 2018b, p.51, tradução nossa).

Porém, para Vaneigem, a consciência proletária, que conquistou tantos avanços sociais, foi apenas uma forma histórica da consciência humana. E, se Vaneigem já apontava as ZADs e outras coletividades, como os zapatistas e o Curdistão Sírio, como experiências dos primeiros passos de novas formas de sociedade, para ele os coletes amarelos amplificam a mesma mensagem: “tudo é possível” (VANEIGEM, 2019a). A consciência humana, observa Vaneigem, “renasce sob nossos olhos, reanimando a solidariedade, a generosidade, a hospitalidade, a beleza, a poesia, todos estes valores hoje abafados pela eficácia rentável” (VANEIGEM, 2019a, p.17, tradução nossa).

O que Vaneigem chama de consciência humana, ligada à solidariedade e à “vontade de priorizar o humano sobre a economia” (VANEIGEM, 2018b, p.72), é um conceito fundamental para este autor, que utiliza um rico vocabulário para descrever a trajetória dessa consciência ao longo da história: ela infiltra as obras humanistas de Rabelais, Montaigne e Diderot, atinge um ponto culminante na Revolução Francesa, refloresce nos coletivos libertários espanhóis na década de 1930, deixa sua marca no movimento de ocupações de maio de 1968, de onde jorram hoje, como uma sucessão de ressurgências, as zonas, vilas e regiões que se livram de Estados e máfias (VANEIGEM, 2018b, p.122-3). Vaneigem não economiza em metáforas ligadas à fauna e à flora: essas ressurgências são interpretadas por ele como o “fermento de uma radicalidade capaz de migrar muito além do gesto e do objetivo iniciais” (VANEIGEM, 2018b, p.72).

E as ressurgências, os ecos, para Vaneigem, se dão sobretudo a partir de exemplos da vida real, muito mais do que pela influência de intelectuais. Para ele, o pensamento separado da vida é um produto de divisão do trabalho (VANEIGEM, 2018b, p.60) e a falência das ideologias revelou a falência dessa divisão em que a função intelectual governa a realidade material. Também nesse aspecto ele se alinha até hoje com os Situacionistas, grupo do qual fez parte nos anos 1960 e que se opunha a qualquer ideologia e denunciava qualquer tipo de espetáculo em que as pessoas fossem reduzidas à passividade de simples consumidores. O mesmo autor que, em 1967, defendia que a “verdadeira criatividade é irrecuperável pelo poder” (VANEIGEM, 2002 [1967], p.204), hoje defende que, se não ancorar seu combate na existência concreta, material, corporal, qualquer grupo se torna facilmente manipulável (VANEIGEM, 2018b, p.120).

Latour e o novo regime climático

O sociólogo e filósofo francês Bruno Latour é um estudioso da antropologia dos Modernos (LATOUR, 1994), dos graves problemas ecológicos e sociais do mundo contemporâneo, que estão unidos apesar de nossa insistência em dividir natureza e sociedade (LATOUR, 1999). Ele tem sido um dos pensadores que mais se debruçam sobre o conceito de Antropoceno (hipótese segundo a qual as mudanças causadas pelos seres humanos nos ciclos do planeta são tão grandes que a Terra teria saído da era geológica anterior, o Holoceno), refletindo sobre suas consequências sociais e políticas. As crises mundiais dos últimos anos e o esgotamento do modelo baseado na “grandiosa narrativa modernista do Progresso” (LATOUR, 2010) tornam seu pensamento cada vez mais influente na interseção entre as ciências ambientais e sociais, de forma que Latour é hoje o cientista social francês vivo mais citado no mundo (BOLLON, 2019).

Em janeiro de 2019, Latour publicou dois curtos artigos na imprensa francesa sobre os coletes amarelos e a grande debate nacional convocado por Macron em busca de saída para a crise. A desorientação geral dos franceses, para Latour, tem como causa profunda a grande distância entre os objetivos que a civilização estabeleceu até hoje e o lugar material onde esta mesma civilização deve aprender a viver se quiser durar:

Não se trata somente de uma oposição aos impostos sobre a gasolina, mas de uma crise existencial sobre a direção dada à civilização. (Reconhecemos aqui o paralelo com o famoso diálogo: “É uma revolta? – Não, Majestade, é uma revolução”, mas numa outra escala).

Como se espantar com o sofrimento daqueles a quem ninguém diz – mas eles o sentem perfeitamente – que o descompasso entre o projeto da civilização e o estado do planeta exige uma transformação profunda de seus estilos de vida? (LATOUR, 2019a, p.1-2, tradução nossa).

Latour se refere a um diálogo entre o rei Luís XVI e o duque de La Rochefoucauld em julho de 1789, quando chegaram a Versalhes as notícias sobre a queda da Bastilha. E o sociólogo prossegue com as referências à Revolução Francesa ao utilizar, em seus últimos artigos, assim como em quase todos seus artigos e livros mais recentes, a expressão novo regime climático – em francês nouveau régime climatique (LATOUR, 2015a; 2015b; 2017; 2019a; 2019b).

Clima, nessa expressão, é um conceito amplo que inclui também a extinção generalizada de espécies e a desertificação de paisagens. Para Latour (2015b, p.1, tradução nossa), o novo regime climático “ameaça todos os Estados em todas as suas dimensões de produção, de cultura, de habitação, de arte e de comércio. Ele ameaça nossos valores mais profundos”. Para ele, as sugestões dos coletes amarelos, assim como as respostas do Estado francês, repetem soluções e imitam as atitudes de antigamente. Equipada mal ou bem para responder às antigas situações de desenvolvimento econômico, a administração está totalmente perdida na transição para o novo regime climático, assim como os cidadãos. (LATOUR, 2019b).

A expressão Antigo Regime (em francês Ancien Régime), que se consagrou no verão de 1789 (CHRISTIN, 2008), imediatamente após a queda da Bastilha, resume o modo de organização social e a forma de governo monárquica contrária aos direitos individuais. Essa expressão “antigo regime” só pode surgir, segundo Christin, em situações muito específicas em que a sociedade tem a consciência de assistir a uma ruptura com o passado. Conclui-se que a expressão novo regime climático, assim como antigo regime climático, que Latour (2019a) também usa, dizem respeito, para o sociólogo, a uma ruptura que não é moderada nem simples.

Latour chama atenção ainda de uma terceira forma para os paralelos entre a França de 2018 e a de 1789, ao mencionar o episódio dos cadernos de queixas (em francês: cahiers de doléances), que oferece um precedente único de uma grande crise em que o Estado admitiu sua ignorância sobre o que era preciso fazer (LATOUR, 2019a). Os 60 mil cadernos foram preenchidos em 1789 antes dos Estados Gerais convocados pelo rei, e oferecem um modelo que Latour considera mais interessante do que um simples plebiscito limitado a algumas questões fechadas, determinadas pela administração: a carta de convocação para o preenchimentos dos cadernos, de 24 de janeiro de 1789, questionava a população sobre “os abusos, os impostos, os territórios e a economia, em um mesmo documento e sem pressupor uma série limitada de respostas possíveis” (LATOUR, 2019a p.3, tradução nossa).

Os cadernos de queixas realmente parecem ter sido uma oportunidade sem precedentes de participação da população na política do país, como relata o historiador Alfred Cobban (1989, p.85): “os camponeses, tendo pela primeira vez em séculos a oportunidade de expressar sua antiquíssima indignação quanto aos privilégios da cidade, não hesitaram em fazê-lo”.

Latour (2019a) argumenta que a França contemporânea precisa de algo parecido: uma “cartografia nacional de controvérsias” que precisarão ser resolvidas durante a inevitável transição do país rumo ao novo regime climático, segundo o princípio de que os melhores especialistas para elaborar este mapa são os próprios cidadãos que vivem diariamente nos territórios em mutação.

Ele ressalta que, em uma situação de crise sem precedentes, a passagem das simples reclamações – observadas nos protestos dos coletes amarelos e de outros grupos – às controvérsias nacionais pressupõe a descrição das injustiças percebidas pelos cidadãos, assim como a descrição minuciosa dos meios de subsistência destes: “não se trata de perguntar às pessoas do que elas gostariam, mas de refletir com elas sobre o que lhes permite sobreviver” (LATOUR, 2018a, p.20, tradução nossa). Na época da revolução francesa, a situação de fome generalizada chamava atenção para essas questões vitais. Hoje, Latour lembra, a crise ecológica é igualmente vital para todos, mas ainda insuficientemente visível. Para ele, assim como em 1789, mas de forma diferente, trata-se de uma crise de subsistência: os franceses não morrem mais de fome, mas eles não conseguem compreender o que lhes garante a sobrevivência (LATOUR, 2019c).

Nesse sentido, a comparação com os cadernos de queixas é reveladora: Cobban relata que, ao invés de consistir em reclamações gerais, as queixas dos camponeses costumavam ser expressas de forma específica, exigindo sobretudo a supressão das taxas cobradas apenas no campo e a eliminação das isenções das cidades. Os cadernos de queixas reúnem exemplos de reclamações muito claras e bem articuladas: os habitantes mais ricos do campo mudavam-se para a cidade a fim de fugir da tributação; os donos de fundições cercavam e devastavam as florestas que antes eram de uso comum, privando os camponeses de lenha e de pastagem para o gado (COBBAN, 1989, p.86-87,154).

Naquele mundo menos interconectado, os franceses de 1789 conheciam, muito melhor do que os de 2018, a situação material em que se encontravam: “quarenta anos de neoliberalismo e de globalização nos tornaram incapazes de saber de quê e de quem nós dependemos no cotidiano” (LATOUR, 2019c, tradução nossa). O processo de tomada de consciência das dependências materiais, que Latour (2018a) nomeia retorno ao território, evidentemente não é simples:

Sabemos que é preciso ancorar todas as práticas em um solo, que as condições materiais devem ser “sustentáveis”, que a economia deve ser “circular”, mas sabemos também que cada um desses objetivos entra em conflito com todas as decisões tomadas anteriormente sobre as cidades, as escolhas energéticas, as relações internacionais, o direito de propriedade, as formas de agricultura, etc. Reorientar rumo ao terrestre é, por definição, multiplicar as controvérsias sobre todos os assuntos possíveis da existência cotidiana e nacional, sem que o Estado possua as respostas (LATOUR, 2019a, p.2, tradução nossa, grifos no original).

Porém, sem minimizar a complexidade das controvérsias, Latour considera os coletes amarelos como “os precursores das batalhas do futuro – e é uma honra para os franceses o fato de terem tomado, uma vez mais, o papel histórico de precursores” (LATOUR, 2019b, tradução nossa). Para ele, trata-se de uma oportunidade de retomada da iniciativa, uma vez que todos os países precisarão, em algum momento, se lançar na “conversão geral de seu modo de funcionamento” (LATOUR, 2019b, tradução nossa) e algum país precisará ser o primeiro. Ele questiona: “Por que não agora? Por que não a França? Ser o ‘país dos direitos humanos’ não é mais suficiente. […] não se trata de regressar, de se empobrecer, de decrescer, mas de mudar de rumo para aprender a prosperar” (LATOUR, 2019b, tradução nossa, grifo no original).

Para Latour (2018b), as escolhas mais difíceis de uma sociedade são aquelas em que não há precedentes, em que tudo é inédito e confuso, e tais escolhas deveriam ser feitas pelo público, não somente pelas instituições que estão frequentemente atrasadas, adaptadas a modelos antigos. Na crise atual dos coletes amarelos, Latour lembra que a organização do Estado francês ainda está totalmente adaptada aos movimentos de modernização e de desenvolvimento atualmente incompatíveis com o novo regime climático.

A questão atual é saber se o governo pode aproveitar a crise e ampliar as discussões: “Uma vez que vocês protestam, com razão, contra as maneiras ruins de reconciliar ecologia e economia, o que vocês propõem de melhor?” É possível que um governo, do qual sempre esperamos que ele saiba o que fazer, aceite a repartição da ignorância ajustada à amplitude da crise atual?

Não se trata de uma simples consulta à população, [que] só faz sentido entre cidadãos capazes de expressar seus interesses e articulá-los em um projeto de transformação explícita. Ora, a desorientação atual é muito mais grave: nós temos dificuldade em explicitar nossos interesses porque estamos entre dois projetos de civilização incompatíveis (LATOUR, 2019a, tradução nossa, grifo no original).

O que se tem observado na cena política francesa, no entanto, não parece ser um governo disposto a aceitar a repartição da ignorância. O governo Macron vem lidando com manifestações inovadoras da sociedade, com a ZAD de Notre Dame des Landes e os coletes amarelos, como casos de polícia. Assim como Vaneigem, Latour chama atenção para as ZADs:

Após todas as bombas de gás lacrimogêneo e granadas jogadas recentemente sobre a ZAD de Notre Dame des Landes, não podemos duvidar que se trata de uma violência de Estado. Tudo leva à indignação contra a incompreensão das autoridades frente à originalidade da situação […]. Se o Estado é cego, a ZAD e seus apoiadores devem deve ensinar ao Estado como ele deverá se comportar quando a questão de terrenos de vida ou de territórios em luta for abordada (LATOUR 2018b, p.1, tradução nossa, grifo no original).

Todos os procedimentos do “Estado de Direito” tinham concluído sobre a necessidade de um aeroporto, porém a decisão final foi não o construir. Para Latour, isso significa que é preciso rever totalmente a forma de planejamento do país, baseada até hoje sobre as noções de progresso e desenvolvimento. Para ele, o Estado tem um conceito já pronto sobre o que significa “desenvolver um território”, e a ZAD ensinou aos governantes a seguinte lição: “Não nos imponham suas soluções já prontas, mas nos ajudem a concretizar as lições que tiramos de nossa experiência” (LATOUR, 2018b, p.1, tradução nossa).

Ao contrário de Vaneigem, que elogia exatamente o fato de as ZADs isolarem-se do Estado e tentarem criar, sozinhas, novos modelos de sociedade, Latour critica a recusa das instituições. Para ele, o Estado deve ser abordado como um “aluno atrasado”, pelos motivos expostos acima. No caso de Notre Dame des Landes, os impactos do aeroporto projetado foram medidos instituições e procedimentos adaptados a uma lógica do passado, do antigo regime climático. Assim, para Latour, as ZADs têm muito a ensinar aos especialistas em políticas públicas, pois elas têm forçado militantes, funcionários públicos, intelectuais e políticos a “abandonar esta filosofia da história, até aqui indiscutível, que dividia o antes e o depois segundo a inevitável e indiscutível figura do progresso e da regressão” (LATOUR, 2018b, p.1, tradução nossa).

As ZADs, Latour ressalta, são inovadoras porque não podem ser classificadas do lado do progresso ou da regressão: renunciar a um aeroporto é um “progresso” imenso em termos de mudança de rumo, mas é um atraso quase criminoso em termos de desenvolvimento à moda antiga. “Diante dessas inovações, o Estado nada sabe fazer exceto enviar oficiais de justiça para ‘restabelecer a ordem’” (LATOUR, 2018b, p.4, tradução nossa). Mas a ordem que é preciso restabelecer, argumenta Latour, exige uma mudança completa nos procedimentos do Estado.

O primeiro ministro francês Edouard Philippe, em seu discurso de janeiro de 2018 em que anunciou o abandono do projeto de construção do aeroporto de Notre Dame des Landes, deixou claros seus conceitos inflexíveis e sua perspectiva desenvolvimentista, ou seja, evidenciou a dificuldade que o Estado tem para aprender e mudar: “Esta decisão que tomamos hoje é […] excepcional em uma situação local excepcional. Eu quero dizer que nós continuaremos a desenvolver o país […]” (PHILIPPE, 2018, tradução nossa). É importante notar qual é o sujeito da frase (nós, o governo) e qual é o objeto (o país).

Bruno Latour também chama a atenção para outra característica inovadora das ZADs: para ele, não é possível saber se a ZAD de Notre Dame des Landes é um caso particular, local (como o primeiro ministro E. Philippe espera que seja), ou o prenúncio de novas “zonas” no mundo inteiro. Na França, outras ZADs se formaram, muitas delas fortemente reprimidas pelas forças da ordem nacionais ou locais. “A bem nomeada Nossa Senhora des Landes se apresenta como um pequeno milagre que reembaralha o local e o mundial tanto quanto o progresso e o regresso” (LATOUR, 2018b, p.2, tradução nossa).

Para Latour, o “sonho da globalização” já foi abandonado inclusive pelos países que mais se beneficiaram com ele – basta ver o >Brexit – e é precisamente neste momento da história mundial que as ZADs podem contribuir para dar um novo sentido às noções de local e mundial. “Como inventar um sentido de pertencimento sem cair na simples identidade nacional?” (LATOUR, 2018b, p.3, tradução nossa). Notre Dame des Landes, para ele, simboliza a tomada de consciência da importância de territórios de subsistência que é preciso defender (LATOUR, 2018a).

Em seu livro mais recente, Où atterrir? (em português: Onde aterrissar?), Latour (2017) trata exatamente desses temas: na era da modernização, pertencer a um solo, cuidar de uma terra e se ligar a ela, tudo isso era considerado reacionário em contraste com a fuga para a frente imposta pelo progresso. Porém, atualmente, a maioria dos dados científicos apontam que não há um planeta, um solo, um território capaz de abrigar o projeto de globalização para o qual todos os países pretendiam se dirigir. Para Latour, o projeto de modernização se tornou impossível, pois não há uma Terra que dê conta dos seus ideais de progresso e desenvolvimento. Com isso, argumenta ele, as sociedades precisam escolher entre dois caminhos possíveis: ou negamos a existência do problema, o que certamente trará consequências futuras, ou buscamos aterrissar – isto é, encontrar um solo habitável (LATOUR, 2017, p.14-27). Ele destaca, nos tempos de novo regime climático,

[…] a importância, a legitimidade, a necessidade mesmo de um pertencimento a um solo, mas, eis toda sua dificuldade, sem confundir esse pertencimento […] com a homogeneidade étnica, a patrimonialização, o historicismo, a nostalgia, a falsa autenticidade” (LATOUR, 2017, p.71, tradução nossa).

Latour também chama atenção para um slogan dos zadistas que ele considera genial: “Nós não defendemos a natureza, nós somos a natureza que se defende”. O slogan se alinha com uma constatação que era evidente para ele desde seu livro Políticas da natureza (LATOUR, 1999) e também, aparentemente, para os zadistas: uma certa concepção de “natureza” permitiu que os Modernos ocidentais ocupassem a Terra, porém “a exterioridade atribuída aos objetos não é um dado da experiência, mas o resultado de uma história político-científica muito particular que deve ser examinada” (LATOUR, 2017, p.85, tradução nossa).

A economia, Latour explica, “começou a abordar a ‘natureza’ a partir do século XVII como um ‘fator de produção’, um recurso exterior ao mundo social e indiferente às nossas ações” (LATOUR, 2017, p.85, tradução nossa, grifos no original). Porém, na atual era de Antropoceno e novo regime climático, não se pode nutrir tais ilusões: a Terra reage – quimicamente, bioquimicamente, geologicamente – e seria ingênuo crer que ela vai permanecer inerte qualquer que seja a pressão exercida sobre ela (LATOUR, 2017, p.99). Ele propõe o agenciamento da dita “natureza” de forma que ela seja considerada de perto, interna aos coletivos e sensível à ação dos humanos à qual ela reage fortemente (LATOUR, 2017, p.85, grifos no original). É importante notar como Latour utiliza a palavra social, isto é, referente a questões estritamente humanas, ao falar sobre a concepção predominante de “natureza” no mundo moderno, e propõe a palavra coletivo para designar grupos que incluem humanos e não humanos. Desta forma, podemos chegar a uma das possíveis definições do Antropoceno propostas por ele: “O sistema terrestre reage de agora em diante à sua ação de tal maneira que você não tem mais uma estrutura estável e indiferente para abrigar seus desejos de modernização” (LATOUR, 2017, p.108, tradução nossa).

Controvérsias mais recentes e discussões finais

No dia 15 de fevereiro de 2019, o governo francês colocou na internet um questionário à disposição da população para que ali fosse feito o grande debate nacional, nas palavras do próprio presidente. Mas uma breve análise das 82 perguntas – definidas não se sabe como ou por quem – mostra que o dito debate serve como justificação para validar escolhas já decididas por Macron e seus especialistas (BALDACCHINO, GUILBAUD, 2019). Por exemplo, sobre a questão das injustiças fiscais, assunto chave para os coletes amarelos, o questionário pergunta “Quais são na sua opinião os impostos que é preciso reduzir prioritariamente? Para reduzir os impostos e reduzir a dívida, quais gastos públicos é preciso reduzir prioritariamente? Entre os gastos do Estado e dos territórios, em quais campos é mais importante fazer economias?” (BALDACCHINO, GUILBAUD, 2019, tradução nossa). Mas não há qualquer pergunta sobre o aumento de impostos sobre grandes fortunas ou sobre empresas poluentes, como tem sido proposto pelos manifestantes em todo o país. Baldacchino e Guilbaud resumem a seção sobre impostos do “grande debate”: o assunto é a redução de impostos. À população, cabe decidir se é melhor ficar sem professores, sem submarinos nucleares, sem policiais, sem ônibus, sem usinas eólicas ou sem habitação social.

Para o cientista político Loïc Blondiaux (2019), a organização do debate, confiada a dois ministros – e não à Comissão nacional do debate público, criada em 1995 – reforça as evidências de que se trata de um grande monólogo nacional. O presidente francês, que já escolheu o novo rumo e finge debater com o povo, parece seguir a estratégia descrita por Vaneigem: utilizar o desespero para desestimular as tentativas de emancipação. Nada mais distante da mudança de rumo que Latour aborda.

Bruno Latour e Raoul Vaneigem, a partir de pontos de vistas e pressupostos diferentes, chegam a conclusões similares. Ambos olham ao redor e enxergam um planeta ameaçado pela desertificação e pelas extinções em massa. Para Latour, numa época em que a Terra reage às ações dos humanos, insistir nos antigos sonhos de modernização equivale à negação do conhecimento científico. A valorização da experiência das populações locais mais conectadas aos territórios pode apontar para novos caminhos, que o Estado, ainda adaptado ao progresso e desenvolvimento, precisará seguir, ao invés de comandar. Vaneigem, de forma similar, celebra a ocupação de terrenos onde os habitantes reencontram o gosto pela vida e revogam o mal-estar da alienação cotidiana (VANEIGEM, 2018b, p.119).

As crises da França de 2018 anunciam as do futuro: como conciliar justiça social e o que Latour (2017) chama de aterrissagem, ou seja, adequação das demandas de subsistência das pessoas às possibilidades reais do planeta? Para Latour, essas controvérsias tendem a se multiplicar, pois o debate público se encontra entre dois projetos incompatíveis de civilização, dois rumos diferentes, entre os quais será preciso escolher. Vaneigem aponta que uma série de zonas, vilas e regiões pelo mundo já têm escolhido mudar de rumo, e que esses exemplos podem ressurgir, florescer e se multiplicar. A linguagem de Vaneigem, ao invés de determinar causas e consequências, pressupõe conexões múltiplas, orgânicas, entre diversos “ninhos de resistência” (VANEIGEM, 2018b, p.122), o que não deixa de lembrar as conclusões da antropóloga norte-americana Anna Tsing ao estudar as conexões entre humanos, fungos e outras espécies vivendo em paisagens que ela define como ruínas do capitalismo: se queremos saber o que faz alguns locais serem habitáveis, devemos estudar as coordenações entre diferentes modos de vida e as múltiplas colaborações dentro de uma mesma espécie, assim como entre espécies diferentes (TSING, 2015)

Latour não tem medo de parecer exagerado ao afirmar que, assim como em 1789, a França atual vive a passagem entre um antigo e um novo regime. Para Vaneigem, novas formas de sociedade estão dando seus primeiros passos, quase sempre fortemente reprimidas pelo Estado, como no caso das ZADs e dos coletes amarelos. A ZAD de Notre Dame des Landes talvez não seja tão inovadora assim, se comparada com tantas outras experiências ao redor do mundo, incluindo muitas na América Latina. Porém, ao chamar atenção para a importância socioambiental de um território, ao negar o paradigma desenvolvimentista, ao subverter o que concluíam os estudos de impacto ambiental – segundo Latour, baseados em instituições e procedimentos adaptados a uma lógica do passado – a vitória da ZAD tem uma importante carga simbólica: renunciar a um aeroporto, imposto de cima pelo governo federal com todos os seus impactos locais de difícil estimação, é uma enorme mudança de rumo, um primeiro passo em um caminho possível, distante daquele caminho único que, até recentemente, prometia levar ao progresso e ao desenvolvimento.

Bibliografia

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Recebido em: 28/02/2019

Aceito em: 28/03/2019


[1] Engenheiro Ambiental. Técnico Ambiental e Pesquisador no ICMBio. E-mail: evandro.martini@icmbio.gov.br

[2] Grupo empresarial francês do setor petroquímico, presente em mais de 130 países.

 

 

Coletes amarelos, ZADs e Antropoceno: os pontos de vista de Latour e Vaneigem sobre as controvérsias francesas de 2018

 
RESUMO: No presente artigo, faremos uma breve contextualização sobre os aspectos contraditórios e complexos de algumas disputas atuais na França que alcançaram uma maior repercussão mundial com os manifestantes chamados “coletes amarelos”. Em seguida, abordaremos mais detalhadamente o pensamento de dois autores franceses que se debruçam menos sobre as disputas partidárias do dia a dia e mais sobre a inserção das controvérsias recentes no contexto do país, da Europa e do mundo. Bruno Latour e Raoul Vaneigem, dois pensadores de formações e ideias muito diferentes, convergem até certo ponto ao inserirem as crises e contestações da França de 2018 em uma linha do tempo que inclui as projeções científicas para o futuro do planeta, com destaque para as mudanças climáticas e outras consequências do Antropoceno, e também inclui ecos de outros períodos de ruptura do passado francês, especialmente os anos emblemáticos de 1789 e 1968. Ambos chamam atenção para a importância e inovação das ZADs – Zonas a defender – como contrapontos ao modelo de civilização baseado nas noções de progresso e desenvolvimento, modelo que parece ter se esgotado.

PALAVRAS-CHAVE: Antropoceno. França. ZAD.

 


Yellow vests, ZADs and Anthropocene: the ideas of Latour and Vaneigem about French controversies of 2018

 
ABSTRACT: In this paper, we will briefly contextualize the contradictory and complex aspects of some of the current disputes in France that have reached a major worldwide repercussion with the so-called “yellow vests”. We will discuss with further detail the ideas of two French authors who focus less on day-to-day party disputes and more on the insertion of the recent controversies in the context of the country, Europe and the world. Bruno Latour and Raoul Vaneigem, two thinkers with different ideas and formations, converge to some extent by inserting the French crises and disputes of 2018 in a timeline that includes the scientific projections for the planet’s future, with climate change and other consequences of the Anthropocene, and also includes echoes of other periods of rupture in French history, especially the emblematic years of 1789 and 1968. They both draw attention to the importance and innovation of ZADs – areas to defend – as counterpoints to the model of civilization based on the notions of progress and development, a model that seems to have reached its limits.

 

KEYWORDS: Anthropocene. France. ZAD.


 

MARTINI, Evandro de. Coletes amarelos, ZADs e Antropoceno: os pontos de vista de Latour e Vaneigem sobre as controvérsias francesas de 2018. ClimaCom – Fabulações Miceliais [Online], Campinas, ano 6,  n. 14,  abr.  2019 . Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/?p=10725