ANO 05 - N13 - "Inter/Transdisciplinaridade" ISSN 2359-4705

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Des-enquadres

TÍTULO: Des-enquadres


“A ideia de enquadrar um objeto numa imagem é tão importante quanto o conteúdo. Ao escolher e enquadrar alguma coisa, nós lhe damos a dimensão da importância que provém do fato de a termos selecionado. No momento em que se seleciona algo, lhe conferimos um valor adicional que o distingue de toda e qualquer outra coisa”
Abbas Kiarostami

O que a escola pode ensinar ao cinema? O que o cinema pode ensinar à escola? Parecesse que a proliferação destas perguntas se encontra na ideia de enquadramento tão cara para o cinema e em especial para o cineasta iraniano Abbas Kiarostami. Poderíamos pensar que o ato de enquadrar é o de selecionar aquilo que se dá a ver e perceber, aquilo que por ser relevante aparece a risco que outras coisas fiquem de fora. No entanto, o ato de enquadrar também poderia ser pensado como o ato de marcar um limite para que algo possa escapar. Esse algo poderia ser pensado como a vida mesma. Podemos tentar disciplinar, enquadrar, controlar a vida, mas ela sempre encontra um modo de vazar, de se fugar. Enquadrar é sempre desenquadrar. A escola pode ter a aspiração de formar, mas sempre algo escapa a vontade de forma. As salas de aula podem ser rígidas, assim como os conteúdos, mas os corpos das crianças contem uma maleabilidade impensada. Há um excesso dos corpos que não se deixa capturar ou enquadrar. Esse excesso do real é o que move o cinema de Kiarostami, como essa vontade de fazer continuar a vida, o cotidiano, de promover que as coisas aconteçam. O cinema de Kiarostami nasceu na escola e é na escola que por primeira vez ele reconhece esse excesso da vida, do real. Propomos, então, entrar em filmes como Recreio (1972) e Onde esta a casa do meu amigo? (1987), onde paradoxalmente a vontade de enquadrar da escola é o germe que abre des-enquadres no cinema, onde a figura da criança é esse excesso e fluxo da vida, esse signo não capturável como potência singela acontecimental que prolifera. Algo que insistira, na indistinção entre vida e ficção, no filme de 1992, E a vida continua. A escola ensinou a Kiarostami, que embora esta sempre queira deixar muitas coisas de fora em sua vontade de formação, a vida nunca pode ser deixada de forma. Não se enquadra para conter, mas sim para inventar um modo novo de deixar escapar. O cinema, quem sabe, poderia ensinar a escola a inventar des-enquadres, a inventar fugas nas restrições, a subverter o enquadrar do ler-escrever, com o fluxo das imagens, a tornar algo visível onde antes não o era. Finalmente, a abrir derivas, desvios, dentro de um cenário que parece saber muito bem aonde quer chegar, mas como nos lembra Kiarostami, não se trata de chegar mas de continuar… Continuar por des-enquadres impensados.

 


Ficha técnica
Oficina realizada na disciplina Escola e Cultura a convite do Prof. Dr. Antonio Carlos Amorim, setembro de 2018.
Concepção e coordenação | Sebastian Wiedemann
Organização | Sebastian Wiedemann e Susana Dias
Participantes | Ana Beatriz Felipe, Ana Claudia Menezes Nunes Da Silva, Beatriz Ortêncio Leonarde, Bianca Brandão da Silva, Brenda De Macêdo De Vasconcellos, Camilia Da Silva Pardinho, Carolina Helena Bariani, Elizabeth Alves De Morais, Fabio Gozzi Franco, Gabriela Luz Jacques, Gabriel Pereira Frare, Guilherme Marino Zanini, Henrique Monteiro Lapo, João Victor De Oliveira Mazzucatto, Júlia Altafini, Julio Cesar Silva Da Cunha, Maria Carolina Pinto Martins, Nathália Batista Vieira, Pedro Augusto Scarassati Vicentin, Pedro Werneck Rosa, Rafaela Bertini De Araujo, Rafaella Malafaia Algodoal Da Silveira, Rauanda Schultz Santos, Sebastian Wiedemann, Susana Oliveira Dias, Victoria Zonta De Almeida, Yogo Ferreira Coriolano.

Fotos | Sebastian Wiedemann e Susana Dias
Local | Faculdade de Educação – Unicamp

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

WIEDEMANN, Sebastian (oficina). ClimaCom – Inter/Transdisciplinaridade [online], Campinas, ano.  5, n. 13. Nov. 2018 . Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/?p=10493


 

SEÇÃO LABORATÓRIO-ATELIÊ |INTER/TRANSDISCIPLINARIDADE|Ano 5, n. 13, 2018

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